. TERMINUS
. AMURA 1
. AMURA
_____MONTE BUZACO_______
___________________________
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Monte Buzaco quando nasce a lua
cheia com os caprichos dos teus sonhos
há sombras e penumbras nos medronhos
fantasmas que o teu ventre perpétua.
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No dorso do teu verde a escuridão
solta-se em raios pelo firmamento
tudo como se fôra um só momento
acima da folhagem do teu chão.
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Caminhos torneados de arvoredos
e versos burilados de Bernarda
são a intimidade que retarda
o lento anoitecer dos teus segredos.
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Vento que sopra aragem que inflama
cedros e pilriteiros de viagem
onde se sente a alma da paisagem
e apetece dormir na tua cama.
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Com séculos de verde teu vestido
foi cortado no húmus rente ao chão
por monges e soldados foi tecido
aos quais a natureza deu a mão.
.
Monte Buzaco se o luar demora
numa salva de prata nos teus cumes
sobem das fontes águas de ciúmes
dos teus ribeiros um cantar que chora.
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__OLHOS NOS OLHOS___
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Deixei os olhos nos olhos que trazias
com o brilho da côr que me fazias,
a lembrar uma flor viva, escarlate ,
alva e macia ,a tua têz porfia
em sombras d’outra luz ,d’outra magia,
sonho de amor que em décadas se esbate.
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É curto o dia, o sol põe-se depressa
no horizonte além, de rosa quente,
e no entanto,
passaram sobre nós coisas esquecidas,
muito suão soprou nas nossas vidas,
feitiços do luar, cegueira ausente...
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Esperar o quê, por quê
se tudo se transforma neste mundo irreal ?
o amanhã talvez, já não importa
adivinhar, quando o passado é porta
que se fechou sem nada recordar.
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Se a aurora ainda nasce todos os dias,
por quê adormecer em tantos ais
fugindo do que chama ?
o coração que trazes, e não ama,
é como pôr de sol, que faz a cama
sobre um mar extraído dos seus sais.
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Gémeos são os pecados,
Igual a inquietação que nos sufoca,
Irreverente a angústia que nos toca,
Ocultanto a vaidade dos desejos...
Mas... nem bastava ser grande feiticeiro
P’ra imaginar o mundo num tinteiro
Reescrevê-lo a tinta dos teus beijos.
____SEQUÓIAS_______
Da Califórnia à curva da ribeira
velhas sequóias largas como abraços
sentinelas da estrada e dos espaços
bebendo o humus duma serra inteira
sombras em declive que maneira
de acompanhar os passos nos carreiros
de proteger a voz dos caminheiros
nas oratórias vãs por que se vive
erguendo ao sol perguntas e fazendo
na dança intermitente da folhagem
o berço a cama brancura dum lençol
nas grandes asas da tórrida estiagem.
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São velhas as sequóias , peregrino
alguém que vem pela sombra e pela frescura
por um silêncio resto de clausura
pela solidão dos tempos
pela gota das nascentes
e pelos raios de luz que o teto filtra
em multiplas opalas de verdura
são nuas as raízes esventradas
nas nervuras da idade
do chão ao alto corridas numa seiva
que escreve a história como minarete
em circunferências largas cujaorigem
agente reconhece sem bilhete.
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__COMO TE QUERIA__
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quando o sol nasce,
amar o acetinado dos teus lábios,
perder-me na marginalidade
do teu corpo
a anos luz da vidraça da porta
das ameias deste castelo !
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Como te queria envolvida
em tule diamantino
na cegueira dos dedos
na mistura da face
no silêncio das palavras não ditas
a milésimos de segundos
do rio dos teus olhos
onde me correm águas breves
em barcaças de sonho fútil...!
.
Como me ansiava apetecer-te
fugir, ganhar, perder-te
nesta rua de imagens
donde me partem sonhos e viagens,
ribeira de caniços e vazios
equívocos que descem estes rios
sonho irreal, pensar que não há margens.
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_NA ESTRADA DE PARIS___
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Na estrada de Paris, há florestas,
pendem sonhos dos ramos, são assim
verdes e amarelas e incertas
as imagens que voam sobre mim
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É doce pela manhã, a planura,
frescas gôtas de orvalho a destilar,
renascem dos destroços e da escura
tensão da noite, sombra a sussurrar.
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Há pinheirais na estrada a quanto avista
a nossa evolução, óptica pura,
bate de preto as asas um solista,
um corvo a solfejar toda a moldura.
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Restos de grão nos campos cerceados
pela lâmina de corte e do vazio,
escondem os ecos , gritos abafados
vozes das margens dum estranho rio.
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Esperam as águas nos vasos lagunares ,
dão forma a patos que se banham cêdo
fazendo do silêncio a alma dos lugares
e dos lugares um sítio de segrêdo.
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Há crepúsculos na estrada de Paris,
nas florestas abrem madrugadas,
há vómitos e raiva e ser feliz
nas vidas duma morte programada.
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Nos troncos perfilados há miragens
incógnitas razões, gerúndias idas
na estrada de Paris passam viagens
viajantes de inúmeras partidas.
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_ CEDRO DO BUSSACO__
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É verde o berço verde que te enlaça
ó cedro do Bussaco !
dos Açores te veio, o verde de barcaça
e verde das flores.
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De Espanha, de Castela, de Garcia,
te veio Ançã ,
cordame que o cinzel bateu, e havia
o verde da manhã.
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Veleiros d’outros mares e oceanos,
guardam lusos perfis,
gigantes e heróis, feitos, enganos,
da África, da India , dos Brasis.
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Mais verde se tornou teu verde berço,
plantado em cenóbio, em oração,
é verde e céu
aurora e promontório,
o verde aqui nascido, neste chão.
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Sobe-te à seiva cedro, essa verdura
ondulada na cor de frescos ramos,
sobe-te à seiva a fúria da procura
do caminho seguinte, onde amaramos.
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O verde aqui pintado, é o teu verde
ó cedro do Bussaco !Dos Açores
te veio o verde mar, verde barcaça,
e verde dos amores..
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___________VERDE__________
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Quando nasce o teu verde na paisagem
e a razão de sentir me faz favores,
surgem leitos de afecto em toda a margem
do breve rio dos nossos interiores.
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Àrvores que estendem braços, natureza
embriagada de sons, solenidades,
esmagadas pelo tempo e pela certeza
de ambíguos vendavais e tempestades.
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Abana o leme, o lenho, à noite escura,
sombras de outros gigantes, bojadores,
bátegas de água nas ânsias da postura
são mares de mêdos e perigos tentadores.
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Mar verdejante de troncos natalícios,
no salto dos riachos, onde um beijo
foi tudo o que valeu, foram princípios
da nossa espera adulta pelo desejo.
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___TRANÇA______
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De Amura me nasceram os olhares
dos teus olhos morenos e a trança
a cruzar sons na voz da nossa dança
larga e comprida, fios de luares
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De Amura me nasceu teu corpo e ode
a pele macia, o sopro, o chamamento
dos teus braços, abraço que sacode
o beijo dos teus seios, um tormento.
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Loucos anos do barro, apoteose
do indomável sonho e da procura
do tempo que não tem metamorfose
vontade que não tem ‘inda fractura
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De Amura me nasceu, das sobrepostas
pedras da guarnição, a incerteza
do pensamento ateu e as apostas
na seiva que nos trouxe à natureza.
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Seiva que perfumou os teus cabelos
tombando leves, doces pelo teu peito
regatos onde a água de tecê-los
afaga a mó de imagens no meu leito.
_____NOITE_________
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O barco avança sempre
em mar de sombraslâminas afiadas rumo ao céu
pela escuridão da noite presentida
no múrmúrio das águas
correndo livres soltas pelo vale.
é tudo presentido
não se mexem as folhas
nem a luz se adivinha pelo buraco
das copas recortadas
só uma estrela fria inóspita
algo de ausente
espreita fora dos muros...
.
seus limites escondem
a memória e os troncos as ravinas
a imaginação e um mosteiro
antigo e misterioso
são deuses e demónios
temores e medos
que se ouvem no silêncio
da alma dos loureiros ...
.
o aroma inebria
apalpa-se á mão cheia
como perfume no gineceu da flor
no gargalhar de grou
no abismo dum carreiro
na luz que se procura e se não vê....
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leito das assombrações...
uma vereda escura
um cedro gigantesco
uma torre sineira
uma ermida vazia
uma senhora do leite de madeira...
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____ OUTONO________
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Foram-se as noites de calor
e sopram os ventos outonais,
arrastando as folhas dos plátanos,
por palavras de verão
insinua-se o ano levemente
para se escapar nos dedos da memória.
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Foram as tardes um soldado inglês
vermelho como lacre
as ferrugentas páginas da história
vendidas num almoço pela importância
dum general medalhas na distância
ou nas saias xadrez dum escocês.
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Ecoaram pelos montes tiros sêcos
e nos regatos de àgua se calou
cada raio de sol oiro e castanho
casaca dos ouriços cresce agora
numa folha que cai que toca e chora
nas areias do chão que se apagou.
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Livres como as tileiras
os sonhos do estio são oráculos
os deuses encerraram
a feira que se armou e no terreiro
o último dos beijos do primeiro
e tudo terminou
fechado e prometido
no enorme bornal do mundo inteiro.
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_ALFUSQUEIRO____
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Descem as àguas, mês de Junho,
descem de pedra em pedra
cantando o silêncio
bebendo as vertentes
desses montes altos
que escondem Alcôba.
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Descem as águas ,mês de Junho
descem parecem serpente
torneando em vão
os corpos dos seixos
que afogam no fundo
desejos de verão.
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Grita o Alfusqueiro, mês de Junho
grita, transporta no ventre
sonhos e viagens,
recados que a serra
transmite p’ró mar
roçando nas margens.
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Corre o Alfusqueiro, água limpa
e pura, nas voltas dos montes
da manhã segura,
corre, salta e brinca
na réstea doirada
da ponte e da estrada.
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Na restea doirada, na curva
ccoitada, se mexe a semente,
se agita o celeiro,
na pedra que é tempo ,virtual oleiro
moldador das águas
do rio Alfusqueiro.
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._____LUGAR_______
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A serra faz-se em pregas sinuosas
salta-lhe o sangue de penedo em penedo
perante o declive surdo
tumulto dos ribeiros
dos pinheiros dos tojos,
dos cedros que se aninham
sobre o tapete de húmus
e pés de azevinheiro...
a minha busca é a busca da paisagem
da alma que cresceu daquela terra
terra inclinada abrupta
passos curtos miudos até amedrontados
trinta anos atrás pelo musgo
o musgo esverdeado dum olhar
sempre castanho , incógnito e interrogativo
sobre a razão da selva
a elevar-se dos troncos,
memórias que são virgens
esquecimentos, penumbras,
mundos maravilhosos e distantes
e sombras de soldados
murmurando na sede
leves rumores de vida...
o precipicio ecoa regurgita
como se uivassem as mesmas alcateias
sobre os mesmos teimosos caminhantes
se diluisse a água rumo aos rios
que não voltam atrás
ao reencontro vazio das nascentes....
sao sílabas inertes esquecidas
que fazem as palavras procuradas
no pó dum berço até num ai de mãe
num abandono atávico longinquo
indecifravel cá dentro de nós.
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____MONTEMURO_____
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Na serra de montemuro há uma imagem,
não é nossa senhora nem tão pouco
o que a imediata lógica produz
indefinida há construção e um louco
a soprar-lhe p’ra dentro muita luz.
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Há uma casa grande cor de rosa,
sugestão de conforto no deserto
da distância das leiras esverdeadas,
deambulando o sonho sempre incerto
escorre das paredes desmaiadas.
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Nos picos e nos vales percorre o frio
desoladora estrada secos vão
os olhares e murmúrios do presente,
farrapos só,vazio e compaixão
de tudo o que ruiu precocemente.
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Na serra de montemuro há uma imagem,
e água de nascente natural
se me limpar a mágoa é lá que vou,
se me lavar a face de jornal
e me tirar a dor que me ficou.
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_____VIA SACRA______
_____________________
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Desci os degraus toscos do sepulcro,
debruçei-me à varanda de pilatos,
e vi ao longe o mar, ou o que era dele,
imagem, onda, sal, nau de insensatos.
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Em toda a linha o céu ardeu no fogo
que o sol ali plantou quando partiu
deixando à bruma solta os astros novos
noite que a luz dos olhos definiu.~
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Corre no oceano uma réstea de prata,
brilhando numa onda feiticeira,
um pedaço que o sol deixou ficar
por empréstimo à lua, a noite inteira.
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Ameno e sensual como namoro,
este filete junto ao firmamento
está mais perto do todo que ignoro
quanto mais me afadigo em pensamento.
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No musgo da calçada apronto passos,
quase tão leves como o algodão,
ficam por lá do ser muitos engaços
poeiras mastigadas neste chão.
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É escuro na floresta, findo o dia
esvaziou-se o silêncio a quase nada,
recortam-se dos cedros seculares
bilros de copas negras assombradas.
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Desci a via sacra, vim do ermo
do verde entardecer, farto de mim
pois não me mostrei dócil, nem fui crente
nem percebi sequer a coisa assim.
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__NA ENTRADA DO CÉU__
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Na entrada do céu quero encontrar-te um dia,
na porta mais a sul na luz que me amacia
o fresco teu olhar na pele da tua mão
quero encontrar a chave do regresso
poder gozar daquilo que te peço
ao que agora respondes, rindo, não.
.
Na porta mais a sul, há cor e na paragem
desembarcam os crentes da viagem,
ãs almas entrapadas em jejum,
e é do lado de fora que se passa
toda a coisa do amor toda a trapaça,
enquanto os santos entram um a um.
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Mora o pecado, a dor e na devassidão
da lixeira dos homens o perdão,
reacende a vontade de viver
e de voltar no primeiro autocarro,
fumar uma beata de cigarro,
desembarcar na terra e renascer.
.
Na entrada do céu, cintura mais externa
vou esperar por ti, um trapo, uma lanterna,
toda a esperança terrena do meu lado,
não posso imaginar que num momento,
que fosse apenas simples pensamento ,
não tenhas cometido um só pecado !
.
Vou esperar por ti, vou agarrar-te a mão
trazer de volta à humana servidão,
o sonho que me atrai, e com calor
beijar teus lábios, ressuscitar, viver
o tempo de nós dois, que possa ter
na segunda existência um novo amor.
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____DESASTRE_______
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Vivemos a fugir e no abismo
que sempre ladeou a nossa estrada,
caímos no vazio imponderável,
jorrando sangue ardendo no delírio
dos vasos interiores
a matéria que finge a nossa estátua
tombou sem rede finou-se,
em torrentes de pranto e vagueia
pelos densos nevoeiros das manhãs,
fantasma de existências.
.
Esquecemos as horas, os horários
dos bifes matinais e mal passados,
batatas fritas, um ovo a cavalo,
onze e meia, não mais ó minha mãe !
na orla duma vida, quase à margem
no sulco destes pés e destes sonhos,
coisas comuns coisas de ocasião
na drenagem de sons e de coragem
de às vezes gritar alto e dizer não.
.
Fugimos do abismo dentro dele
procurámos às vezes simetria,
esgravatamos o dorso na agonia
cingido o corpo ao fio dos botões,
não temos paraquedas nem a morte
nos acena com mundos doutra sorte
que não somos nobreza mas plebeus
aqui, onde nos vemos somos pouco
a bagagem é leve o corpo é oco
nada nos avaliza se houver deus
quando à chamada a gente responder
que nada somos, além de bons ateus...
.
____POENTE_______
___________________
.
Nesta água que salta
que vai de pedra em pedra
roçando nos esqueletos
e nos caminhos breves
vive a alma dos frades
que há muito abandonaram
o espirito do sítio....
.
abre-se ao sul um tosco
um simples janelo
ruinas dum oráculo
de velhas divindades
em jaulas de silêncio
de preces esquecidas
no seguro aconchego
do arvoredo dentro.
seguro espreita o muro
olhar acima do postigo
alçado sobre o catre
um pavimento grosso
de pedra lisa e gasta
desfaz-se em humidade
numa capa castanha
há musgo e o mistério
do tempo e do silêncio.
.
no horizonte ao longe
os campos do mondego
do águeda, do vouga
lavrados pela névoa
da violência calma
irão submergir
na tarde duma tarde
doutra tarde qualquer.
________JANEIRO_______
___________________________
Segurei tuas mãos e foram leves
alguns minutos mais da noite vinda
segurei tuas mãos instantes breves
que se foram e penso ter ainda.
+++
Beijei-te as faces na carícia o sonho
do que não pode ser por ser somente
fútil sopro de vento aonde ponho
uns pedaços que fazem o presente.
+++
Entrelaçamos dedos na memória
do pouco que já foi por nós vivido
espalhámos semente na ilusória
estrada de nós dois de um só sentido.
+++
Imaginámos coisas ó irreal
aventura que tanto nos seduz
se o inventar é coisa trivial
não inventemos medo mas sim luz.
+++
Por tortuosas vias somos dois
a clamar da vida doação
dava-te tudo se pudesse pois
metade de mim próprio é transição.
+++
Segurei-te nas maõs pedi-te um beijo
na face de mulher não é pecado
é muito mais pecar ter o desejo
solto numa prisão amordaçado.
+++
Caiu a noite após parcos minutos
há sombras sobre nós a qualquer hora
faltam-te a ti meus braços devolutos
falta-me a mim o sol que me apavora.
.__________MOINHO DE SULA
__________________________
.
Na encosta de Massena
a estrada sobe á curvas
e nasce a pica folha
na humidade do inverno
que é feito de enxurradas
e de recordações
granadeiros azuis estão fuzilados
nas pedras dos barrancos
deles emergem cedros com raízes
cravadas nos seus ossos
em vales profundos grossos
e encharcados de águas.
+++
Sobe por aí acima
nesse corpo de inertes e de sóis
o incógnito ermitão
em diária oração
enquanto a chuva cai
nas carroças dos soldados
de súbito parados
e colados ao chão.
+++
São verde escuro os tons da natureza
sobem descem procuram estabelecer
uma paragem uma fotografia
de baioneta em riste não havia
outra forma de ser nem de fugir
do cerro pedregoso
inóspito nervoso e para a frente
montanha do presente
ao começar o dia
.
.
_____POENTE______
__________________
Nesta água que salta
pedra em pedra
roçando nos esqueletos
e nos ribeiros leves
há a alma dos frades
para quem credita ...
quem acredita crê
pois assim seja...
abre-se sobre o sul
um simples janelo
por onde cada alma
enjaulada de antigo
faz preces esquecidas
no seguro aconchego
do arvoredo
dentro do muro
há musgo , crença e medo
que o tempo semeou.
no horizonte
os campos do mondego
do águeda, do vouga
lavrados pela névoa
do sol do entardecer
vão morrer
numa bola de fogo
envolta em fumo
que á nossa frente
tomba quase a prumo
na sombra e resto
do escurecer.
.
______MATA___________
_______________________
De humidade é o sítio
e o frio que aqui nasce
rasga os ossos
nesta chuva que teima
sobre a encosta da serra
nas horas de ninguém
a caldeira do humus
o nevoeiro serrado
dos frades que não rezam
como foi tradição
esconde o céu
e pingos no telhado
acordam na capela
o oratório branco
por onde avança a bruma
o redodendro escondeu-se
na circunstância
o som macio esconde
chuva miuda
no silêncio que vem de fora
só as bátegas fazem
o curso do ribeiro
cantar de pedra em pedra
no meio do próprio inverno
e tarde vai e tarde vai lavada
lavada e espargida
na floresta verde
verde escura macia
que se recorta ou não
á nossa frente.
.
_______________NOITE
____________________
.
A tarde nas acácias foi a noite
negra .já sei que fiquei cego
de palavras de imagens e de sonhos
que ribonbavam no ar e nos pinheiros
no eco da trovoada
++++
Ficou tudo silêncio amargo
pelo cume das viagens
as mãos que amaciavam
arrefeceram como polos
e negaram os sons do abandono
++++
Que foi que apeteceu aos deuses
para beber as gôtas de àgua
da beira dos caminhos
dos seios e dos olhos
dos lábios que queimavam ?
++++
Quantas vezes subiu o elevador
da imprevisível rota
quantas vezes olhando o céu
se contornou a terra de ninguém
sem o norte do leme ?
++++
No cais absurdo
ancorou medo e a bagagem
dessa navegação futil
engolida pelo mar que coisa inutil
desaparecer na bruma
e desfazer-se em espuma...
___ENTÃO___
___________________
Gostava de te ver passar
no ford a acenar
quase de pé
pouco depois ao telefone
sou eu...
e a nossa experiência resumia
o quanto havia
na mesa do café....
++++
Mas quanta ansiedade se bebia
numa bica tirada nas palavras
avidamente ditas
pelo olhar...
e o tempo parava alguns minutos
para nos deixar escutar....
++++
As lágrimas vieram como chuva
que tombou com a sonoridade
do silêncio entre nós
fechado no conflito subjacente
por entre toda a gente
do após...
.
.
_________ORAÇÃO__________________
______________________________________
Haverá alma dos frades nas nascentes que brotam
fazem ribeiros breves assobiam
entre as árvores e sombras
e chilrear dos pássaros calados ?
++++
Haverá deus por aí numa janela aberta
haverá mesmo deus
em cada sul onde vagueia a lua
no rijo das encostas escarpadas
que seguram raízes ?
++++
Estará deus nas raízes e campos
do mondego do águeda do vouga
lavrados do horizonte
desde a aurora
ao sol do entardecer ?
++++
Ou será deus ali bola de fogo
que tomba a nossa frente quase a prumo
numa orgia de inferno
sobre as ondas do mar ?
++++
E haverá deus no pó que destes frades
ficou pelo monte
em capelas perdidas ?
ó alma humana talvez hajam centelhas
bocadinhos dum deus
á nossa volta
em cada um de nós
velocidade
do horizonte em frente...
.
.
____OUVIR____________
Eu gosto de te ouvir a contar histórias
quando te despes nua como flor
a contar-me da vida, obrigatórias
questões das tuas preces e amores
++++
Voltar aos vinte anos é loucura
direi que não fazia essa tenção,
só se me acompanhasse, com ternura
calor da tua mão, na minha mão.
++++
E um sonho comum, sonho e abrigo
das nossas transparências consumidas,
onde pudesse rir, rindo contigo
e pudesse beijar-te horas seguidas.
++++
E ter esses teus braços como vento,
pendurados em mim, sofreguidão
de cingir-te a cintura no momento
de fazer consumir nossa paixão.
++++
Depois saltar, saltar pela cidade
com pedaços dos dois côr de cereja
abraçar-te na rua, liberdade
de quem se quer e ama e se deseja
++++
Amaciar também os teus cabelos
desfia-los por mim ,que me apetece
sentir o teu olhar, teu corpo e tê-los
colados ao meu corpo, que anoitece.
++++
Gosto de ouvir a tua voz, pedaços
dentro de ti, da tua condição,
aromas que se espalham pelos espaços
como se fossem mundo em expansão.
_____ALVOR______________________
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Gaivotas do Alvor, quantas me trazem
o riso dos reus olhos o seio do teu rosto
as vibrações da noite nas areias
que a praia foi juntando
em todo o tempo !
x
Deste-me mãos , as tuas mãos pequenas
leves laranjas , luz do teu cabelo
a âncora do cais aguardando a maré
que nos detém no barco , no convés
ainda por partir...
x
aperto do teu corpo ,corpo a arder
no total abandono
voando pelos íntimos prazeres
do nosso esquecimento
bote de liberdade sem passado
num mar sereno de gaivotas feito.
,
ECO_________________________
.
Passas na rua
já não fica mais
que resto do perfume
dos teus olhos
Rita Antónia
no granito que soa
dos teus passos
a loucura morreu
o sonho
adormeceu
no relógio das horas
não há recuo
na rua dos compassos
os teus sapatos
são o comprimento
sem uma expectativa
de calçada
ou um momento
de esperar
por um cortejo
a rua é um cinzento
e complexo conjunto
de coisas desconexas
Rita Antónia
para além disso
não mais
que o charro
conquistado a martelo
sem te prostituires
é o que é...
.
_________SONHO_____________
.
B astava não ser nada e vir a ser de novo
alguma coisa mais que resto duma estrela
ou resto de cometa
e medir, verificar e ter conhecimento
do simples lugar onde os teus olhos rasam
a tua alma treme a poeira levanta
ou a razão se inunda de insatisfação
x
Bastava ver-te rir
rir e sorrir no sol pelas manhãs
e ter a teimosia de nunca me esquecer
do caudal que aumentou
e inundou a ponte que trazemos
ainda inacabada
x
Bastava juntar sal aos meus dias libertos
apanhar a neblina quando sobe do vale
que nos agarra o corpo
e me rebenta artérias
dilacera sentidos
me cega na loucura de não ser
identificação.
x
E voltar a ser nada com o olhar
sereno dos teus prados
sonhados na poesia da pintura
que afagas sobre a terra
voando leve como um asteróide
entre a luz que se esconde no crepúsculo
e a memória do espaço que ainda tens.
.
. _____ BARCOS_____
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
São sombras reflexos ou fantasmas
ou barcos só apenas barcos leves
ancorados na praia
costurados de cor
pintados de encarnado
de azul e de maria
e de ana e de flor
flor do mar
x
São os silêncios sons do fim da tarde
aurea de anoitecer
pedaços dum olhar
restos dum gesto
um simples apontar
a imensidão incógnita
de toda a hora
e de todos os nadas
x
Mastros pagãos tinta da mão
das almas e dos medos
dos monstros dos abismos
e dos filhos
no berço da sua mãe
um mar de prata e amor
um mar de espuma
em cada ida
quando o barco vem.
.
____FOZ DO ARELHO_________
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Como gaivota que volteia ao sopro
na bruma da lagoa
abre-se á madrugada o trinco da janela
que dá para o mar
que na praia abalroa
x
a amena manhã semeia as ondas
que se matam na areia
correndo a apagar os mitos duma noite
bronzeada de essência
mas tudo não é mais do que um segundo
e tudo é aparência
x
pois já nasceu a prata da manhã
serena cópia dum pescador a rebocar o sol
brilhando algures
na superfície plana da maré
mas nós, cercados do azul profundo
duma janela aberta á maresia
libertamos as grades ao tomar
o calor matinal
na mesa do café.
.
______CAMINHOS______________
Se houvesse outro caminho
para seguir viagem
outra ponte romana com destino
e tivesse a divina vantagem de saber
antes de acontecer
o que fazer
talvez voltasse a ser o que não fui
ou faria outra vez o que me exclui
do fatídico ponto de escolher
x
podia ser presságio nevoeiro
cerrado cego abrindo tarde ao sol
podia ser o que em lado nenhum
se encontra em nenhum lado
um fantasma ou um deus
um sonho inacabado
ou desperdício dos profundos ceus
x
mas tu serias sempre a mesma flor
selvagem nascediça erva dos montes
rude como o nascer de quantas fontes
rasgam á força entranhas maternais
sempre prelúdio embalador de peça
que nunca mais começa
e não acaba mais.
.
.
______MHILLA___________
.
É na diferença entre nós que te observo
na tua meia idade enobrecida
pela face corada e por reservas
que me parecem mais de juventude
que outra coisa qualquer
x
apenas construindo conseguimos viver
entre tantos papeis
são todos brancos e ontem poderia
servir-te muito como serves leve
tanta palavra vã
ou poderia amar vinte anos depois
depois do antes ter acontecido
pelos barrancos onde passa o caminho
que regulou o tempo dum teu olhar feliz
no aroma nas flores duma viagem
que nunca se repete
x
era aí que haveria o primeiro dos beijos
o primeiro que o sol beija nos olhos
o primeiro que o sal beija nos lábios
o primeiro que o corpo imprime e traça
nas colinas erguidas dos teus seios
quando era o tempo do tempo que passou
.
.
____NOVELO_____________________
_________________________________
.
Um dia há-de nascer um novo dia
um dia sem talvez
um dia em que te conte era uma vez
uma história de amor
um dia sem o ódio destes dias
sem lágrimas de fome
sem acenos de guerras
um dia só das nossas utopias...
x
Um dia em que ao chegarmos ao meio do dia
o sol já tenha dado ao mundo inteiro
a volta
o trigo e o celeiro
abastado para pão
tenha feito sorrir em cada alma
o perfume da flor
e não reste para dar
não mais que amor.
x
Um dia bem diferente
deste dia que temos pela frente
e no entanto
é possível fazê-lo
mão sobre mão novelo após novelo...
.
_____REGATA__________
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
.
São velas desfraldadas
as regatas que vemos da janela
em filas uma a uma
saiem do porto ao vento
para ir a todo o lado
ou a parte nenhuma
barcos em movimento
risco branco de espuma...
x
Vem da lanterna a chama
a empurrar as águas
um segundo um momento
recordações e mágoas
que ora cantam e soam
minha história uma vez
nas docas de lisboa
um sonho em portugues..
x
São velas liberdades
saltitam são pardais
para formar um só
no seu regresso ao cais
janela da cidade
que a lonjura apregoa
e me fazem um nó
em cada erguer da proa.
.
.
__________CHAT_____________
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
cliquei na internet...
olá sou eu
sou eu um anjo
um anjo e sou do céu...!
stupida cosa
pensei italiano
e voltei a clicar
io che so paolo e che non parlo
o português corrente
mas o anjo voltou alegremente
sto ti guardando qui del paradiso
será ele ou sou eu
a quem falta o juizo ?
pôs-se a saltar no plasma
de fibras ópticas
e eu pasmado
che cosa posso fare
e cliquei
cantou bailou gritou
e eu olhei
para uma imensa corte
donde o rei
se fazia coroar de disparate...
ma veramente
eu já não era eu
eu era um chat...
.
.
~~~~~~~~QUEDA~~~~~~~~~~~~~~
.
O tipo que me deixou cair por aí abaixo
bem o poderia ter feito
com uma protecção
mas não
foi saco de cimento
que se espalhou
pelo chão
x
O pó que levantou desapareceu
e com ele os sinais
do modelar do barro
os items iguais
da semelhança
que vai dum dedo ao outro
dum corpo ao outro corpo
do sol á lua
ou até só
ao fim da minha rua
x
O tipo que me deixou cair
num sábado de shotes
esqueceu na ressaca
toda a filosofia
numa pedrada de ordem
fez montes de papeis
e neles me queimou
no lixo que fazia
.
________CASINO________________
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Aconcheguei o sobretudo á gola
ou o contrário a gola ao sobretudo
estaria frio e muito só a noite
zero graus na parede das minhas mãos
cada dia que passa as mãos são menos
o frio aumenta esvazia-se á volta
desse sentido obrigatório azul
colocado pela câmara no largo do casino.
x
è por ali que passam diariamente
muitas das pulsações dum aglomerado
as palavras já ditas as não ditas
as escondidas no interior amargo
as que soltam gorgeios na garganta
aquelas que nem sequer existirão
e por ali guio devagar e sobre
as ruínas muradas do meu tempo.
x
também por ali a noite cai á noite
de toda a gente rigorosa e fria
fria como o deserto ou como a alma
até como um balão que se esvazia
e que não volta mais ao centro civico
vou só de sobretudo aconchegado e gola
por um inverno azul em que o sentido
de se pôr um sinal não tem sentido.
.
~~~~~UCANHA~~~~~~~~
.
Existe uma varanda á nossa frente
donde se vê o mar
os campos que lhe chegam
os rios que os sulcam
as neblinas brancas
nuvens a esvoaçar
x
nas sombras esconde-se a quietude
do espesso patamar
escutam-se os silêncios
o vento a marulhar
os ramos espessos altos
que à luz vão murmurar
x
solta-se o sol das nuvens
pisando pelo chão
pintando o musgo verde
num verde de ilusão
propagando-se em beijos
fluidos de paixão
x
um degrau um caminho
uma fonte em redor
um regato fugindo
um banco ou uma flor
o ligeiro gorjeio
na voz dum morador
x
um acerto em palavras
folgadas de calar
as pedras das portadas
manhã a gotejar
a névoa que se estende
juntando a terra ... ao mar
.
.
-------------VER-----------------
.
Caminho da minha porta para o nada
entro na rua pela janela aberta
vou ao regato dos liquidambares amarelos
quando me sento no banco de madeira
passa o dia por mim e não o vejo bem
x
o lago estende-se um pouco mais á frente
com gansos e um par de patos reais
voando sobre a água e voltam
na sofrega ingestão das suas vidas
particulas de insectos e de luz
x
luz que se estende e cresce verdejante
barcos voltados nas veias da minuscula
e ilusória ilha do tesouro
sentado no meu banco de madeira
vejo passar-me o tempo na memória
x
um par de garças brancas explode
na margem escondida do inverno
fulgor adormecido o renovar
nas minhas mãos deserto
e no olhar um livro não aberto
x
quando vier a primaversa aflita
serôdia dumas chuvas
vai borbulhar nos ramos das encostas
com tanta pressa e tamanha avidez
que tudo voa e toma a sua vez.
.
_![]()
![]()
_CORAÇÃO________
.
Um dia irás arder
meu coração de folha de eucalipto
desfeito por entre as urzes
consumido no fogo
que alastra pelo verão
em grandes labaredas
x
Um dia vais arder
meu coração de folha de papel
empurrado pelo vento
na explosão das árvores
num rastilho de pólvora
aceso pelo sol...
x
Um dia vais arder
meu coração de folha de papiro
mirrado e entupido
silenciosamente
nos canais que tu tens
é que eu respiro....
.
________CRIME_________
---------------------------------------
Ouvem-se ao longe,longre,longe,longe
rajadas surdas de metralhadoras
que nos entram em casa
enquanto pinto árvores da serra do buçaco
em plena primavera
com vómitos de horror
x
os projecteis rasando pelas ruas
atravessando as praças inocentes
encharcam a cidade
o sangue corre, apalpa, tinge o asfalto
e rebentam as bombas entre dentes
e o chorar das mães habituadas.
x
balas que saiem entram rodopiam
ricochetes que perfuram ovários
de quem nunca nasceu
não foi homem mulher
ou outra coisa qualquer
em Bagadad
x
á noite é a escuridão que nos acorda
testemunhando o incomodo que é a morte
voando pelas pontas das rajadas
nos miseraveis dias
do parideiro inferno do mais forte
vendido em saco higienizado
via televisão....
.
.
_______ECO 2_____________
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Quando passas na rua Rita Antónia
deixas ficar um traço de perfume
o resto dos teus olhos consumidos
no eco do granito dos teus passos
sei lá se se perdeu na estrada de lamego
no tojo duma pedra de aviar
ou no saltar do açude num riacho
o teu olhar...!
x
o relógio parou contra a parede
no fundo da viagem
e os ponteiros foram de ambulãncia
em estado muito grave
para um sitio qualquer...
x
na curta rua que nos levou
ao relicário
de s. joão de tarouca
há apenas ruinas de ti própria
e uma curva
que agora junta artéria após artéria
num arriscado by passe..
x
em redor é silencio enevoado
por onde gritam labios desconexos
e labaredas de fome
Rita Antónia
para além disso
não mais que o charro
conquistado a soldo lacrimal
tua prostituição
é o que é...
.
.
ESCREVER
se para lá dos segundos
e dos raios de luz
vertiginosos
existe coração
não é o meu
tudo isto é inseguro
não mais que imaginário
e também um olhar
centecimal
se existe
masturba-se
não é teu
nem é o meu
nem aquele
que eu uma vez tentei...
desafiei...
é muito menos esse
que se o soubesse
cantar num livro
ou em guitarra
em verso
em tempo
em espaço
para voltar um dia
e compreender
a razão e o ser
e o não ser...
pois sendo mesmo assim
nada seria.
.
.
____CARTA____________
.
Voltei atrás e tinha a intenção
de chegar ontem ao meu destino final
só a recordação me faz partir
no vazio interminavel
do nosso tempo onirico...
espero chegar ontem de manhã
pois é a partir de ontem
ou da semana passada
que posso reencontrar o que deixei
o que já não procuro
mas tudo deixei ficar para amanhã
á tua espera
não sei mesmo se é amanhã que partirei
se não chegar a sair da manhã de hoje
amanhã chegarei já antes de ontem
para partir definitivamente...
de qualquer modo
nada modificará
o rumo da viagem sem retorno
viajo na trajectória das sete
que a partir da curva de centauro
se precipita no abismo
escrevo-te uma carta se puder
tiver papel e uma esferográfica
uma carta de nada...
mas nunca a leias
se te chegar á mão
se o fizer é do futuro
por onde se apagou todo um passado
a que não terás tempo
de regresso.
.
.
____NÃO VIAGEM_______
_______________________
Não é este ano que vou a Cagliari
pois me parece mais que virtual
a história da viagem...
apanho o barco sei
são umas horas duas
e a praia abre-se como se fosse um corpo
e o sol convida como se fosse Io
satélite de Jupiter
e surgem deuses na imaginação
a dedilhar as citaras plangentes
de fenicios e gregos
até ulisses nos pode ressurgir
com três velas latinas e um leme
na volta dum rochedo...
mas ir a Cagliari
na esperança de te olhar este ano
ou apanhar cerejas maduras
com virgens de silicone...!
oh ! aventura turva
em mar paralisante
pelos teus quatro olhares
mais um em ponto grande
o mastro da mezena
ou um copo de vinho
fica contigo
não vou este ano a Cagliari
deixo para depois...
_____POEMA 9 ___________
___________________________________
.
Não sei o teu novo código postal
mas sei que estás aí, mãe,
aí, debaixo dessa pedra
que ainda há pouco tempo
mandei compor
na tua cabeceira...
deixo-te este ramo de rosas
vermelhas de ira
e vermelhas de raiva...
faz-me falta o teu silêncio
o afago do teu sorriso,
o teu encolher de ombros
a angélica luz dos teus olhares...
e deixo-te estas rosas,
no dia dos teus anos
porque sei ,
eu sei que continuas a observar-me
desse buraco escuro,
logo depois da pedra
que se partiu,
onde escondes a face
e descansas o corpo
que te deixei esticado numa tarde...
em Setembro...
e é daí que vês,
é daí que obervas a loucura
e esta maldição, este não querer,
esta mordaça, esta insatisfação
dumas entranhas frágeis...
Deixo-te rosas mãe,
o tempo já é pouco
aonde habitas...
são vermelhas de raiva,
tingidas de palavras
de vingança
de mim próprio...
vermelhas são papoilas
das searas que não lavrei
dentro de mim.
Deixo-tas
Para me esquecer
do tempo esfarrapado
deste despir por nada
como lugres que voltam
com o porão vazio.
São vermelhas, mãe
Com o choros que te deixo ficar
na lisura da pedra ataviada
onde te deitas hirta...
vermelhas...
e regadas no engano
onde ponho os limites
impossiveis...
serena-me os sentidos
neste ramo de flores
e deixa-me fugir
e não voltar.
.
~~~~~~POEMA 7~~~~~~~
.
Escuto a minha voz
nas vozes que se escutam
nos prédios de três andares
que infestam o outro lado da cidade,
são poucos os poemas que se abrigam
na descoberta das ruas
insegura a palavra que não rima
ao fim de cada abraço
se o autocarro amarelo passa
para se precipitar no vão da escada
por uma porta aberta no horário.
A serrania dorme nos seus medos
lá , para lá da ponte , para lá do rio
e da curva que dá descanso ás águas
e dos salgueiros perfiladas margens
na lama dos caniços no terror da manhã
no pântano , na cheia , nos lobos ou na sorte
de quem desce sem barca
pelo silêncio agreste do tumulto.
Se a alma é uma anarquia de pedaços
são precisos os lábios para aquecer os sonhos
para erguer os tijolos para fazer as praças
para escrever as frases do nosso entendimento
para nos darmos as mãos , para existir
e procurar pagar todos os impostos
com ira , raiva e o discernimento
que nos faça acordar no outro dia.
.
___________SAÍDA_______________
Quizeste abrir a porta por onde entraste
se queres sair pois não te impeço, sai
não sei se levas mais do que deixaste
ou se deixaste mais do que aí vai.
++++
Foi hesitante, leve, não segura
a experência entre nós,pelo meu lado
podes levar o que trouxeste, na pura
convicção de muito ter ficado.
++++
Orando aos deuses vou dia após dia
consumindo no mundo a vida eterna
não te vejo passar nem a agonia
se a levas contigo me governa.
++++
O vazio do tempo é quanto basta
á minha resumida previsão
nada mais me consome nem me arrasta
no regresso aos segredos do meu chão.
++++
Leva tudo o que queiras pouco importa
na mistura que temos a esquecer
para abrir ou fechar já não há porta
nem há tempo sequer de a fazer.
_______POEMA 10__________
.
No fim da terra, havia um rio
de sonho em sonho, fez-se, sei lá
de leito cheio, leito vazio,
que lhe fizeram , barcos de estio,
que o vento norte já não lhes dá ?
x
Vento passante, vento e trovão
cumes da serra , que é dos teus sóis
coitos em fuga, aonde estão
os pensamentos vindos de então
de então erguidos como faróis ?
x
Espectros, fantasmas, por onde habitam
tantos segredos ditos sem voz
onde se perdem, onde se agitam
que danças tecem, que letras gritam
os que voaram, dentro de nós ?
x
Que regras ávidas de sofrimento
a sangue dizem que isto é assim,
já não há roupas ? Não há momento ?
não há principio? Não há unguento ?
já não há noiva ? Não há festim ?
x
Margem da noite , tão fria e nua
mora nas sombras tanto pensar
sonho que em medo se desvirtua
acorrentado na luz da lua
cego de vida , á mão do luar.
.
____GUI_________
Não te deites na areia pela praia
nas arribas torradas ou no vento
que esquece o tempo desse mar de genes
que te passa na frente
não agites as sombras que do sol
passeiam pelos corpos transparentes
tudo o que foi e nada está ausente
nesse mar calmo claro como sempre
se vês não grites que fazê-lo é vão
não é fluxo de água o que ali corre
na ravina do rio quando acorda
a madrugada nua e a lua cheia
faz deslisar por tudo quanto é raiva
nosso fugir acorrentado em vão
não de abandono não de esquecimento.
Esqueci-me de nós na natureza e ira
de fantasma e porão e nos segredos
do deserto queimado pelas vagas
do sol do verão de chamas ardiloso
pela praia que estendida de chapéus
deixa aproximar a gente quase nua
ou como assombração vai semeando
pernas e seios descobertos pontos
para sorver os raios e as palmeiras
perfiladas na rua
escasso tempo e de fome
nos contornos do espasmo dum gemido
quantos adeus são fáceis de dizer
quantos corpos são mais que o simples nome
o frágil fingimento
antes que o tempo pare de correr.
____GUI-1_______________
.
Nada perdeste em me deixar ficar
ao fundo da escada num monte de palavras
já não havia sentido nem diziam
mais do que já esquecemos
do início que não chegou a ser
sob a vista das pedras dos poetas
a noite dos nossos batizados impacientes
x
Podemos abandonar ao fundo das escadas
tudo o que não vestimos
tudo o que não chegou a ser de novo
ambos utilizamos numa segunda vez os restos
parte que não ficou da estreia original
por erros gestuais e emoções
subtraídas ao controle da fertilidade dos sentidos
x
Atiraste esse pouco para a rua
como se nada fosse e nada foi portanto
no espaço interior do teu sorrir
sabe-se lá se no procurar de alguma coisa
o calendário a encontrará um dia
nas gavetas profundas das ruínas que habitamos
inadvertidos , ignorantes, ávidos
da dolorosa ausência ?
x
Amanhã o dia será pior que o outro
e sucessivamente
fabricamos o tédio a insatisfação
em cada sopro de vida renascida
ou mesmo na secura que nos invade o ser
fabricamos em sonho o abandono
de cada dia seguinte
o último e o único que sempre se poderá pedir
ao fundo duma escada
ou noutro sítio qualquer.
.
MOMENTO_________
________________________________
Nunca me despedi . Estou desarmado
na manhã que findou .Mastro sem vela
com uma dor no peito e mais aquela
de quem sempre estou longe, aqui ao lado.
x
Nunca fugi , que fortaleza tinha ,
quanta desbaratei , quanta me dava
gasta por nada ter ! Nada ficava
também nada partia e nada vinha.
x
Nasci na ventania e vou morrer
tempestuoso, só e argumento
que nem contestação possa merecer
x
decalque aliás da gente que aqui passa
a vida é um segundo , é um momento
neutrão veloz de infinita argamassa.
.
~~~~PLASMA~~~~~~~~~~~
________________________________________
Foi ela que fugiu do que me dava
coitada, arrependeu-se de ter medo
ao ver que o céu azul não tem segredo
como cais de estação , quarto de hotel,
temeu pela palavra que não tinha
inócua, vazia e sem perfume
fundiu-se no engano e no queixume
numa tarde de junho , antes do verão
vitimou-se sózinha
decapitada em choro e confusão.
x
Teve rosas nas mãos
na pele macia nos lábios de setim
beijos de amor
procurou no principio o mesmo fim
e teve o que não teve mais além
do seu pequeno corpo a duvidar
mas não disse a ninguem
que poderia amar
morreu de ignorância , julgando-a
sabendo que se fosse , muita ou pouca
no tempo se haveria de mostrar.
x
Hoje passa por ali e não é mais
que resto duma imagem
ébria de encenação
já lhe falta a firmeza da saúde
e o silêncio que traz parece-nos virtude
duma virgem qualquer
perplexo presumo a existência
dum mar em turbilhão
não lhe chamo excelência
mas sim ,senhora sim, senhora não.
GÉNOVA
.
Levas-me a Génova mostras-me a Lanterna
que me há-de apagar na tua ausência
gosto de te ver rir e do teu sonho
fazer mais que de mim , fraca experiência
xxxx
que levas tu na mão senão desejo
de seres procura e insatisfação
remota busca que não falte ensejo
de ser a porta doutra imensidão.
xxxx
cala-te na distãncia a outra face
de querer e de não querer passar além
tu és um bojador se não temeres
será teu outro mundo que aí vem.
xxxx
leva-me a Génova ao porto e ás vielas
de amar uma cidade navegante
ali ressurgirei nas caravelas
de português sem leme nem sextante.
xxxx
leva-me ao porto para cheirar o mar
salgado do país que me deixou
leva-me ao porto se eu quiser voltar
na nau do novo tempo que passou.
xxxx
apanharei no cais o teu sorriso
quando o vento o trouxer e a tempestade
para nele chorar se for preciso
morrer impregnado de saudade.
PARTI
.
Partiste tu tinhas que partir
estava escrito nas pedras e no tempo
hesitações do pó do pensamento
o sopro do teu sonho de voar
asas de algum lugar
à procura de ti
x
e tinhas que partir pelo teu caminho
partir pelo teu pé
para te encontrares talvez ébria de vinho
para medires o amor
para saberes do mar
ao largo em teus silêncios escutar
o berço que trazemos
o nosso parto a nossa dor
x
e tinhas que deixar-me
quebrado o coração
os olhos num regato nos ásperos minutos
do meu inutil cais
que se destrói por si
abana tece
a luta que anda em mim
que me enlouquece
velha carcaça em busca do seu fim
_____________COIMBRA_______________
.
São sete da manhã
renasce o dia
e não te via assim
Coimbra
há muitos anos
vestida de romã
dispersa...
como eu próprio
me dispersei por ti
na memória do tempo
no silêncio
x
não se escuta o cantar
do carro eléctrico....
o quatro, o sete
o oito
em Santa Cruz
quando o principio era
nem existia fim
x
não te via Coimbra
na veste dos salgueiros
nas résteas do choupal
solene imobilizada
no alto das colinas
se me pergunto o que é feito de ti
nada respondes
escondida no tempo
perdida na saudade
nas ruas da cidade
onde me conheci
~~~~~~FIRENZE~~~~~~~~
.
Dos dois um figurante foi apenas
por sobre a Ponte Vechia observando
os turcos movimentos
da bailarina rosa
leves como espelhar de águas do rio
os pés de violino no vazio
sobre as pedras da ponte
como eu próprio passava
e absorvia ao pôr do sol ,
a fonte.
x
Um só , um só definitivo esteio
no ocre iluminado
da tarde no seu fim
um pedaço que seca outro que arde
e música a dançar constantemente
no consumido chão
que tem de mim
por entre gente
de toda a ocasião.
x
Na quietute do sol que exibe os tons
no breve pôr
vejo setins que voam rodopiam
no meu olhar castanho
que vai que volta
que ora se prende á tule
ligeira e frágil
ora se solta
num solfejo ágil
de penumbra e de cor
_________NOCTURNO_________
É na noite que nasce o nosso amor proibido
é na bruma dos dois que vens. Como se fosses
a escrita do meu tempo , imaginários doces
do caminho obscuro onde me fui esquecido
x
E na bruma de nós em cada noite espero
o corpo do teu corpo, o fogo do teu seio
da hora mais banal ao meu maior anseio
na vibração comum onde me agarro e quero.
x
É na inquietação que a busca tanto ignora,
suor regado ao som de nós em cada beijo,
que eu afogo o teu mar , observo e então vejo
as perguntas de então nas respostas de agora.
x
E vem a madrugada, as mãos, o crepitar
a embriaguez em tanto fogo e tanta dor
que apetece voltar subitamente ao amor
e ali morrer no fim da noite , a baloiçar~
_____TU_________
Não fosses tu e o teu olhar sereno
só de aparência feito e transmitido
eu não seria eu, nem o ameno
poisar do sol teria algum sentido.
x
Não fosse esse interior desconhecido
onde se fazem nuvens de vapor
eu não faria o eu que tenho sido
nem tu figura a que chamei amor.
x
Não fosse o que se quer, ignorando
a certeza que temos mais real ,
ou a loucura a arder de vez em quando
x
nada seria belo , nem igual
á imagem que em nós se vai criando
dum sonho muitas vezes irreal.
~~~~~~~SOMBRAS~~~~~~
verdes tíleiras minhas sentinelas
sombra dos dias tórridos de agosto
depósito de vidas
e a fresca claridade acreditava
que amanhã e depois tudo mudava
na expressão do olhar e do teu rosto
x
Minhas artérias descomprometidas
limpas de tempestades como agosto
dormitavam serenas no limite
do limite não ter
nem feridas nem esquémias nem saber
da água dos canais
ter a certeza de que o sol nascia
num mundo sem ter fim dia após dia
x
Verdes tileiras de profanas flores
ébrias de luz talvez de vinho tinto
esbranquiçadas pela tarde lenta
hoje lá dorme o coração cansado
que ora se opõe ainda perfilado
ora sucumbe á paz
e à tormenta
_____BREVE__________
Um sopro ou uma luz
cálida tarde espanha
branca de pureza
raios de sol e sul
a cor dos olhos
a cor dos lábios
o rosado da face
a mostrar-se á manhã
e tudo o resto é nada
um circulo fechado
A penumbra do espaço
é um sentido
um roubo
uma agressão
uma carícia
e o calor dos seios
a delicia
dum colo redondo
onde baloiça o corpo
que nos enlaça a alma
nos acalma
até á extremidade do caminho
para nos trazer a paz devagarinho
ou mergulhar
no abismo
da senhora Del Rocio
.
SIOUX
.
Os sioux foram as vitimas históricas
dos náufragos piratas doutras eras
do paraíso que há no novo mundo
tão velho como as guerras
de espingardas de bombas de napalme
no outro lado do mar...
fica Bagdad cidade milenar e berço
da civilização
onde se implantam
assassinos desordeiros
e mais alguns obreiros com boas intenções
o sete de cavalaria e toda a porcaria
da loucura veloz da quimera do ouro
x
a exterminação dos apaches
as reservas dos indios e dos homens
e a limpeza étnica
as grades de guantanamo
as bombas de hiroxima
e Bagdad Bagdad
quantos mil anos ?????
x
cantar em verso esta proeza crua
da nudez dos impérios
em fita celuloide é a glória
das novas babilónias
que faz nascer o choro e a revolta
a raiva o ódio a morte
pois já não se suportam no eufrates
os feitos inventados
da idiota história dos cow boys
de revolver na mão
e ferrugentas latas invasoras
para roubar petróleo.
.
.
___________POEMA 5 ____________
Por que é que me acontece a mim
não ter telefone nem rádio
não ter a merda das palavras de ocasião
para fazer calar o silêncio
que me corta a respiração diária
no curta entrada da minha larga rua ?
+++
Por que é que me acontece chegar ao escrivão
e dizer não...
abandonar as grades escancaradas
na penetração do outono entusiasmado
com o novo metro de superfície rosa ténue
e viver a cidade imaginária
sempre em redor da serra do buçaco ?
+++
Por que me acontecem as coisas
por ser louco
por me embriagar com águas perfumadas
te teimosia e insalubridade
por que me enganas alma desentendida
e me dás tanta sina de incerteza
aberrante figura de barro mole ?
+++
Por que me acontece a mim
não ter telefone á mão
e nem ter rádio nem ver televisão
para me sentir presente neste mundo
para abraçar toda a moralidade
e para vestir um fato nauseabundo
ao passear nas ruas da cidade?
.
~~~~~~~~~~~~POEMA 1~~~~~~~~~~~~~~
______________________________________
.
Pendurei o pescoço em coisa nenhuma
solucei sobre o riso duma noite
ou da guerra do dia que surge
na obscura terra de nós
como se não fossemos senão
nada, nada e mais nada
e ao redor do nada , nada existisse
não sentissemos ossos, as fissuras
os olhos e as mãos, tudo aparente
a segurar o cadeado aberto
das grades onde encerramos os corpos
pelo cair dos teus cabelos
pelo riso dos teus lábios
pelo sal das tuas lágrimas
eu dou-te sempre um beijo virtual
troco o olhar imaginado
o olhar urgente
ou o olhar crepúsculo
da tarde fugitiva de domingo...
não somos coisa nenhuma
na sombra dos pinheiros ondeantes
nem alma possuímos
trocou-se de comum acordo
sem recibo e sem assinatura...
que somos nós ?
vontade de seguir
sem torcer o caminho
ou pólvora, espingarda
por uma mão em cada mão ?
NÓS DESCEMOS A SERRA_
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
.
Nós descemos a serra das meadas
como dois cegos que sem ver se vissem
talvez nossas figuras se existissem
fossem ontem com ânsias de amanhã
procurando nos riscos do destino
que os nossos caminhos repetissem
aquilo que não foi nunca nem só
desta breve existência de manhã
.
assim demos boleia estrada abaixo
àqueles que buscavam outra margem
do douro intemporal rio de abismos
para esquecer os nossos catecismos
e andar de mãos dadas pela loucura
do telefone á cama de casal
sem saber nunca o que se ia passar
antes que se passasse
o corpo experimental
.
era proibido o rosto da mulher
nas horas que então foram
como agora se vê se nada fossem
era a mesma razão
quer existisse ou não esse momento
transparente dum sonho fingimento
elementar de medo e condição
e no entanto aqui não há fantasma
do vento que soprou sobre o que foi
arrasando o invólucro sem alma
para sofrer a dor que ainda dói
na dúvida se existes que persiste
porque existo eu ainda e não partiste.
.
.
~~~~~~CAMINHO~~~~~~
.
Encontrar o caminho no desfiladeiro da vida
quando o tempo é urgente
e semeia a exclusão
procurar no imenso a forma e dizer não
dizer não a sorrir a sorrir numa ferida
de raiva, ódio e cólera exigida
no horizonte em vão...
+++
Encontrar o caminho onde não há caminho
o fio da razão, o ser, a madrugada,
procurar tudo aonde não há nada
procurar luz no silencio ou no espinho
que se crava no peito
e dizer não perfeito
á alma acorrentada...
+++
Escutar as flores , os pássaros, os cantos
de quantos montes, vales ,a vista alcança
colher frutos maduros nesse dança
do que é aterrador ,desconhecido ,
viver sempre e de novo nova esperança
esquecendo ter já noutra vivido...
+++
Fazer do corpo a arma mais severa
para esconder a alma dilacerada
gritar bem alto a silaba rasgada
e levantar os olhos á quimera
duma outra manhã , que surge crua
para dizer que sim ,
que continua...
.
_______POEMA 3_____________
----------------------------------------
.
Que fizemos das figuras de vento
que corriam pelo dorso
da serra como os pássaros
bebiam água na sombra da auto estrada
enquanto o tempo deslizava
sem grades na paisagem
+++
Que fizermos das palavras não ditas
no silêncio de tudo
desde que o sol se pôs em Santarém
voando no esquecimento
dos corpos separados
de origem e principio ?
+++
Que fizemos da tolerância
do abrigo acolhedor
do rio e do seu cais e das promessas
trazidas no convés
digeridas na espuma duma noite
com um vestido curto
e preto de dançar?
__ROMANCE_____
.
Fui sempre o primeiro a chegar
ao sítio errado das betoneiras velhas
levava-te comigo já lá estavas
antes de lá chegares
e já te tinha dito tanta coisa
muito antes de te ver
que pouco te dizia quando vinhas
para me ouvir dizer
a ausência a angústia e o terror
agora sim é simples já está
o corpo branco ou o vestido preto
cinzento verde azul e eu sei lá
por amanhã ser sábado ao meio dia
meio dia de manhã e de mensagens
rezados a correr pelas duas margens
ou no aroma da avenida de roma
pensamento na mão rosa encarnada
de quatrocentos escudos no rossio
e a proa dum navio a encobrir
o beijo de setim o muito e nada
para não querer o dia de domingo
depois da foz do rio rio azul
declive em sonho areias e o sul
sem bússula nem leme porão proa
o lastro frágil do fundo da canoa
que me pergunto se nada aconteceu
nem sequer existimos tu e eu
que nunca o rumo e a navegação
se viu partir para lá daquele espelho
que nos disse palavras ao subir
décimo quarto andar então
dando-se o corpo sem nos dizer não
vendendo a alma sem qualquer razão
como é que tudo foi e se perdeu
como tudo foi dado e não se deu ?
.
_____LUCY_________
----------------------------------
Não sei se vens se vais até ao fim
se farei alquimias dos restos fragmentados
o que serás até não mais que o pouco
que tua alma contém quiçá sejas ninguém
que não me importará saber quem sou também
parte do nada e nada partirá
do corpo que se tem como um preservativo
cratera dum cativo sorvendo pesadelos
na vontade e receio de perdê-los
tropeçando sem ver na leviana imagem
da virtude aparente
num hotel de três estrelas
onde a ânsia do banho nestes corpos
foi o papel selado dos desejos
misturados com beijos e com sexo
depois perdeste o nexo
num táxi qualquer
vestiste toscas roupas de museu
um lenço uma blusa um avental
um estranho soletrar lábios sem sal
um coração por onde nunca entrou
o meu olhar mas só recibos pagos
e textos que passaram por ser vagos
na tira de adn perfurada e não
não te vejo a chorar toda a tragédia
que permanente cai do universo
tu que choras o mal e o inverso
tu que sabes ser mártir e mentir
dos sonhos partilhados
hás-de tragar loucura no abismo
dos silêncios sagrados e no cismo
dos deuses variados e dispersos
hás-de colher os ventos adversos.
.
______NOCTURNO________
.
Por quê dançar ao som de tanta noite
se jaz perdido o tempo e na memória
o mavioso acorde das quimeras
o encanto dos sonhos começados
num abrupto cortar dos corpos inundados
pelo grande rio onde se afogam ermos
e nos rimos de sermos e não termos
a música correcta a porta aberta
para continuar pelo deserto incerto
onde havemos de ter estada certa
rodopiamos no meio da multidão
somos todos iguais quimicamente
no ritmo do tango da valsa que mais são
as máscaras dum baile tanta gente
para quem noite e noite e nem se sente
sucata permitida pelos pneus a rolar
baiuca que recebe dinheiro para nos dar
uns trocos de fugir da sombra que há em nós
um sítio onde se esquece tudo
dum mar sem margens diário sem voz
chagas e chuva a escorrer das veias
onde se agarram ossos sem retorno
compressa e droga adorno
da livre concorrência da mentira
de escolhermos para nada
dançar bailar suar numa esplanada
com uótes e leizeres na cabeça
na auto estrada ás cinco da manhã
sobre a corda moleque de nossa vida vã
cheia de nós para que de nós se esqueça.
ÓBIDOS____________________
Em Óbidos paramos e cercamos
medievas muralhas de emoções
libertadas num copo de ginginha
na taberna do tempo
e descobriu-se
o caminho dos segredos ,
e das hesitações
no ramo de loureiro da calçada
que falava fascínio
dizia assombração
nos espaços interiores da barbacã
aquém ameias era o sol manhã
crepuscular na estrada que surgia
pelo amanhacee dum outro dia.
as sílabas uníssonas e poucas
ecoaram nos montes vozes loucas
à procura do cimo do outeiro
mas só uma nespereira envelhecida
murmurava esquecida a outra vida
e o salpicar das vinhas estremenhas
antes da grande ponte das mensagens
na auto estrada do sul em cujas margens
desceu a luz no vermelho do mar
onde os faróis dos carros ao passar
não foram mais que risos descobertos
do acoitar do medo e da exclusão
na fita preta em cada mão maluca
para aumentar o jejum pousar a nuca
na janela do sado ou na cintilação
da noite delirante
afundando-se acesa e ofegante
na sua momentânea combustão.
.
.
__LUCY 2 _____________
.
Como se fosse um rio
ou um deserto
a aridez dum monte
o negro duma lua ou seu luar
como se fosse dar
e não perder
o perfume do verbo
como se fosse um sábio
de livros de papel
pintados a craion
e não voltasse atrás
nos pergaminhos
bom...
abertas as palavras
à beleza dos corpos
que subiram os muros
de toda a natureza
e nos deram a sorte de viver
como s fossem veias
de sangue a circular
como se fossem teias
e arte de cerzir
o som a luz
as ondas e o mar
como se fosse apenas o presente
do verbo acreditar
ou vermelho poente
que o sol pinta ao deitar
como se fossem trocas
dum simples olhar
seria o rei de copas
e tu
apenas louca
que tens experiênca pouca
de sonhar...
.
__LUCY 3 ____________
----------------------------------------
Posou em nu na frente dos meus olhos
a tomar banho num quarto de marfim
desenhando os contornos da pele branca
numa caricia á púbis com fios de àgua quente
e gemidos de penumbra no silêncio profanado
pela imagem dum corpo com sentidos
impotente amanhã quando voltar
a ser o que não foi
Pela nudez macia o feitiço das sombras
agitou toda a tarde escondida do senso
com avidez e com serenidade
pelas colinas leves da minha mão
hesitando emoções no deslizar suave
enquanto todo o mundo parou sóbrio
no escutar da luz proveniente
duma só lâmpada esquecida de apagar
no mesa de cabeceira
Subiu das ancas o vapor da água
misturado em perfume de sabão
de flor de cerejeira
soprou lá fora o vento tempestuoso
no eucaliptal
de cortina fechada lavei as faces
passei os dedos pelos cabelos curtos
na sedosa leveza dos seios dei os beijos
que mantiveram acesos , cintilantes e a brilhar
no rigor da nudez , á minha frente, os olhos
e nunca mais regressei.
.
___________PRAIA____________
.
As nuvens sobem entre a linha horizontal
e o barco que atravessa aquém limite
traz chuva à praia sobre gente enxuta
de chapéus e de corpos desnudados
no silêncio escutam-se vozes soltas
de mães e de crianças estendidas
na aragem da baía até á foz do rio
ou do cabo esventrado pela indústria
e pelo mito do galeão naufragado
com arcas de tesouros e gritos das ossadas
das virgens desamparadas
no abismo da salvação
vai chover sobre a praia com o mau tempo
que vem do outro lado do mar
de caneta na areia como posso escrever
o que ficou antes da chuva e tempestade
ou do desconhecido acontecer?
já se escondeu o sol tapado
pela viagem gasosa que se aproximou
do lado dos açores e já não se ouve mais
do que os motores da última traineira
que sai a barra para pescar no alto
a certeza que não veio na rede adormecida
pelas roturas do tempo e pelas almas
de angústias e indefinições
nas múltiplas marés
as pessoas afastam-se sacudindo toalhas
cheias de pensamentos e vão nos automóveis
para qualquer lugar
fica sózinha a praia por onde lentamente
cai a chuva miúda a salpicar a água
na superfície plana do interior sereno
do intransponível oceano.
.
.
_________VERA_________
Tudo me deste antes do incompreendido
presa ao meu sonho feito de queimaduras
na cegueira que foi me sejam duras
as horas de não ver-te como queria
por muito que me pese esse caminho
solta-me dos teus sorrisos de criança
e encontra nas feridas que me purgam
o enigma da luz que te abra o ceu
+++
Não posso querer que sejas outra coisa
para além da descoberta que questionas
nos teus lábios febris
sempre gostei de te ver como um anjo
na pura amenidade dum pôr de sol
e a consumir a vida que te sobra
nas mãos da tua obra inacabada
sem as máscaras comuns do nosso afecto
a secar nos laços oriundos da criação
os pomares da intranquilidade
+++
Procuro pesquisar na vontade perdida
o sabão feito em bolas de manhã
do outro lado do tempo muito longe
da negação dos traços e do berço
do nó irrevogavel que nos une
não poderemos nunca ser iguais
no silêncio fatal que nos pertence
nem subtrair aquilo que nos fere
ás diferenças que são o nosso abraço
pois não posso encontra-te de outro modo
que não seja na busca permanente.
.
--------LUCY 5 ------------
Hoje, o que quero fazer é não te ver
nem ao teu corpo que antes me queimava
se algum vento soprava...
hoje, é não dizer-te do que queria
quando me apavoravam
os actos que deviam suceder-se...
hoje vá lá atrever-se
a voz que me pedia silêncio
calar o som na leveza de estar
eu não te quero ver nem encontrar
em qualquer rua ou praça
ou na mala de roupa da viagem
amarrotada na vaga da estiagem...
Hoje , quero tudo o que disse
de simples regresso ao não dizer
não te dizer adeus
num gesto de anteontem
é tudo quanto agora posso querer
o dia vai caindo entardecer
de vermelho na foz , no horizonte
não há luzes defronte
do meu olhar
e quando me voltar
em qualquer parte
não, não quero ver-te ou encontrar-te
no que ontem quis fazer
hoje o que quero é tudo e não te ver.
.
__POEMA 4 _______
. _________________
Na rua por onde passas
encapotada e nua nos vestidos
que vestes e que despes
não te envergonhas dos enganos
e das sílabas
herdadas das palavras
lua de bolores enfeitiçada
no átrio de cada noite...
+++
Muita coisa nos traz o teu dizer
escrito nos dedos
da luminosidade do teu peito
lua de cada jeito
da frase e devoção
das horas de fugir e de fazer
as sombras
com rimel de esquecer
+++
Seios cujos contornos
queimam sob o raiar
do que é tecê-los
para abalar o dia
quando mais nada havia
na ânsia de mexê-los
em suaves passagens protegê-los
do teu olhar , ó lua
que te sentas
cada noite que vem numas tormentas
abaixo da raiz dos meus cabelos.
.
.
~~~LUCY 6 ~~~~
A sombra dos teus olhos
ficou-me, recolhida no perfume
dos teus amargos mas...
e ficou-me da pele acetinada
esse gosto de lábios
no descontrole nervoso das promessas
fictícias , hesitantes
a reclamar as lágrimas por tudo
o que não fora liso como flor...
...mas que voar selvagem das palavras
sem gravata e sem significado
nas raizes mais secas do estiar...!
não fora o que disseste em cada entardecer
e tudo morreria sem caixão
no silêncio cavado pelo teu som.
mas iria matar a ausência na espingarda
que trazes apontada ao terror na minha direcção ?
iria desfazer meus arrepios na ignorância
que fizeste da febre que restou ?
os teus amargos mas...fundos, gravados,
a feridas desenhadas no interior ...
desconhecia a mascara que trazes ,
no alibi macio do setim dos teus lábios
por onde cedi tudo acreditando
como se fosse um deus , em cada prece,
da minha sacerdotiza...
.
POEMA 6
O sol crepuscular desce no mar
colado aos pessegueiros hirtos
erguidos no quintal nos dias frios
despidos , raquiticos e secos
escutando o coro certo , a aleluia
das vozes habituadas a afinar
pelo medo pelas lágrimas pela dor
foi quando abandonei os meus deveres.
+++
Dum lado a serra, do outro o horizonte
não há canudo marítimo e queria ver as ondas
desfazendo-se leves ou em rosas
das mais brancas que pudesse apanhar
iluminadas no clarão poente
da liberdade e sonho desgarrado
clandestinas bagagens na imensidão das letras
que se foram gorando sem sementes
no vazio que ocupa a nossa alma incógnita.
+++
Se nascerem na primavera próxima
pintassilgos na oliveira velha
sento-me á mesa.
Só como á nascença
de porta aberta a quem quiser entrar
para tornar mais fácil a saída
sem perturbar o arbítrio de quem sabe
os passos que há - de dar fugir, ficar
morrer, no vermelho do sol, um tiro , a beira mar.
.´
_HORA DA BICA______
._________________________
.
Hora da bica
Um travo de café no amargo da manhã,
Por que não se pode ir a espanha
Neste fim de semana,
Nem se pode ir no mês
Ao cinema,uma vez.
Já tirei o casaco,
Cumprimentei o chefe,
Já peguei nos papeis
Do fim da minha vida.
Tenho os filhos na escola,
Os livros por pagar,
Adianta chorar ?
+++
Hora da bica,
Um travo de café numa amostra de dia
A lembrar umas férias,não se sabe
De que sol,de que praia,
De qual casaco em pele
Da boutique do bairro,
É aquela nova mala
Da paragem da zona?
Nas casas alugadas se finou.
+++
Como há quem acredite
No coro da televisão,
Na farsa dos políticos,
Na fé da religião ?
No vício imaginário,
Abismo de quem não pode
Passar da escravatura ?
Préstito,é o dia que nasce,
Céu e inferno das secretárias
Abarrotadas de papel
De cheiro burocrata.
+++
Como há quem acredite
Nas palavras convincentes
Nas promessas ordinárias
Que adormecem os dedos
Sobre o destino das mãos ?
Amanhã e depois de amanhã,
No mês que vem e no próximo ano,
Tudo o que não existe,
Será igual a pressa de passar
Para parar por ali,
Hipotecando cigarros nas escrituras
Que levam a liberdade de viver
Dentro das praças
Que são feitas para nós.
Hora da bica,
Um travo de café,
O doce rebuçado ao fim do mês
No amargo da manhã.
.
DIÁLOGO___________
.
Como falar contigo
Voz das orelhas grossas
Se te escondes nos séculos,
Na imensidão dos céus,
Em muito mais
Do que aquilo que eu posso
E muito mais
P’rá além do que eu enxergo ?
+++
Como falar contigo
Ou como compreender-te
Se tu, que tudo sabes,
O não sabes fazer ?
Atiras sobre mim
O peso da incapacidade ?
Como crer no teu rosto
De adivinho que és
Pois antes de o seres já o sabias ?
+++
Eu,mais leve que castanho,
Percebo muito bem o som da minha rua,
Percebo bem o drama dos jornais
E a força jovial do teledisco,
Mas a ti,que tens grandes orelhas,
Que tudo escutas,cheiras,
Registas nos haveres
E possuis a pena grossa
Dos críticos de cinema,
A ti,que tudo vês sem usar óculos,
A ti...não te percebo...!
VELHO AMIGO
CHARLIE BROWN
.
Foge meu velho amigo Charlie Brown,
Foge desta poeira cósmica, azul, de via láctea,
Ruma para azimutes de matéria perfeita,
Afasta-te deste beco imundo do universo,
Leva o teu sonho,a tua banda,
O teu nariz de explorador,
As cartolinas do teu humor
E,se não encontrares coisa melhor que isto,
Manda lixar a história desde Cristo...
+++
Aqui,neste covil onde os maus jogadores
Continuam a dar as cartas viciadas,
Aqui,nesta imundice de miséria e crendice,
Não pode ser senão a lixeira de Deus...
Por isso,hão que existir entre as estrelas
Avenidas,rotundas,florestas,
Onde todos são deuses ou são bestas
E o fim de semana principia às sextas...
.
___CHAPÉU DE CHUVA_______
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
.
Ninguém ouviu falar num chapéu de chuva perdido ?
Ninguém o encontrou na mesa do café ?
Ninguém o viu no banco do eléctrico ?
Fumava português,o do maço amarelo,
Via-se muitas vezes na Praça da Figueira
E foi chapéu perdido,após comprado,
Aberto,após fechado
Numa segunda feira.
+++
Ninguém ouviu falar no meu chapéu de chuva ?
O que tapava a nuca como sombra ?
Teria sete dedos,uma luva
Em cada membro.
Ninguém o viu voando,ante porquê ou quando,
Pelas velas do vento indo e soprando ?
Chapéu de pano preto
Chapéu de pano brando !
+++
Ninguém ouviu falar dum chapéu encarnado ?
De gravata ao pescoço no balcão do cinema ?
Ninguém o viu ferido ou mascarado,
A tomar um café no Largo do Chiado
Criticando o sistema ?
Talvez...esteja morto...e esticado
Na morgue,como um leque...
O meu pobre chapéu...
Aberto,após fechado,
Fechado após comprado
Com um cheque.
___CAFÉ_____________
Sentado na mesa do café,
lendo o jornal como burguês,
esqueço o como e o por quê
deste cenário de lazer.
Esmagam-se os desejos na parede,
subjuga-se a vontade à mesa,
o espanto de viver livremente
cola-se às letras das notícias
que acontecem por acontecer
na rotina dos casos do dia.
No banco do hospital
um cobertor de ideias
adormeceu sinistrado
no acidente do rápido da tarde...
Nas luzes do shoping center
as chamas dos líquidos vitais
morreram no ofset
enquanto as partes em conflito
se vêm desprovidas de decisão,
nesta laranja de nova burguesia
a buscar equilibrio financeiro
através da indústria do calçado,
ñivelamento urbano necessário
ao relançamento económico.
.
7,50
7,40
Contra a minha insatisfação voam as asas de
todas as aves
as penas dos olhos mais castanhos,os cabelos
mais escuros,
os sorrisos impotentes da razão reconhecidamente
irónica
contra o não acreditar nesta estadia assolada
pelo sopro do deus
7,43
Entre estas distâncias onde me encontrei sem
contribuição própria
suportando como num circo os encontrões dos
jogos escolhidos
não encontro o sublime fogo da oferta divina
nem as vestais dos oráculos entre os prestigitadores
que tanto apregoam contribuir para experimentar
o paraíso
7,47
Nestas ruas de aspecto labirintico e quase impenetraveis
circulam latas de cortes variados pela geografia económica,
mas não circula o sangue nem os lábios compreendem
o sistema nervoso que vegeta nos acanhados corpos
atirados para a margem da regra comensuravel.
7,49
E voam os pássaros sobre alguns montes ao longe
mesmo assim
abaixo da epiderme ozonada da gruta por achar
onde se diz que existe um jardim e muita gente
acredita
como quem acredita noutras coisas que não existem
nem passam desta terrena encenação
_________QUEDA___________
----------------------------------------
O tipo que me deixou cair por aí abaixo
bem o poderia ter feito
com uma protecção
mas não
foi saco de cimento
que se espalhou
pelo chão
+++
O pó que levantou desapareceu
e com ele os sinais
do modelar do barro
os items iguais
da semelhança
que vai dum dedo ao outro
dum corpo ao outro corpo
do sol á lua
ou até só
ao fim da minha rua
+++
O tipo que me deixou cair
num sábado de shotes
esqueceu na ressaca do domingo
a sua história
numa pedrada de governo
sem decretos
nem ministros
e sem democracia
VERÃO 1
Seixos e cega regas assombram
as horas do meio dia
silêncio
aragem dos segundos
que passa e beija
não se escuta
como as arcas da loja
escura salgada e nua a rua
a rua que corre de ventre aberto
de pés descalços
e de pó
+++
no campanário
adivinha-se a santa vestida de rôxo
é Santa Ana
e o martírio nos olhares ausentes
da procissão que passa
no estio e na terra ressequida
no sol ardente
no sacrifício da crença
+++
o tempo que parte de vez em quando
volta ás portadas de quem fica
para colher flores e soluçar
nas nascentes de sangue
nas promessas
ou nos azedos braços
das memórias
pois uns partiram para voltar um dia
outros partiram para não mais voltar
.
. VERÃO 2
O verão chegou agosto
pintou-se a sul nos muros
no amarelo dos carreiros
na eira e no sobrado
pesado e quente
até na capoeira das galinhas...
sente-se nas narinas
nas ladeiras cavadas
onde vai seco o trilho da ribeira
abrasado no osso até aos seixos
o principio da tarde
cola-se ao branco da capela
sai lenta a procissão
o despejo da serra e da cobiça
nas gotas do prior
vermelho ensanguentado
a cantar o tedeum
na terra ressequida...
os que voltaram
levam o pálio roxo e o tempo
de quem partiu para frança
sem a fé dos sermões
na ânsia de servir
vão arqueados
bebem o calor tórrido
na derradeira fé dos seus avós
mas já não dão aos filhos
a taça do senhor
na eira ou no sobrado
que o sol queima
.
____CUMPRIMENTO______
Já sei que vou deixar as tuas maõs
esquecer-te a face ardente
guardar a angústia dos teus olhos
quando tudo acabar num buraco na terra
fosso que preocupa o nosso entendimento
+++
não sei se assistirei à história que te digo
mas sei que veja ou não irá acontecer
tal como estava escrito em todo o lado
até na sombra breve das glicinias roxas
que se dissolviam ténues na manhã
um manto de supor inebriante...
+++
posso dizer que não fui carinhoso
no teu pequeno imaginário
é de meu ser o ser que me trouxeste
mas há entre nós dois muitos encontros
em tanta coisa vista sem olhar....!
oxalá o adeus seja o mais breve
até amanhã
se for o caso far-te-ei viver
entre os corpos inuteis
até que eu próprio parta
sem regresso...
._______PAI_________
____________________
.
Aguardas o destino inseguro,
sentado na porta da existência,
escutando o ruído da estrada,
absurda sucata do tempo
como aquele velho nash
verde sonho distância
separado do pessegueiro bravo
pelo odor do óleo do bolor
nas noites gélidas
na mão das ferramentas
aguardas a nossa fogueira
são espaços
mas nada posso fazer por ti
amigo dos meus abraços
vou comprar-te umas botas
aquecer o teu fraco coração
agradecer-te a passagem
procurar um adeus até amanhã...
enquanto olhas para mim
e apenas espero ser
continuação...
.
BOLSA
_________________
.
Não tem cotação a penúria humana
não tem pés a bolsa não usa sapatos
é civilizada nos seus cadilaques
usa dolares petros cartolas segurança
muitos colarinhos que enfeitam a pança
cota contas notas sacados e cheques...
+++
não tem cotação a penúria humana,
humana do homem do bicho do gato
a bolsa só cota cotações de facto
de pratas e ouros drogas e valores
inventários lucros dinheiros extratos
não há cotação p’ra sangue ou p’ra raça,
o seu todo é nada valor nominal
nem há corretores neste polinómio
terráquio e incógnito versus manicómio
órbita do sol gravitacional...
+++
de algures muito longe do negro do tempo
do sítio onde nascem civilizações
será este homem do conhecimento
ou só do universo um pobre jumento
esterco de estrelas e constelações ...?
NO BANCO______
...o rapazito entrou,puxando a porta,
ostentando um letreiro,
pede esmola...
é surdo,
é mudo e do sovaco
cai um rasgão que acompanha o casaco
a todo o comprimento,
como sola...
De repente
às pessoas...
que não vêem,
mostra o cartão,
rasgado e manuscrito...
mecânico,expedito,
roda de pronto ao primeiro contacto
repetindo depois o mesmo acto.
Desce-lhe atráz o forro
sobre o aspecto esguio,
a roupa,de calor,recebe o frio
e ante o aspecto grave do gerente
sem levar um tostão,
sai desta gente.
____AMURA______
--------------------------------------
.
Quem a viu,como eu,na margem leve,
Desse Geba postada sentinela
E sob ogiva,arcada,entrou por ela,
Não a esquece por gosto,nem por estima,
Pois há-de imaginar,corrente acima,
Puxada por motor,como carraça,
Quase que o só porão duma barcaça
Subindo o rio,largo e amarelo
Que mesmo ao centro tem,bem pequenina
Ilha plantada com face de menina
Preta de cor,cabelo seco e belo.
+++++++
Observando o Geba, a temperatura,
A lama da vazante,o navegar
Pelas pernas no mar de caranguejos
De carcaças ao sol,por apanhar,
Sobre peças de bronze e de Junot,
Acima das portadas inglesas
Que a guarnição antiga arrecadou,
É ler livros de cercos e ataques
Por tribos mais ou menos de mandingas
Que lutavam com setas e basbaques
Dos quais nasceu mais tarde,esta Domingas
+++++++
Por aqui me tive e por satisfação,
Na velha fortaleza me hospedei,
Nos muros nus e grossos lamentei
Os receios e as contradições
De ter por pátria e mãe aflições,
De fugir pelos últimos minutos
Da poeira da estrada e das bolanhas,
Escondendo as misérias das entranhas
No conforto dum banco de café
Onde o fumo que sobe,sobe em pé
E ancorado no largo,Geba enxuto,
Além Piriquiti,já não disfruto
Senão de mar e mar,senão maré.
.
.
DANCING
E m Bissau,à saída da cidade
Na estrada que leva a Bissalanca,
Existia à direita uma tabanca
Que tinha um bar de pouca qualidade.
++++
Debaixo das mangueiras era o cujo,
Fugindo então à grande densidade,
Dele fazendo parte,em igualdade,
Sócias de cor,amantes de marujo.
++++
De Cabo Verde,Inês, uma das quotas,
Quase nua a dançar tardes inteiras,
Intervalava mornas,coladeiras,
Com fregueses,cervejas e com notas.
++++
Outra,negra,balanta,de Mansoa,
Da moda havia nome,Mariquinha,
Nome por que se dava e o qual tinha
Por crisma importado de Lisboa.
++++
Abonando a verdade,é bom dizer,
Dancing assim,só p’ra beber cerveja,
Seja qual for o prisma que se veja
Outra coisa não se ia ali fazer.
.
:::::::DOMINGAS:::::
Domingas era filha de manjaco
E tinha parentela de mandinga,
A casa onde habitava,era um buraco
Onde todos gostavam duma pinga.
++++
O pai,era mílícia,era tenente,
Tinha sete mulheres,duas com truques
De preparar os potes de aguardente
Que bebiam em toques e batuques.
++++
Convidado de sempre,o muçulmano,
De túnica tão branca como linho,
Chamava-se Djaló e soberano,
Amava tanto Meca como vinho.
++++
Só Domingas vivia como branca
Tentando preservar sua virtude
De quantos procuravam,na tabanca,
Os fortuitos prazeres da juventude.
++++
Alça delgada ao ombro,sobre o braço,
Peito seguro,rijo e todo nú,
Amparava este mundo no regaço
Imaginando o noivo,Mamadú.
.
__REINO ANTULA____
_________________________
.
No reino Antula o chão é quase lama,
O rio,quando sobe,é nos mangais
Que exprime o mar,assoreando o drama
Da gente que vive entre canais.
++++
Tem embondeiro amigo,bem postado
Na beira do caminho poeirento
Onde sulcos abertos de encarnado
Cheiram a chuva no sabor do vento.
++++
O castro vive à sombra da espessura,
Os tugúrios,de terra,circulares,
Tem sempre a porta aberta à chave dura
De acções heróicas,espectaculares.
++++
São pés gretados,são mamas caídas,
São crianças doentes,são contágios,
De sílabas de histórias transmitidas
De escravos,viagens e naufrágios.
++++
O rei que manda aqui,manda calado,
Não tem autoridade,nem canhão,
Se passa um jeep,foge ignorado
E esconde sua coroa no colchão.
.
.
____AMISSÃO________
_____________________
.
Amissão Bico.Sete anos.
Sem escola.Gosta do mato,
Gosta de bichos,do trato
Do seu herói da tabanca.
Lá dentro,seu coração
É mais ou menos igual
Àquele que em Portugal
È filho do meu irmão,
Com uma só diferença,
Ser preto,visto por fora,
Ser preto desde a nascença.
Por isso,às duas da tarde,
Quando o refeitório fecha,
Vem Amissões de lata e balde
Meter as mãos no bidon de gasolina
Acabado de encher com restos,
Pelo fachina.
Levam para comer o pai, a mãe
E os familiares que por lá têm.
À tardinha, as irmãs,
Crianças cujos colos
Não estão ainda formados,
Por vinte e cinco tostões
Despem as tranças
E fazem nhacnhac com soldados.
.
____ULA_________
_________________
.
Ula foi um amigo que tive,
Um amigo sem história,
Não sei se ainda vive,
Se é apenas memória,
Mas de certeza em Bula o conheci
E em Bula ficou,quando parti.
+++
Era alto,era preto,da Guiné,
Amigo de caju,
Ula,não sei o quê.
De calção,tronco nu,
Sobrenome não deu,
Era luxo demais,só d’europeu
Ter outro nome além do próprio,seu.
+++
Um dia, quando fora do farpado,
O encontrei pensando,
Sentei-me do seu lado
Constatando
Nosso comum castigo
De estar ali em paz,estando em perigo,
Mas quando lhe ofereci uns calções velhos,rotos,
Abriu-me olhos leais, como os garotos
E fez de mim o seu melhor amigo.
.
_______________BAR__________
__________________________
.
E de telhados de colmo,
Velho bar,meu imbondeiro
De penumbras,sombras,noites,
Bar das insinuações,
Dos sonhos,superstições,
Bar do corpo,copo inteiro,
Do sedento pernoitar,
Bar de manhã,nevoeiro,
E do lento navegar,
Bar de toda a rosa negra
Onde o unimog pardo
Geme seios de luar,
Bar de colcha,numa cama,
De mornas e de mimar,
Em ti recorda quem ama
Que existe um outro remar.
_______MARINHEIRO___
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
É com olhos de mundo que vislumbras,
Do alto do castelo,entre vilões,
A carta,na cegueira desse espelho,
Rumo entre sol,azul,verde,vermelho,
Cordas,ormuzes,nortes e ceilões.
++++
Das madrugadas frias,há penumbras
Perdidas nos lenhos da juventude,
Embarcadas nos vícios e pecados
Almas de medo,heróis potenciados,
Prisioneiros do rei e da virtude.
++++
Abarcas hoje,como nunca,adeus...
Adeus Tejo,do alto das vigias,
Um monóculo em mão e não galés,
Se bem que te mudasses,’inda és
A reduzida corte que não querias.
++++
Abarcas esse sonho e dizes,meus...
Teus são esses caminhos,e os nossos...?
Nunca chegaste a dar o sugerido,
Dos teus naufrágios,muito foi perdido
Tua loucura terminou em ossos.
++++
Olhas agora velho,como quando
O mar galgava ventos e padrões,
Heróico de lembranças sem futuro,
Deliras encontrar porto seguro
No ruir das ameias,dos canhões.
++++
Esse que foi teu mar,declinando,
Já não sobe ao convés do teu transporte,
Nem areia,nem pinho,nem perfeito...
Esse que foi teu mar,já não é estreito,
Nem dele és já senhor,nem dele és sorte.
.
.
______REGRESSO_______
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
.
Morreram os veleiros da Índia
E os marinheiros calçudos
De becos da Mouraria.
Os barcos de carvão
De canos cabeludos
Que se fizeram um dia
Ao alto mar da África
E escreveram páginas
Da guerra de catorze,
Afundaram-se no petróleo
Duns paquetes de luxo
Com duas chaminés
Em forma de cartucho.
Voltaram marujos a terra,
O vento dos veleiros
Às letras duma história
E pelas praias de Alvor,
De Bartolomeu Dias,
Só bom navegador.
As páginas estão velhas
Como as rochas de Sagres
Rendilhadas pela àgua delinquente.
Olhando o mar ignoto
De sobretudo roto,
O Infante procura a não semente,
Enrola na tempestade as ondas
E soprando nas velas o sabor da brisa
Vai descansar enfim
Na terra quente.
Pela catedral de Silves,
Pelo forte de Cacela,
Já não se ouve o murmúrio
Duma lenda de moura
Estranha e bela,
Nem gemidos do Santo
Trazidos de Marrocos pelo suão
E seu pranto.
As areias
Pelas prais de Tabira,
Escaldam sob os pés
Na babugem do mar
E as casas,na bonança,
São caravelas
No cabo da Boa Esperança.
A Alcobaça regressa o almocreve
De saco rôto e vazio.
Honrado e desonrado,
Traidor,cobarde,herói,
Ardente,corajoso,
Mártir,ladrão,
Não trás despojos.
Conserva o ar pateta
De camponês dos montes,
Curioso pescador,
Temente a Pedro,Inêz,
E incha como rã...
Assim,é que dobrou o Cabo Bojador...
Foi-se a fortuna,a sorte,
O ouro do Brasil,
A canela,a pimenta,
A cana, o algodão,
O grude e o café.
Como norte,
Um astrolábio antigo,ferrugento,
Trazido da Irlanda,por favor,
Umas pedras antigas,monumento,
E as noites quentes de Alvor.
O mais,foi digerido
Pela classe essencial,
Que o povo,diferido,
Mantem-nos Portugal.
.
__ORMUZ____________
___________________________
.
Nas praças da cidade
Oscilam as palmeiras,
Ultrapassam muralhas,
Esquinas,sobre o mar
Branco do seu lençol
De casas destelhadas,
Rasgadas pelo sol.
A ilha, guarda o deserto
Da nau que guarda a ilha
E do trilho do norte
A Pérsia,é caso misterioso,
Areia,pó e sorte
Num sopro de armadilha.
Em cada arcada,cada abrigo
Tem cor de sangue
Nas adagas caladas
Pelos canhões do forte.
A brisa não sopra
Na armada sonolenta,
Sentinela fundeada
Entre ruas do estreito
Onde o calor sufoca a garganta
E Ormuz sufoca o marinheiro.
.
.
_____ LUSITANIA___________
.~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
A Lusitânia está parada,aguarda
Que parindo a Europa um filho novo,
Lhe dê por sorte a sorte que lhe tarda
E gere nesta gente um outro povo.
+++
Poeta,sonhador e marinheiro,
Sem rumo,sem piratas, leme e vela,
Sem cabos,sem calcário,sem canteiro,
Sem Goa,sem Damão e sem canela.
+++
O velame apodrece na amurada,
O pó vai dissolvendo sobre a espuma
A pólvora,ferrugem duma espada
Enterrada no sal do além bruma.
+++
A ocidente o mar,frio,sombrio,
Ruge como este sonho que agiganta
O hesitante passo no vazio
Da incógnita maré que se levanta.
+++
A Lusitânia aguarda identidade,
Estar e não estar,ser ou não ser alguém,
Atávica memória sem idade
De no mundo ser todos e ninguém.
.
_______SAUDADE________
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
.
Já não voltarei a Abrantes
Que fica lá no sertão,
Nem à boca do Quanza
Que não sei se fica ou não,
Ou à voz de minha mãe
Que escuto pelos botões,
Não voltarei,nem ao Geba
Rasgado por batelões,
Nem ao comboio das cinco
Na linha que o rio tem,
Sobe quando os outros descem
Desce quando os outros vêm,
Nas àguas do vale abrindo,
Um leque a favor do mar,
Os meus olhos vão subindo
Minhas mãos vão a largar.
Já não voltarei a Abrantes,
Não voltarei,isso não,
Ao fundo lhe corre o Tejo
Ao centro o meu coração.
.
____RECTÂNGULO____
________________________
.
A oeste o tempo e povo urge
Desta total encenação,
O comboio que surge
É nova condição.
O mar está parado,
As palavras escritas
Não tem significado,
De tão ditas,
E o silêncio persiste
Na gente que não anda,
Que pensa e que existe
Num solo que não manda.
Rectângulo de emendas,
De rasuras,de gritos,
De misérias e prendas,
De abafados conflitos,
Para lá da beira do mar,
As costas de Ceilão
Os reinos do Malabar
Que já não são.
O horizonte absoluto
Das portas de Zamora
Após o mar enxuto,
Não demora.
.
_____TROVAS__________
_______________________
Pela Torre de Belém
Andam cantando trovas
Navegadores idososas
De barbas brancas
Com quatrocentos anos.
Discutem o preço da canela
O ouro do Brasil
Os diamantes,
E gostam de jogar damas
Nas costas dum marinheiro aleijado
Que deixou o mar há dias,
Na semana passada...
Gente que dirige séculos
E nunca morre.
Dormem á segunda feira,
Espreitam as pernas das varinas
Pelo berloque da saia,
Às terças,na Ribeira,
Consomem restaurantes,
Rabanetes folclóricos
E até mulheres de escaparate
Nos troncos obtusos.
São trovadores da sorte,
Milagreiros sem norte,
Que o povo aplaude
E a Senhora adora.
.
___A FERNANDO PESSOA____
Em cada dia que passa
A fuga é mais tormentosa...
Ó grande,ó gigantesco Adamastor !
Quem crê em ti
Absorve a dor...
No cérebro do leme,a trama escura
Separa a alma e deixa o corpo ao vento,
A tempestada abana e chicoteia
Tudo o que seja lixo ou veia
E da matéria varre o excremento.
Ò grande mar,libertador de peixes...
Tinha ilusões de chegar a Calicut ou mais além,
Mas faltam-nos nas àguas os gigantes
Que alimentando o medo
Nas ondas nos mantém.
.
____EXPÔ______________
_______________________
.
Mais tejo há a oriente
e o sol a bater com fúria
na grande placa nua norte sul
são três palmeiras
secas hirtas
que se apontam ao rio
ao sabor da corrente
contra uma grua revirada
na estrada e no ceu
posa uma noiva escura
com o polegar na boca
da sua fotografia
A brisa sobe incógnita
e nem um batelão ausente
chapa as águas nas casas
pintadas de amarelo
no estendal das margens
o interior de fora aquece
nas janelas fechadas
o ar mal se respira no outeiro
onde se sentam pedras
alinhadas num banco de aço
cromado de chinês
Não há timoneiros ofegantes
nas velas que não passam
nem guitarras nem viúvas
nos barris dos porões
chora-se o fado do tempo
no calor sufocante
das ruas que se encontram no tejo
que terminam no tejo
nos detritos do tejo
nos últimos ossários
dos nossos navegadores.
.
____TALVEZ______
__________________
.
Talvez tenhas os olhos
mais lindos deste mundo
e neles o olhar
mais quente e mais suave
talvez tuas olheiras sejam trigo
ceifado não por beijos
mas por curso de lágrimas
choradas longamente
na tua solidão
talvez tenhas tingido
a irís de castanho
e faças nas púpilas
teus recortes de amor
talvez sejas poema
Ou sombra ou firmamento
rasto de divindade
ou ânsia de viver
talvez sejas a sílaba
o fruto o alimento
ou pedaço de estrêla
a solidificar.
na tua face há luz
onde levita breve
a esteira do encanto
que me êxtasia e mói
talvez tenhas os lábios
mais sedosos que há
em todo o universo
partículas dum sol
da primeira explosão
talvez sejas apenas
alguma aparição
tão tranquila e tão doce
que se mede no peito
a distância entre nós
tu que vieste tarde
pelos caminhos incertos
do frio e do suão
tens os olhos mais lindos
deste mundo
a sêda mais macia
nos teus beijos
a luz até
que me extasia
talvez tenhas roubado
para sempre
esta outra luz que tens
no meu olhar.
.
________SUBIDA______
--------------------------------------
.
Pela rua da Misericórdia sobem eléctricos
onde povo apinhado se alinha
vindos do rio são velhos amarelos
cruzando por ministros de cara gorda
na porta do tavares
há um café à esquerda
de quem sobe de pouca gente
com portas de madeira
onde se senta uma mulher já feita
com os cabelos negros sobre os ombros
já fez serviço dum administrador
e vive hoje da melancólica grandeza
do tempo em que ganhou o campeonato
conservando no quarto uma fotografia
em S. Pedro de Alcântara de mini saia
enquanto os eléctricos sobem por ali
e um sujeito de fraque abotoado
abre a porta a um tipo de gravata
tudo gente do estado mesmo o automóvel...
representantes do povo
que arrasta o seu transporte
pelos fios dos carris nos bancos de palhinha
não muito longe do Carmo
do outro lado recorda Abril da mudança
num dia que se enganou
são ruínas do convento como pregos
espetados nas fardas da esperança
incomodas ideias de polainas no folclore
de grandola vila morena
recolhidas à pressa na parada
na ferrugem do e na missão cumprida
por isso sobem eléctricos do rio belos
e amarelos e apinhados de gente
que paga bem a liberdade adiada
cravos que o sangue não derramou.
.
PAI
.
sentado na porta da existência
escutando o ruído da estrada
absurda sucata do tempo
como aquele velho nash
verde sonho distância
separado do pessegueiro bravo
pelo odor do óleo e do bolor
aguardas a nossa fogueira de espaços
mas nada posso fazer por ti
amigo dos meus abraços
vou comprar-te umas botas
aquecer o teu fraco coração
agradecer-te a passagem
procurar um adeus até amanhã...
enquanto olhas para mim
apenas posso ser
continuação...
.
________MORRER_________
_________________________
.
Tenho um revólver na mão
mas não vou disparar assim tão cedo
havia de matar-me hoje por ser domingo ?
o chumbo abraçaria o telefone
iria procurar o coração
alojar-se num quarto de três estrelas
e adormecer na dúvida prevista.
///////
Por ser domingo dormi até mais tarde
e não houve calor não houve combustão
nas franjas do suicídio combinado
premeditei demais as calorias
fiquei sem alibi choveu lá fora
encostei-te a ti vítima á parede
mas não dei ao gatilho quando queria.
///////
Tenho um revolver na mão
um buraco no peito trespassando
o sonho e a imagem virtual
mas não morri ainda hoje é domingo
está por descobrir se o dia de descanso
é melhor do que outro para morrer à tarde
depois de ler o semanário
e no fim dos jogos de futebol...
.
.
~~~~~~~~VINHO~~~~~~~
Não te importes com o cabelo desgrenhado,
Maria Providência,bebe o teu copo
E manda passear o taberneiro
Da rua Francisco Grandela...!
Cose-te pelas paredes na nesga do crepúsculo
Como maçã ainda verde rente à folha,
Chega-te ao balcão com o teu bigode,
Emborca o copo como corpo de igreja
Sem te importares com o marulhar da rua.
Os teus companheiros,debruçados da janela,
Não sabem mais que as palavras censórias
Que tu também vomitas sem consciência.
Amanhã, ou até logo quando a noite cerrar,
Quem sabe se descerão do parapeito
Baixando ao balcão das suas próprias cozinhas
Na escuridão do isolamento,
Matando o vício e a amargura
Que não consegues trancar em casa ?
Os burgueses,esses não te vêm,
Vivem do outro lado do mundo,
Mesmo quando passam por ti
E perguntam mecânicos se estás boa dos ossos...!
Tu estás óptima...! Tão óptima como eles...
Eles,que tu sabes bem,nunca viveram
A dura miséria dos teus bolsos...
Eles,que se banham em àgua limpa...
Eles,que não dão a mão...nem a ti,
Nem aos que riem da janela
A tua figura pictoricamente pura
Quando vais a caminho do colchão com pulgas.
Ri-te também dos corpos da burguesia,
Dos seus restaurantes e casas de saúde,
Dos seus acidentes,do seu colesterol,
Das obesidades perturbadoras
Do metabolismo cerebral,
Do rosbife e do preço da gasolina...!
Ri-te do meio das tuas acácias
Tão amarelas na primavera como sol,
Tão aromáticas como o grená
Do teu copo de vinho tinto...
Bebe,Maria Providência,
Bebe a toda esta forma de vida,
A todo o desconforto da viagem
E manda o taberneiro à merda,logo à saída da tasca...
Senta-te no rebate do passeio público
Ri-te de todo este cenário absurdo
Dos irmãos humanos...!
Ri-te do capital imundo
Que te atira com paladar sublimado
Ao copo do esquecimento
Na margem da sua caridade.
.
TAVARES
Lembro-me do Tavares,o taberneiro,
Da patusca figura de barrigudo,
Das mesas de cimento,das cadeiras
De ferro,no fresco da parreirinha,
Do balcão cerimonioso e dum relógio
De pêndulo,com algarismos romanos,
Pesado como as peças de pano,acinzentadas,
E me faziam recordar artilharia e verde
Em Santo António do Cântaro.
Vestia um colete antigo de comerciante
Que bem podia ser de Santa Catarina,
Do qual saía,até ao bolso,
Uma linda corrente de relógio
E tinha o aspecto taciturno
Dum burguês falido.
A parreirinha conservava a mobília
Da moda do principio do século,
Onde senhora bem podia,em férias,
Sorver um cálice de Porto,
Mas era o que restava
Dos grandes armazéns de lã
Comidos pelo tempo
Onde alguns operários da ferrugem
Bebiam uns copos de vinho tinto,
Ao fundo do corredor,
Na sombra da parreirinha.
Até aqui atravessou a vida e ficou só,
Acomodou-se filosoficamente ao fim,
Gastou as palavras e os gestos,
Saturou sons,juizos,consciência,
Muniu-se de conclusões e resolveu partir
À procura da tranquilidade.
Vestiu o fato novo mais antigo,
Engravatou a camisa de preto,
Socorreu-se dum frasco de veneno
Guardado na companhia do bolso esquerdo,
Abriu um guarda chuva contra o sol
E incorporou-se no próprio funeral.
Algumas lágrimas lhe correram da face
Durante o abstrato vazio do desfile,
Mas silencioso,aprumado,rígido,
Seguiu-se religiosamente,
Buscando nos derradeiros passos,
Quem sabe,
As últimas razões mais os pedaços
Do tempo absoluto,hora que ceifa,
Minuto mais minuto,o ar incógnito...
Talvez tenha emborcado o frasco
Já perto do destino
E com ele,atirou à terra,
Quilos desconhecidos de matéria
E reflexões sem peso exacto.
No dia seguinte pela manhã
Foi encontrado à sombra do guarda chuva,
Encostado,hírtico,ao muro de fora
Do cemitério caiado.
__________LINHA__________
.
Calei-me ao telefone quando ouvi
a tua voz de lá dizer sou eu...
aguardei o silêncio aconteceu
não te pedir mais nada
e desligar...
lllllll
Pousei o telefone sobre a linha
onde cubro a nudez e o interior
não sem pensar pronunciar
amor...
mas nada ia mudar...
e desliguei.
lllllll
À volta a soletrar na escuridão
jorrando luz a lâmpada neon
a tela apagada dos meus olhos
a tua voz...
o som...
lllllll
Calou-se o telefone
na noite sem palavras
e não deixei de estar aonde estavas
nem onde estavas tu
ficaste só...
.
.
____ ORLEÃS_________
____________________________________
.
Parei em Orleãs para te beijar
mas tu não estavas lá nem tinha cais
por onde procurar
em Orleãs a ânsia de voltar
foi vento que passou e pouco mais
meti uma moeda na ranhura
presumi-me sobre recordações
segurei -te nas mãos e na procura
às portas de Orleãs busca insegura
não consegui escutar mais que ilusões...
lllllll
Parei em Orleãs para te olhar
num retrato que tinha na carteira
procurei -te na gare para pintar
um cenário que fosse de maneira
a esperar por ti mas não estiveste
senão em ecos e ondas de absurdo
telefonei dum telefone surdo
apanhei o comboio e prossegui...
lllllll
Parei em Orleãs tarde no meio
e não te vi passar foi a cidade
que te deixou fugir do meu país
para então vires comigo e da janela
acenarmos aos campos estendidos
do comboio veloz
fomos perdidos
fomos mercadoria sem bagagem
sem bilhete fizemos a viagem
e ninguém deu por nós...
.
.
________MAUSER_____
___________________________
.
Tenho na minha mão a mauser que me deste
apontada para mim como no dia
em que deixei cair o protector de boca
numa ranhura surda do carrilhão menor
tenho na minha mão o dedo no gatilho
basta virar a arma e no meu peito
acertar sem temor e sem amor
abrir-se-há um buraco imperfeito
a desfazer a carne na sua circunferência
quero que essas flores que eu prometi levar
revertam para mim botões de rosa
brancos como esse sonho que agiganta
a insatisfação
não vou fazer uma revolta para me matar apenas
já nasci nesta pólvora de morte
sopro poeira espinho simples rombo
duma barca menor
custa-me agora adormecer no pó
que anda assentado nas tábuas do porão
agora que encontrei um astrolábio
hei-de dar um tiro em mim próprio
com a arma que me deste ?
.
DIA DE FESTA
.
Era dia de festa e tu fugiste mãe
fugiste a festejar não te agarrei
atado ao cais partido que serei
sem ter os teus ouvidos para escutar ?
lllllll
Era dia de festa mais além
subindo a serra que correste a pé
chamo por ti não ouves já não é
o tempo do teu tempo me falar.
lllllll
Foste fria gelada os teus cabelos
madeixas brancas nuvens de poeira
foram ponto final dessa ladeira
onde passaste a vão rios e mar.
lllll
Eras minha teus olhos era vê-los
a tecer-me as palavras mais ungidas
as imagens mais belas desmedidas
do gigante que eu era ao teu olhar.
lllllll
Fugiste neste dia nesta festa
e na rua fiquei despido nú
o lastro que me tinha eras tu
e não fiquei mais leve a navegar.
lllllll
Fugiste mãe fugiste foi-se embora
esse sorriso franco a alegria
que era peso e alívio do meu dia
e me ia regulando vida fora.
.
.
MÃE
Tombou-se-te a cabeça por quê mãe
por que quebrou o fio que trazias
mal agarrado ao mundo tu sabias
tal qual como da noite o dia vem
lllllll
Por que partiste assim por que fixaste
o futuro depois para além de mim
quis dar-te a minha mão não seguraste
quis dizer-te que não disseste sim.
lllllll
Eras aroma sal e erva doce
que tinha o mundo em ti para expiar ?
gostavas de sorrir e de chorar
de te erguer da cadeira e acabou-se.
lllllll
Hoje chamo por ti já não responde
a tua nova forma e condição
deixaste-me ficar não sei por onde
à procura de nexo e razão.
.
______________________CARTÃO
______________________________
Obrigada pelo teu cartão
Manuscrito...
Os teus anos, fazem o que sou.
Sempre que penso em ti
Penso amanhã...
Amanhã ?...
Arruma os livros e cadernos
E deita-te na cama
Que são horas...!
.
.
CADEIRA
.
Certa,certa
É a complexidade da cadeira.
Não tem pó,
Não tem rugas,
Mas arestas,espelhos,
Braços e uma broca.
Como seria a escada
Sem a tua mão
Na minha mão...?
Mesmo assim
É uma escada imensa
Que subimos depressa.
Ia com receio
Do teu receio,
Por que julgava
O que tu não sabias
Mas...
A rapidez surpreendeu-me
E como te portaste tão bem,
Nem um pastel de nata te comprei...
_______BERENICE_____
______________________
Michelle ma dit c’est une etoile
l’etoile de Berenice
ma fille et l’image pure
d’estabilité au ciel
a noite na rua escura
éo principio e fim deste silêncio
que me não deixa dormir
dou passos na gravilha nova
que me soam a mastigar
numa peneira de grão
eu que não tenho telefone à mão
para dizer ao céu
que me segure a estrada
e me diga se Berenice
me pode inscrever na recepção...
a luz sobre a porta principal
é a única velocidade á nossa volta
enquanto não me deixa dormir
a noite longa que se criou
ao acabar a tarde
são três da madrugada
nas margens do charante
le signe de Berenice
m’aporte les choses de bas
comme maladie du matin
je n’ai le moyen d’etre etoile
pour dire adieu
.
______________________
Sete horas nos Remédios cai a noite
sobre os nossos sentidos estão em extase
enormes extensões de tanto querer
pelo escadório longo que há-de vir.
lllllll
As luzes da cidade abaixo cheia
de imagens espantadas refletem
a sombra de corpos abraçados
trinta anos depois de ali correr.
lllllll
Sete sons imortais assustadores
dissolvem-se pelos montes em redor
eu cinjo-te a cintura meu amor
e escuto as tuas sílabas do céu.
lllllll
Revistámos os cumes os buracos
onde lavar a fronte continuámos
com os olhos nos olhos navegando
em horas de maré num mar de vista.
lllllll
No alto dos Remédios na fachada
onde os deuses tem portas sobre pedras
ensaiámos as cenas mais tranquilas
na moldura da côr crepuscular.
lllllll
No alto da senhora demos mãos
jurámos ir até ao firmamento,
E tu que não fugiste agora corres
Para onde te vai o pensamento.
lllllll
Sete horas nos Remédios batem forte
numa das torres altas e depois
havemos de ficar mais separados
quanto mais um fizermos de nós dois.
.
_________________VERDES
.
Verdes cumes
de acádias floridas
sinais do tempo não
dos trilhos dos pinheiros
ou das sombras
onde nos abraçamos
sem chegar e partir
já somos o limite de nós
em cada instante
de corpos enleados
na distância outonal
nem o vento parado
sobre o cume
mexe uma palha
porquê fugir
vendados e rendidos
pela clareira estreita
que precipita tudo
em dias ignorados
em sonhos de segunda
ou desejos inuteis...?
fugir em verdes troncos
de acácias e de cedros
fugir no pensamento
como se fosse um barco
uma estrada sem fim
que curva sempre ali
junto ao moinho velho
ou na sombra dum choupo
duma gasolineira.
________DIAS___________
________________________
.
Em cima dum colchão
entre o calor do quarto
e a penúria dos sonhos
estão dias de amanhã
frágeis como o vapor da água
que sobe do charante
para quebrar o ontem
enlameado nas raízes profundas
da corrente do verão
nas margens deste rio
que não é o mondego
nem o tejo
é certo que não vejo
as fontes e nascentes
mas corre na torrente
á minha frente
a secura dos barcos
e não mais
para lá dos limites
passeiam-se turistas
de mão em mão
transportando revistas
tirando fotografias
ao silêncio dos dias
á noite em turbilhão
e o rio arrasta consigo
a linha telefónica
impossivel abrigo
na distância
para quebrar a ânsia
que nos toca.
_________NEVE___________
_________________________
.
Caiu a neve pela noite inteira
por sobre a ramaria sossegada
silenciosa nuvem de poeira
branco lençol que trouxe a madrugada
lllllll
Debruçaram-se os cedros nas veredas
que também elas são só de brancura
sustentando em seu corpo ondas de sedas
remates de algodão na bordadura.
lllllll
Correm regatos de água saltitando
de pedra em pedra que parecem ais
um bloco a cair de vez em quando
tudo o resto é silêncio nada mais.
lllllll
Em santa Teresa congelou-se a bica
figura dum soldado arma na mão
na gélida escultura identifica
a lusa farda ou de napoleão?
llllll
Na cruz alta há um trilho e é manhã
tombam flocos do plumbeo céu
do caramulo à estrela ou à lousã
o mundo é branco unido num só véu.
lllllll
Os pilriteiros gemem e sacodem
a invulgar penugem numa aragem
querendo soltar o peso que não podem
aliviar do corpo da paisagem.
lllllll
Há telhados escondidos e verdura
que hoje não é senão coisa adiada
todo o verde não passa de leitura
da nossa consciência congelada
.
______________________TRONCO
__________________________________
.
Está a ruir um tronco
um tronco do buçaco
na estrada sinuosa da ribeira
deixou de correr água
a hospedeira
que anuncia o morrer
deixa tombar folhas amarelecidas
das árvores consumidas
pelo verão
.
nasce na bruma
o respirar profundo
precede a tumba
onde se deixa o mundo
rugas que rugas dão
um carvalho que flor
esquecido e minguado
num estertor
de esplendor
já não fala e se geme
verde casaca inóspito suão
aguarda o que não vem
depois do leme...
.
consome-se em lareira
cama de ocasião
e na memória
como ossos dum monge
ou cepa de videira
talvez vinho da nossa iniciação
numa cave singela em mosto doce
preso no tempo
dum acenar a mão.
.
_________MOMENTO
_______________________
.
Água do alfusqueiro é cor da prata
corre pelas nossas veias faz sentido
chora no nosso olhar quase escondido
refresca o nosso ardor que se desata.
lllllll
Água que corre e vem fresca de alcoba
limpa todo o rubor que há numa face
coa toda a nudez do nosso enlace
e canta em toda a pedra onde se escova.
lllllll
Água vinda do alto desce em beijos
das deusas que nos cerros se desfazem
a carpir o amor que nunca fazem
por que da terra são fatais desejos.
lllllll
Assim corre este rio milagroso
em barcos de madeira por fazer
com o porão tão feito de prazer
como o corpo de amar é desejoso.
lllllll
Debruçam-se as acácias sobre o espelho
das nossas inquietudes perdulárias,
tanta sombra a forjar figuras várias
tanta cor a tingir-nos de vermelho.
lllllll
Se nos cair em cima o predicado
dum sujeito qualquer que somos nós
fiquemos uns minutos ledos sós
a expiar sem dor nosso pecado.
lllllll
Que água do alfusqueiro é cor de prata
foge-nos sob os pés correndo à toa
a sugerir o sonho de lisboa
o mar o rio o tejo uma fragata.
.
___ O TELESCÓPIO HUBBLE
___________________________
.
Lá vai no ar o telescópio Hubble
Huble manuel da silva qualquer coisa
não é bem portugûes é john é ford waine
e vê tudo se diz como se o mundo fosse
um bolo muito grande mais amargo que doce
.
vai no ar e palpita vendo a lua plutão
cinturas de asteróides ferro velho e então
emite um som bocado de cd
que diz permite ver eu não sei bem o quê
mas esse mundo antigo do tempo dos romanos
das guerras púnicas de atenas espartanos
o principio dos sóis azáfamas divínas
os vomitos de enxofre do alto das colinas...
.
era bom e cegou-se o telescópio Hubble!
amaricano como toda a coisa
de pompa e de jornal
Hubble ou ford ou fonda não faz mal
foi concertado à força pelo robot
que subiu no chalenger vejam só
e pô-lo a ver mais lá no vazio
que a lente progressiva do meu tio
.
de resto tudo o que há é gêlo e morte
não há leste nem sul oeste ou norte
somente o telescópio sempre a olhar
para os buracos negros ao luar
e a transmitir em bipes permanentes
expectativas dos nossos ascendentes
.
bom telescópio Hubble velho joe
talvez de oklaoma fall river eu sei lá
vai acabar no espaço quem sabe se entalado
entre ondas de neptuno desertos de titã
tirando fotogramas todo o ano
á matéria que gira numa anã
bem louco telescópio vai voar
quem sabe se até ultrapassar
o sistema nervoso e o solar...
________________UNIVERSO
.
No céu existem estrelas planetas e cometas
grandes distâncias tremendas explosões
buracos sóis plasma e embriões
Células caldos àcidos provetas.
lllllll
Coisas comuns não há se não me engano
nem dúvidas problemas ou lixeiras,
nem há gestos nem rostos nem canseiras
nem viagens de metropolitano.
lllllll
O paraíso algures na imensidão
é um sítio irreal e bem profundo
onde os bens comportados deste mundo
passam o tempo a ver televisão.
lllllll
Destes locais de aspecto tão diverso
supõe-se haver um rei com um crachat
tão grande como o tempo que será
maior que a sua obra o universo.
lllllll
Estrelas planetas e cometas
na órbita real tal rei decerto
mas não parece o firmamento esperto
pois são poucos os livros e as canetas
______CRIAÇÃO____________
Subitamente,
raiou sobre o sistema o dia
a criação das àguas
irmã de vento e nuvens
pariu casualmente células câmbricas
e avós ilustres
pelas margens dos mangais
inundaram os deltas
a guelra que surgiu
milimetricamente
foi conquistando a poeira
domesticando a lama
crescendo cubicando
as exclamações
como fazem os deuses
nas suas vastidões
as órbitas imensas
perderam meteoros
e a relatividade
impôs cósmicamente
o tempo do degêlo
escondidos
atraz de abetos
de fetos de coniferas
sobre musgo e bactérias
e algas e potássio
tudo o que existiria então
no paraíso
Deus e o Diabo enfim
boquiabertos
cruzam os braços
ante a evolução.
.
.
FUGA
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.
Quando eu era pequeno e tinha um arco
e o abismo real não existia
debaixo dos plátanos corria
pelo rego foreiro leve barco.
lllllll
Uma senhora feita de amarelo
no meu primeiro livro de leitura
escapava da folha e na textura
se dissolvia o manto e o cabelo.
lllllll
Assim fugi à escola sexta feira
imaginando letras que sabia
tão fixas na página que iria
ficar colado a elas na cadeira.
lllllll
Acomodei certo constrangimento
conjecturando em drama clemência
e minha mãe com toda a paciência
avisada cessou meu fingimento.
lllllll
Espanto meu as letras que a senhora
conservava no livro piamente
como balão sairam livremente
pela janela junto à professora.
PÁSCOA
.
É domingo de Páscoa...
no meu tempo de menino do coro
ia-se à missa de manhã
vestia-se uma opa
de saber a doutrina
e de seguida
pequena procissão, lá ia a cruz
com o senhor vigário
o silva o sacristão
e de ordinário
carlos contabilista
uma saca encarnada
para a congrua esperada...
tlim tlim tlim
a campainha
anunciava de porta em porta
-Cristo ressuscitou, aleluia !
até ao fim da tarde
e tudo isto
por duas ou três bôlhas nos sapatos
roídos de cansaço
até à ceia na casa do juiz
um enorme cozido à portuguesa
cujo perfume nos chegava ao nariz
mal se entrava o quintal
todo ele odor
doces como cordeiros sobre a mesa
quase se adormecia
sob o olhar vermelho do prior
indiscutível braço do Senhor...
mas na segunda feira livremente
com quatro ovos num folar de pão
às portas de coimbra toda a gente
cumprir a tradição
já se esquecera judas escariote
o pôncio e os soldados a paixão
retomava-se a vida num fartote
de ovos cozidos na Ressureição...
é domingo de Páscoa pouco tem
p’ra lá do telejornal
jerusalém
vive um calvário japonês
de canoons nikons
ou handycam’s sonny
pela via dolorosa dum cristo
a encenar o drama da paixão
que havemos de espreitar na televisão
um soldado romano
copiado dum filme americano
uma coroa de espinhos e após
muitos crucificados actuais
no bloco das internacionais
não se vêem lilazes rosmaninho
mas um milhão de pessoas foi à praia
ao sul de espanha
trinta morreram em noventa acidentes
braga foi invadida por espanhóis
que vão fazer um jeito na estatística
à tarde não há juiz da igreja
e nada que recorde antigamente
pouco que seja
vão-se comprar uns ovos prateados
e ver uns coelhinhos pendurados
numas argolas que há no continente.
e seguimos prà casa engaiolada
onde moramos hoje hipotecada
mas que dizem ser lar e ser d’agente...
.
______________NOVA YORK
_______________________
Penso viver em Nova York á margem
dos semáforos verdes no deserto
de transportar bilhetes na bagagem
cuja sala não tem programa certo.
lllllll
Misturar este corpo e estes braços
nos montes de sucata em avenidas
onde as pedras dão folhas e os passos
são desejos são ânsias são medidas.
lllllll
Calar ouvir no silêncio da rua
como vómito quente dum vulcão
o tremendo ruído que insinua
cada membro fiel da multidão.
lllllll
Completar o assombro da paisagem
na vastidão da órbita tão perto
que a urbe se desfaz como miragem
e a sala tem programa e tem concerto.
lllllll
Ajoelhar reconhecer esquecer
lavrar definitiva devoção
ao mito da memória de não ver
o que é ter ou não ter dolares na mão.
_________VIAGEM___________
----------------------------------------
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Na encosta noroeste da serra do buçaco
os cedros apinhavam-se nas pregas do sopé
colados ao estradão de macadame
as pedras deslizavam pelo declive
cobrindo-de de musgo nas barrocas
escondidas no tempo castanho
do citroen preto a galgar obstáculos
de natureza circundante
havia então pelo ar
o cheiro verde e gosto dos limões
a cadência era certa era pequeno o mundo
onde o brasil de meu avô
foi o limite das coisas conhecidas
a estrada morreu no alcatrão
enquanto as minhas calças compridas
se transferiram do egoismo
após todo o jejum original
o automóvel de cidade em cidade
incentivou a ânsia o exterior
o chão sedimentou sozinho
agora nascem silêncios em redor
espaços do hoje de ontem e a manhã
de nevoeiro a desenhar fantasmas
nos cedros do noroeste cresceram
como deuses e tapam as encostas
na busca persistente da luz
a medida do seu tempo detem-nos
no corpo e habitat das barrocas
onde o estradão abandonado
morre descalço.
________REGRESSO_____
___________________________
Quando vim de Paris trouxe comigo
um coração de Eiffel para te oferecer
tu saltas e sorris e que castigo
é dar-te o coração e não te ter .
lllllll
Foi nas margens do Sena que comprei
com moedas de francos teu olhar
se as àguas a correr viram não sei
sei lá se apenas eu te vi passar !
lllllll
Recolhi cá por dentro essa miragem
nos mais íntimos bolsos do meu ser
no bote dum pintor mudei de margem
até que o sol se pôs no entardecer.
lllllll
Traduzi tudo como vês num só
amuleto de azul e de interior
talvez p’ra além dos dois venha a ser pó
e depois de ser pó a ser flôr.
lllllll
Agora um beijo é bom tarde serena
p’ra te envolver nos braços e ficar
a consumir as horas como ordena
a vontade que tenho de tu dar.
lllllll
E de espalhar os teus cabelos leves
sobre o meu peito a fios de pincel
saborear o tempo pois são breves
os momentos de amor ternura e mel
lllllll
Quando vim de Paris trouxe o desejo
de te abraçar e dar a Torre Eifel
tudo o que foi foi pouco mais que um beijo
à noite recordado num papel.
.
.
::::::::CLERMONT:::::.
.
São verdes muito verdes
os montes de Clermont
são restos de vulcões
e da fita esticada
do preto da auto estrada
onde correm pneus da michelin
são verdes muitos verdes
os campos de Clermont
e por serem assim dizem é bom
desafiar a tecnologia
a fabricar arames de latão
nesta mitologia
de nova erupção
negras naves da sé
penduradas no céu
abrindo o apetite dum café
na praça da mairie
cheiram a terra a parto doloroso
convite precioso
para observar na bolsa
um Toulouse Lautrec...
à saída um senhor plastificado
envolvido em pneus faz-nos sinal
encantador e lesto bien jolie
ora tomba daqui ora dali
abrindo uma bochecha de content
-não não vão por aí por aí vão mal
há muitas obras em Clermont Ferrand...
.
_______BÔKALÔ ___________
----------------------------------------
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Há mil janelas no céu de Bôkalô
na floresta plena primavera
liláses no jardim de roxo claro
duas cadeiras vagas sobre a relva.
lllllll
Verde em redor nos prados estendidos
onde as fendas da estrada fazem cama
uma porta p’ra rua sempre aberta
o calor duma noite procurada.
lllllll
No interior recordações sem fim
horas ganhas tranquilas acalmia
e um pequeno almoço feito de ovos
e lírios espalhados no caminho.
lllllll
Um janelão transporta a floresta
à nossa intimidade elaborada
desprende por momentos o redor
p’ra nos deixar fugir livres na manhã.
lllllll
Deitados a sonhar a ter presente
a imagem ausente desejada
como se as àrvores verdes nos beijassem
quando se vestem de claridade.
lllllll
Voltei a Bôkalô p’ra nunca mais
haver de lá voltar com a certeza
de desejar fazê-lo e marcar quarto
um dia à tarde pelo telefone.
.
_______DISTÂNCIA_________
__________________________
Dista o que dista
d’outras civilizações...
ninguém sabe
onde fica o comando d’outra nave
se cada estrela é mundo
ou para lá de cada uma
das móveis ou imoveis
haverá astros e astros e astros
outros formatos e civilizações
outras vidas outras fornicações
sonhos que o homem põe
e deus esconde
para não nos mostrar por quanto
e até onde
controla o seu saber...
dista o que dista de sóis
luas galáxias
ou doutras vias lácteas
e de mais quê
de tudo o que se vê e se não vê
de tudo o que se crê...
...capacidade de multiplicar
volume de pensar...
para tudo acabar
num buraco tão negro
como um buraco negro
.
______GALÁXIA_________
___________________________
.
Não há dias serenos como eram
de esperar nos tempos que decorrem
há sóis a explodir dias morenos
e distâncias enormes nos consomem...
dois mil e cem espaço sete sete
código amante luz noventa e três
a nave mãe navega no distante
mar de cervantes já lá vai um mês
autonomia à vista meios próprios
problemas nas comunicações
ano e meio de rumo kapa Kapa
comboio oculto para lá de radiações
quinze dias de luz jornal de bordo
terra é braseiro trópico incandesceu
aumenta tempestade e eu não sei
o que te aconteceu ...
são notícias antigas via urano
retransmissão giotto e prometeu...
relembro a côr castanha dos teus olhos
nas ameias da cerca em Santarém
as flores amarelas do vestido
as lágrimas de adeus que foi também
o contrato entre nós
no tgv do sul sonho veloz...
navegação frontal fuga aos pulsares
Kapa Kapa chamando português...
galáxia de andrómeda quinta feira
código amante...luz noventa e três
Allô...Allô...Allô
.
.
________TANGO_________
_______________________
.
Quando eu morrer
e for no autopulman
a caminho do céu
quero ver os teus olhos
estrelas cintilantes
na berma da viagem
dirás que vês passar
esse que foi rapaz
da camisola azul
com duas riscas brancas
e que cingiu o teu vestido verde
no baile de ano novo
e não te deu um beijo
pela vergonha
de não teres respondido
ao seu abraço
a caminho do céu
ao longo da paisagem
quero encontrar teus dedos
quero dançar contigo
um tango que se arraste
pelas veias do percurso
e sentir o teu colo numa brasa
ao som do mavioso saxofone,
no baile de ano novo
em mil novecentos
e sessenta e quatro.
.
_______________LISBOA
.
Lisboa, onze da noite
na bruma dos receios
no cais do nosso olhar
espero pela distância
e pelo atar dos laços
que o dia separou
nas ondas dos teus seios.
Lisboa está vestida
de ponte de lanternas
de noivado e à espera
do sítio de encontrar
mãos dadas a sorrir
no silêncio envolvente
é noite, é meia noite
é meia noite clara
na noite de Lisboa
vestida com a cor
do teu vestido preto
e as luzes que se espalham
beijam como luar
o rio prateado
de cais em cais
onde se amarra o sonho
e se pode ancorar.
.
_____________MADRID
.
É manhã é agosto e é Madrid
abafada em calor pela gran via
deserto duma noite adiantada
na frescura dos bares e das esplanadas
todo o corpo cedeu a essa sêde
ceifada num quiosque num gelado
que introduziu a noite e viajou
para cá da planície castelhana
peguei no telefone da cabine
às oito em ponto
para lembrar que a loucura me segue
além da raia em Paris Santiago
Lisboa Amesterdão ou em Madrid
ouvi o fio o outro lado lá
lá onde fica o verde das colinas
e as perguntas esperadas sem resposta
como quem pergunta por vós
mortos de guadarrama silenciados
no fusil em percurso numa ideia
uma revolta em vida encravada na vida
de todos os que mataram
às oito horas toca o telefone em ponto
e foi nem mais nem menos o toque
duma manhã de agosto por aqui
numa cabine pública em Madrid.
_______SILÊNCIO___________
___________________________
São muitos os silêncios
que nascem das palavras
ainda por dizer
e para trás ficaram
lilazes de Bokalô
os timpanos do tempo
que ferem as ausências
lapsos e ruídos
das silabas não ditas
dia a dia
são ásperos violentos os barulhos
que se procuram esquecer
na sombra doutros ventos
e as mãos que se fecharam
foram criando noutro lado
os vícios e as ânsias
não há cigarros na praça da república
mas há sempre uma praça em qualquer lado
da republica
para acender um cigarro
ou comprar um jornal
ou lembrar um passado
ou sentar-se num banco
da vida duma praça
no fumo do percurso recordando
lilazes de Bokalô
na hora certa da ceifa
na duvida das palavras e silêncios
que nunca se disseram.
..