O MITO DA PROCURA DE DEUSES E DEMÓNIOS

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2007

TERMINUS

     

___________POEMA 5 ____________

Por que é que me acontece a mim

não ter telefone nem rádio

não ter a merda das palavras de ocasião

para fazer calar o silêncio

que me corta a respiração diária

no curta entrada da minha larga rua ?

                              +++

Por que é que me acontece chegar ao escrivão

e dizer não...

abandonar as grades escancaradas

na penetração do outono entusiasmado

com o novo metro de superfície rosa ténue

e viver a cidade imaginária

sempre em redor da serra do buçaco ?

                              +++

Por que me acontecem as coisas

por ser louco

por me embriagar com águas perfumadas

te teimosia e insalubridade

por que me enganas alma desentendida

e me dás tanta sina de incerteza

aberrante figura de barro mole ?

                              +++

Por que me acontece a mim

não ter telefone á mão

e nem ter rádio nem ver televisão

para me sentir presente neste mundo

para abraçar toda a moralidade

e para vestir um fato nauseabundo

ao passear nas ruas da cidade?

.

 

~~~~~~~~~~~~POEMA 1~~~~~~~~~~~~~~

______________________________________

.

Pendurei o pescoço em coisa nenhuma

solucei sobre o riso duma noite

ou da guerra do dia que surge

na obscura terra de nós

como se não fossemos senão

nada, nada e mais nada

e ao redor do nada , nada existisse

não sentissemos ossos, as fissuras

os olhos e as mãos, tudo aparente

a segurar o cadeado aberto

das grades onde encerramos os corpos

pelo cair dos teus cabelos

pelo riso dos teus lábios

pelo sal das tuas lágrimas

eu dou-te sempre um beijo virtual

troco o olhar imaginado

o olhar urgente

ou o olhar crepúsculo

da tarde fugitiva de domingo...

não somos coisa nenhuma

na sombra dos pinheiros ondeantes

nem alma possuímos

trocou-se de comum acordo

sem recibo e sem assinatura...

que somos nós ?

vontade de seguir

sem torcer o caminho

ou pólvora, espingarda

por uma mão em cada mão ?

 

   

 

 NÓS DESCEMOS A SERRA_

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

.

Nós descemos a serra das meadas

como dois cegos que sem ver se vissem

talvez nossas figuras se existissem

fossem ontem com ânsias de amanhã

procurando nos riscos do destino

que os nossos caminhos repetissem

aquilo que não foi nunca nem só

desta breve existência de manhã

.

assim demos boleia estrada abaixo

àqueles que buscavam outra margem

do douro intemporal rio de abismos

para esquecer os nossos catecismos

e andar de mãos dadas pela loucura

do telefone á cama de casal

sem saber nunca o que se ia passar

antes que se passasse

o corpo experimental

.

era proibido o rosto da mulher

nas horas que então foram

como agora se vê se nada fossem

era a mesma razão

quer existisse ou não esse momento

transparente dum sonho fingimento

elementar de medo e condição

e no entanto aqui não há fantasma

do vento que soprou sobre o que foi

arrasando o invólucro sem alma

para sofrer a dor que ainda dói

na dúvida se existes que persiste

porque existo eu ainda e não partiste.

.

.

 ~~~~~~CAMINHO~~~~~~

.

Encontrar o caminho no desfiladeiro da vida

quando o tempo é urgente

e semeia a exclusão

procurar no imenso a forma e dizer não

dizer não a sorrir a sorrir numa ferida

de raiva, ódio e cólera exigida

no horizonte em vão...

                           +++

Encontrar o caminho onde não há caminho

o fio da razão, o ser, a madrugada,

procurar tudo aonde não há nada

procurar luz no silencio ou no espinho

que se crava no peito

e dizer não perfeito

á alma acorrentada...

                            +++

Escutar as flores , os pássaros, os cantos

de quantos montes, vales ,a vista alcança

colher frutos maduros nesse dança

do que é aterrador ,desconhecido ,

viver sempre e de novo nova esperança

esquecendo ter já noutra vivido...

                           +++

Fazer do corpo a arma mais severa

para esconder a alma dilacerada

gritar bem alto a silaba rasgada

e levantar os olhos á quimera

duma outra manhã , que surge crua

para dizer que sim ,

que continua...

.

 

 _______POEMA 3_____________

----------------------------------------------------------------.

.

Que fizemos das figuras de vento

que corriam pelo dorso

da serra como os pássaros

bebiam água na sombra da auto estrada

enquanto o tempo deslizava

sem grades na paisagem

                              +++

Que fizermos das palavras não ditas

no silêncio de tudo

desde que o sol se pôs em Santarém

voando no esquecimento

dos corpos separados

gritos reassumidos

de origem e principio ?

                             +++

Que fizemos da tolerância

do abrigo acolhedor

do rio e do seu cais e das promessas

trazidas no convés

digeridas na espuma duma noite

com um vestido curto

e preto de dançar?

 

 

  __ROMANCE_____

.

Fui sempre o primeiro a chegar

ao sítio errado das betoneiras velhas

levava-te comigo já lá estavas

antes de lá chegares

e já te tinha dito tanta coisa

muito antes de te ver

que pouco te dizia quando vinhas

para me ouvir dizer

a ausência a angústia e o terror

agora sim é simples já está

o corpo branco ou o vestido preto

cinzento verde azul e eu sei lá

por amanhã ser sábado ao meio dia

meio dia de manhã e de mensagens

rezados a correr pelas duas margens

ou no aroma da avenida de roma

pensamento na mão rosa encarnada

de quatrocentos escudos no rossio

e a proa dum navio a encobrir

o beijo de setim o muito e nada

para não querer o dia de domingo

depois da foz do rio rio azul

declive em sonho areias e o sul

sem bússula nem leme porão proa

o lastro frágil do fundo da canoa

que me pergunto se nada aconteceu

nem sequer existimos tu e eu

que nunca o rumo e a navegação

se viu partir para lá daquele espelho

que nos disse palavras ao subir

décimo quarto andar então

dando-se o corpo sem nos dizer não

vendendo a alma sem qualquer razão

como é que tudo foi e se perdeu

como tudo foi dado e não se deu ?

.

 

  _____LUCY_________

----------------------------------

Não sei se vens se vais até ao fim

se farei alquimias dos restos fragmentados

o que serás até não mais que o pouco

que tua alma contém quiçá sejas ninguém

que não me importará saber quem sou também

parte do nada e nada partirá

do corpo que se tem como um preservativo

cratera dum cativo sorvendo pesadelos

na vontade e receio de perdê-los

tropeçando sem ver na leviana imagem

da virtude aparente

num hotel de três estrelas

onde a ânsia do banho nestes corpos

foi o papel selado dos desejos

misturados com beijos e com sexo

depois perdeste o nexo

num táxi qualquer

vestiste toscas roupas de museu

um lenço uma blusa um avental

um estranho soletrar lábios sem sal

um coração por onde nunca entrou

o meu olhar mas só recibos pagos

e textos que passaram por ser vagos

na tira de adn perfurada e não

não te vejo a chorar toda a tragédia

que permanente cai do universo

tu que choras o mal e o inverso

tu que sabes ser mártir e mentir

dos sonhos partilhados

hás-de tragar loucura no abismo

dos silêncios sagrados e no cismo

dos deuses variados e dispersos

hás-de colher os ventos adversos.

.

 

______NOCTURNO________

.

Por quê dançar ao som de tanta noite

se jaz perdido o tempo e na memória

o mavioso acorde das quimeras

o encanto dos sonhos começados

num abrupto cortar dos corpos inundados

pelo grande rio onde se afogam ermos

e nos rimos de sermos e não termos

a música correcta a porta aberta

para continuar pelo deserto incerto

onde havemos de ter estada certa

rodopiamos no meio da multidão

somos todos iguais quimicamente

no ritmo do tango da valsa que mais são

as máscaras dum baile tanta gente

para quem noite e noite e nem se sente

sucata permitida pelos pneus a rolar

baiuca que recebe dinheiro para nos dar

uns trocos de fugir da sombra que há em nós

um sítio onde se esquece tudo

dum mar sem margens diário sem voz

chagas e chuva a escorrer das veias

onde se agarram ossos sem retorno

compressa e droga adorno

da livre concorrência da mentira

de escolhermos para nada

dançar bailar suar numa esplanada

com uótes e leizeres na cabeça

na auto estrada ás cinco da manhã

sobre a corda moleque de nossa vida vã

cheia de nós para que de nós se esqueça.

    

     

 

       ÓBIDOS____________________

 

Em Óbidos paramos e cercamos

medievas muralhas de emoções

libertadas num copo de ginginha

na taberna do tempo

e descobriu-se

o caminho dos segredos ,

e das hesitações

no ramo de loureiro da calçada

que falava fascínio

dizia assombração

nos espaços interiores da barbacã

aquém ameias era o sol manhã

crepuscular na estrada que surgia

pelo amanhacee dum outro dia.

as sílabas uníssonas e poucas

ecoaram nos montes vozes loucas

à procura do cimo do outeiro

mas só uma nespereira envelhecida

murmurava esquecida a outra vida

e o salpicar das vinhas estremenhas

antes da grande ponte das mensagens

na auto estrada do sul em cujas margens

desceu a luz no vermelho do mar

onde os faróis dos carros ao passar

não foram mais que risos descobertos

do acoitar do medo e da exclusão

na fita preta em cada mão maluca

para aumentar o jejum pousar a nuca

na janela do sado ou na cintilação

da noite delirante

afundando-se acesa e ofegante

na sua momentânea combustão.

.

 

.

  __LUCY  2   _____________

.                                                                                       

Como se fosse um rio

ou um deserto

a aridez dum monte

o negro duma lua ou seu luar

como se fosse dar

e não perder

o perfume do verbo

como se fosse um sábio

de livros de papel

pintados a craion

e não voltasse atrás

nos pergaminhos

bom...

abertas as palavras

à beleza dos corpos

que subiram os muros

de toda a natureza

e nos deram a sorte de viver

como s fossem veias

de sangue a circular

como se fossem teias

e arte de cerzir

o som a luz

as ondas e o mar

como se fosse apenas o presente

do verbo acreditar

ou vermelho poente

que o sol pinta ao deitar

como se fossem trocas

dum simples olhar

seria o rei de copas

e tu

apenas louca

que tens experiênca pouca

de sonhar...

.

 

 

  __LUCY 3  ____________

------------------------------------------.

Posou em nu na frente dos meus olhos

a tomar banho num quarto de marfim

desenhando os contornos da pele branca

numa caricia á púbis com fios de àgua quente

e gemidos de penumbra no silêncio profanado

pela imagem dum corpo com sentidos

impotente amanhã quando voltar

a ser o que não foi

Pela nudez macia o feitiço das sombras

agitou toda a tarde escondida do senso

com avidez e com serenidade

pelas colinas leves da minha mão

hesitando emoções no deslizar suave

enquanto todo o mundo parou sóbrio

no escutar da luz proveniente

duma só lâmpada esquecida de apagar

no mesa de cabeceira

Subiu das ancas o vapor da água

misturado em perfume de sabão

de flor de cerejeira

soprou lá fora o vento tempestuoso

no eucaliptal

de cortina fechada lavei as faces

passei os dedos pelos cabelos curtos

na sedosa leveza dos seios dei os beijos

que mantiveram acesos , cintilantes e a brilhar

no rigor da nudez , á minha frente, os olhos

e nunca mais regressei.

.

 

___________PRAIA____________

.

As nuvens sobem entre a linha horizontal

e o barco que atravessa aquém limite

traz chuva à praia sobre gente enxuta

de chapéus e de corpos desnudados

no silêncio escutam-se vozes soltas

de mães e de crianças estendidas

na aragem da baía até á foz do rio

ou do cabo esventrado pela indústria

e pelo mito do galeão naufragado

com arcas de tesouros e gritos das ossadas

das virgens desamparadas

no abismo da salvação

vai chover sobre a praia com o mau tempo

que vem do outro lado do mar

de caneta na areia como posso escrever

o que ficou antes da chuva e tempestade

ou do desconhecido acontecer?

já se escondeu o sol tapado

pela viagem gasosa que se aproximou

do lado dos açores e já não se ouve mais

do que os motores da última traineira

que sai a barra para pescar no alto

a certeza que não veio na rede adormecida

pelas roturas do tempo e pelas almas

de angústias e indefinições

nas múltiplas marés

as pessoas afastam-se sacudindo toalhas

cheias de pensamentos e vão nos automóveis

para qualquer lugar

fica sózinha a praia por onde lentamente

cai a chuva miúda a salpicar a água

na superfície plana do interior sereno

do intransponível oceano.

.

    

.

_________VERA_________

 

Tudo me deste antes do incompreendido

presa ao meu sonho feito de queimaduras

na cegueira que foi me sejam duras

as horas de não ver-te como queria

por muito que me pese esse caminho

solta-me dos teus sorrisos de criança

e encontra nas feridas que me purgam

o enigma da luz que te abra o ceu

                              +++

Não posso querer que sejas outra coisa

para além da descoberta que questionas

nos teus lábios febris

sempre gostei de te ver como um anjo

na pura amenidade dum pôr de sol

e a consumir a vida que te sobra

nas mãos da tua obra inacabada

sem as máscaras comuns do nosso afecto

a secar nos laços oriundos da criação

os pomares da intranquilidade

                              +++

Procuro pesquisar na vontade perdida

o sabão feito em bolas de manhã

do outro lado do tempo muito longe

da negação dos traços e do berço

do nó irrevogavel que nos une

não poderemos nunca ser iguais

no silêncio fatal que nos pertence

nem subtrair aquilo que nos fere

ás diferenças que são o nosso abraço

pois não posso encontra-te de outro modo

que não seja na busca permanente.

.

  

--------LUCY 5 ------------

 

Hoje, o que quero fazer é não te ver

nem ao teu corpo que antes me queimava

se algum vento soprava...

hoje, é não dizer-te do que queria

quando me apavoravam

os actos que deviam suceder-se...

hoje vá lá atrever-se

a voz que me pedia silêncio

calar o som na leveza de estar

eu não te quero ver nem encontrar

em qualquer rua ou praça

ou na mala de roupa da viagem

amarrotada na vaga da estiagem...

Hoje , quero tudo o que disse

de simples regresso ao não dizer

não te dizer adeus

num gesto de anteontem

é tudo quanto agora posso querer

o dia vai caindo entardecer

de vermelho na foz , no horizonte

não há luzes defronte

do meu olhar

e quando me voltar

em qualquer parte

não, não quero ver-te ou encontrar-te

no que ontem quis fazer

hoje o que quero é tudo e não te ver.

.

 

    __POEMA 4 _______

.        _________________

Na rua por onde passas

encapotada e nua nos vestidos

que vestes e que despes

não te envergonhas dos enganos

e das sílabas

herdadas das palavras

lua de bolores enfeitiçada

no átrio de cada noite...

                   +++

Muita coisa nos traz o teu dizer

escrito nos dedos

da luminosidade do teu peito

lua de cada jeito

da frase e devoção

das horas de fugir e de fazer

as sombras

com rimel de esquecer

                 +++

Seios cujos contornos

queimam sob o raiar

do que é tecê-los

para abalar o dia

quando mais nada havia

na ânsia de mexê-los

em suaves passagens protegê-los

do teu olhar , ó lua

que te sentas

cada noite que vem numas tormentas

abaixo da raiz dos meus cabelos.

 .

.

   ~~~LUCY 6 ~~~~

A sombra dos teus olhos

ficou-me, recolhida no perfume

dos teus amargos mas...

e ficou-me da pele acetinada

esse gosto de lábios

no descontrole nervoso das promessas

fictícias , hesitantes

a reclamar as lágrimas por tudo

o que não fora liso como flor...

...mas que voar selvagem das palavras

sem gravata e sem significado

nas raizes mais secas do estiar...!

não fora o que disseste em cada entardecer

e tudo morreria sem caixão

no silêncio cavado pelo teu som.

mas iria matar a ausência na espingarda

que trazes apontada ao terror na minha direcção ?

iria desfazer meus arrepios na ignorância

que fizeste da febre que restou ?

os teus amargos mas...fundos, gravados,

a feridas desenhadas no interior ...

desconhecia a mascara que trazes ,

no alibi macio do setim dos teus lábios

por onde cedi tudo acreditando

como se fosse um deus , em cada prece,

da minha sacerdotiza...

 

 

              POEMA 6

 

O sol crepuscular desce no mar

colado aos pessegueiros hirtos

erguidos no quintal nos dias frios

despidos , raquiticos e secos

escutando o coro certo , a aleluia

das vozes habituadas a afinar

pelo medo pelas lágrimas pela dor

foi quando abandonei os meus deveres.

                             +++

Dum lado a serra, do outro o horizonte

não há canudo marítimo e queria ver as ondas

desfazendo-se leves ou em rosas

das mais brancas que pudesse apanhar

iluminadas no clarão poente

da liberdade e sonho desgarrado

clandestinas bagagens na imensidão das letras

que se foram gorando sem sementes

no vazio que ocupa a nossa alma incógnita.

                             +++

Se nascerem na primavera próxima

pintassilgos na oliveira velha

sento-me á mesa.

Só como á nascença

de porta aberta a quem quiser entrar

para tornar mais fácil a saída

sem perturbar o arbítrio de quem sabe

os passos que há - de dar fugir, ficar

morrer, no vermelho do sol, um tiro , a beira mar.

 

 

 

 

 

 

publicado por Peter às 19:54
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