O MITO DA PROCURA DE DEUSES E DEMÓNIOS

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Quinta-feira, 31 de Maio de 2007

MONTE BUZACO

 

 

 

_____MONTE BUZACO_______

___________________________

.

Monte Buzaco quando nasce a lua

cheia com os caprichos dos teus sonhos

há sombras e penumbras nos medronhos

fantasmas que o teu ventre perpétua.

.

No dorso do teu verde a escuridão

solta-se em raios pelo firmamento

tudo como se fôra um só momento

acima da folhagem do teu chão.

.

Caminhos torneados de arvoredos

e versos burilados de Bernarda

são a intimidade que retarda

o lento anoitecer dos teus segredos.

.

Vento que sopra aragem que inflama

cedros e pilriteiros de viagem

onde se sente a alma da paisagem

e apetece dormir na tua cama.

.

Com séculos de verde teu vestido

foi cortado no húmus rente ao chão

por monges e soldados foi tecido

aos quais a natureza deu a mão.

.

Monte Buzaco se o luar demora

numa salva de prata nos teus cumes

sobem das fontes águas de ciúmes

dos teus ribeiros um cantar que chora.

.

.

__OLHOS NOS OLHOS___

.

Deixei os olhos nos olhos que trazias

com o brilho da côr que me fazias,

a lembrar uma flor viva, escarlate ,

alva e macia ,a tua têz porfia

em sombras d’outra luz ,d’outra magia,

sonho de amor que em décadas se esbate.

.

É curto o dia, o sol põe-se depressa

no horizonte além, de rosa quente,

e no entanto,

passaram sobre nós coisas esquecidas,

muito suão soprou nas nossas vidas,

feitiços do luar, cegueira ausente...

.

Esperar o quê, por quê

se tudo se transforma neste mundo irreal ?

o amanhã talvez, já não importa

adivinhar, quando o passado é porta

que se fechou sem nada recordar.

.

Se a aurora ainda nasce todos os dias,

por quê adormecer em tantos ais

fugindo do que chama ?

o coração que trazes, e não ama,

é como pôr de sol, que faz a cama

sobre um mar extraído dos seus sais.

.

Gémeos são os pecados,

Igual a inquietação que nos sufoca,

Irreverente a angústia que nos toca,

Ocultanto a vaidade dos desejos...

Mas... nem bastava ser grande feiticeiro

P’ra imaginar o mundo num tinteiro

Reescrevê-lo a tinta dos teus beijos.

 

 

____SEQUÓIAS_______

 

Da Califórnia à curva da ribeira

velhas sequóias largas como abraços

sentinelas da estrada e dos espaços

bebendo o humus duma serra inteira

sombras em declive que maneira

de acompanhar os passos nos carreiros

de proteger a voz dos caminheiros

nas oratórias vãs por que se vive

erguendo ao sol perguntas e fazendo

na dança intermitente da folhagem

o berço a cama brancura dum lençol

nas grandes asas da tórrida estiagem.

.

São velhas as sequóias , peregrino

alguém que vem pela sombra e pela frescura

por um silêncio resto de clausura

pela solidão dos tempos

pela gota das nascentes

e pelos raios de luz que o teto filtra

em multiplas opalas de verdura

são nuas as raízes esventradas

nas nervuras da idade

do chão ao alto corridas numa seiva

que escreve a história como minarete

em circunferências largas cujaorigem

agente reconhece sem bilhete.

.

 

__COMO TE QUERIA__

________________________

.

Como eu te queria rosea

quando o sol nasce,

amar o acetinado dos teus lábios,

perder-me na marginalidade

do teu corpo

a anos luz da vidraça da porta

das ameias deste castelo !

.

Como te queria envolvida

em tule diamantino

na cegueira dos dedos

na mistura da face

no silêncio das palavras não ditas

a milésimos de segundos

do rio dos teus olhos

onde me correm águas breves

em barcaças de sonho fútil...!

.

Como me ansiava apetecer-te

fugir, ganhar, perder-te

nesta rua de imagens

donde me partem sonhos e viagens,

ribeira de caniços e vazios

equívocos que descem estes rios

sonho irreal, pensar que não há margens.

 

 

 .

_NA ESTRADA DE PARIS___

_________________________

.

Na estrada de Paris, há florestas,

pendem sonhos dos ramos, são assim

verdes e amarelas e incertas

as imagens que voam sobre mim

.

É doce pela manhã, a planura,

frescas gôtas de orvalho a destilar,

renascem dos destroços e da escura

tensão da noite, sombra a sussurrar.

.

Há pinheirais na estrada a quanto avista

a nossa evolução, óptica pura,

bate de preto as asas um solista,

um corvo a solfejar toda a moldura.

.

Restos de grão nos campos cerceados

pela lâmina de corte e do vazio,

escondem os ecos , gritos abafados

vozes das margens dum estranho rio.

.

Esperam as águas nos vasos lagunares ,

dão forma a patos que se banham cêdo

fazendo do silêncio a alma dos lugares

e dos lugares um sítio de segrêdo.

.

Há crepúsculos na estrada de Paris,

nas florestas abrem madrugadas,

há vómitos e raiva e ser feliz

nas vidas duma morte programada.

.

Nos troncos perfilados há miragens

incógnitas razões, gerúndias idas

na estrada de Paris passam viagens

viajantes de inúmeras partidas.

.

.

_ CEDRO DO BUSSACO__

________________________

.

É verde o berço verde que te enlaça

ó cedro do Bussaco !

dos Açores te veio, o verde de barcaça

e verde das flores.

.

De Espanha, de Castela, de Garcia,

te veio Ançã ,

cordame que o cinzel bateu, e havia

o verde da manhã.

.

Veleiros d’outros mares e oceanos,

guardam lusos perfis,

gigantes e heróis, feitos, enganos,

da África, da India , dos Brasis.

.

Mais verde se tornou teu verde berço,

plantado em cenóbio, em oração,

é verde e céu

aurora e promontório,

o verde aqui nascido, neste chão.

.

Sobe-te à seiva cedro, essa verdura

ondulada na cor de frescos ramos,

sobe-te à seiva a fúria da procura

do caminho seguinte, onde amaramos.

.

O verde aqui pintado, é o teu verde

ó cedro do Bussaco !Dos Açores

te veio o verde mar, verde barcaça,

e verde dos amores..

.

.

 

.

___________VERDE__________

       _____________________
.

Quando nasce o teu verde na paisagem

e a razão de sentir me faz favores,

surgem leitos de afecto em toda a margem

do breve rio dos nossos interiores.

.

Àrvores que estendem braços, natureza

embriagada de sons, solenidades,

esmagadas pelo tempo e pela certeza

de ambíguos vendavais e tempestades.

.

Abana o leme, o lenho, à noite escura,

sombras de outros gigantes, bojadores,

bátegas de água nas ânsias da postura

são mares de mêdos e perigos tentadores.

.

Mar verdejante de troncos natalícios,

no salto dos riachos, onde um beijo

foi tudo o que valeu, foram princípios

da nossa espera adulta pelo desejo.

.

.

___TRANÇA______

__________________

.

De Amura me nasceram os olhares

dos teus olhos morenos e a trança

a cruzar sons na voz da nossa dança

larga e comprida, fios de luares

.

De Amura me nasceu teu corpo e ode

a pele macia, o sopro, o chamamento

dos teus braços, abraço que sacode

o beijo dos teus seios, um tormento.

.

Loucos anos do barro, apoteose

do indomável sonho e da procura

do tempo que não tem metamorfose

vontade que não tem ‘inda fractura

.

De Amura me nasceu, das sobrepostas

pedras da guarnição, a incerteza

do pensamento ateu e as apostas

na seiva que nos trouxe à natureza.

.

Seiva que perfumou os teus cabelos

tombando leves, doces pelo teu peito

regatos onde a água de tecê-los

afaga a mó de imagens no meu leito.

 

 

_____NOITE_________

___________________

.

O barco avança sempre 

em  mar de sombras 

lâminas afiadas rumo ao céu

pela escuridão da noite presentida

no múrmúrio das águas

correndo livres soltas pelo vale.

 

é  tudo presentido

não se mexem as folhas

nem a luz se adivinha pelo buraco

das copas recortadas

só   uma estrela  fria inóspita

algo de ausente

espreita fora dos muros...

.

seus limites escondem

a memória e os troncos as ravinas

a imaginação e um mosteiro

antigo e misterioso

são deuses e demónios

temores e medos

que se ouvem no silêncio

da alma dos loureiros ...

.

o aroma inebria

apalpa-se á mão cheia

como perfume no gineceu da flor

no gargalhar de grou

no abismo dum carreiro

na luz que se procura e se não vê....

.

leito das assombrações...

uma vereda escura

um cedro gigantesco

uma torre sineira

uma ermida vazia

uma senhora do leite de madeira...

 

.

____ OUTONO________

_____________________

.

Foram-se as noites de calor

e sopram os ventos outonais,

arrastando as folhas dos plátanos,

por palavras de verão

insinua-se o ano levemente

para se escapar nos dedos da memória.

.

Foram as tardes um soldado inglês

vermelho como lacre

as ferrugentas páginas da história

vendidas num almoço pela importância

dum general medalhas na distância

ou nas saias xadrez dum escocês.

.

Ecoaram pelos montes tiros sêcos

e nos regatos de àgua se calou

cada raio de sol oiro e castanho

casaca dos ouriços cresce agora

numa folha que cai que toca e chora

nas areias do chão que se apagou.

.

Livres como as tileiras

os sonhos do estio são oráculos

os deuses encerraram

a feira que se armou e no terreiro

o último dos beijos do primeiro

e tudo terminou

fechado e prometido

no enorme bornal do mundo inteiro.

.

.

_ALFUSQUEIRO____

.

Descem as àguas, mês de Junho,

descem de pedra em pedra

cantando o silêncio

bebendo as vertentes

desses montes altos

que escondem Alcôba.

.

Descem as águas ,mês de Junho

descem parecem serpente

torneando em vão

os corpos dos seixos

que afogam no fundo

desejos de verão.

.

Grita o Alfusqueiro, mês de Junho

grita, transporta no ventre

sonhos e viagens,

recados que a serra

transmite p’ró mar

roçando nas margens.

.

Corre o Alfusqueiro, água limpa

e pura, nas voltas dos montes

da manhã segura,

corre, salta e brinca

na réstea doirada

da ponte e da estrada.

.

Na restea doirada, na curva

ccoitada, se mexe a semente,

se agita o celeiro,

na pedra que é tempo ,virtual oleiro

moldador das águas

do rio Alfusqueiro.

 

.

._____LUGAR_______

.

A serra faz-se em pregas sinuosas

salta-lhe o sangue de penedo em penedo

perante o declive surdo

tumulto dos ribeiros

dos pinheiros dos tojos,

dos cedros que se aninham

sobre o tapete de húmus

e pés de azevinheiro...

a minha busca é a busca da paisagem

da alma que cresceu daquela terra

terra inclinada abrupta

passos curtos miudos até amedrontados

trinta anos atrás pelo musgo

o musgo esverdeado dum olhar

sempre castanho , incógnito e interrogativo

sobre a razão da selva

a elevar-se dos troncos,

memórias que são virgens

esquecimentos, penumbras,

mundos maravilhosos e distantes

e sombras de soldados

murmurando na sede

leves rumores de vida...

o precipicio ecoa regurgita

como se uivassem as mesmas alcateias

sobre os mesmos teimosos caminhantes

se diluisse a água rumo aos rios

que não voltam atrás

ao reencontro vazio das nascentes....

sao sílabas inertes esquecidas

que fazem as palavras procuradas

no pó dum berço até num ai de mãe

num abandono atávico longinquo

indecifravel cá dentro de nós.

.

.

____MONTEMURO_____

_____________________

.

Na serra de montemuro há uma imagem,

não é nossa senhora nem tão pouco

o que a imediata lógica produz

indefinida há construção e um louco

a soprar-lhe p’ra dentro muita luz.

.

Há uma casa grande cor de rosa,

sugestão de conforto no deserto

da distância das leiras esverdeadas,

deambulando o sonho sempre incerto

escorre das paredes desmaiadas.

.

Nos picos e nos vales percorre o frio

desoladora estrada secos vão

os olhares e murmúrios do presente,

farrapos só,vazio e compaixão

de tudo o que ruiu precocemente.

.

Na serra de montemuro há uma imagem,

e água de nascente natural

se me limpar a mágoa é lá que vou,

se me lavar a face de jornal

e me tirar a dor que me ficou.

.

.

_____VIA SACRA______

_____________________

.

Desci os degraus toscos do sepulcro,

debruçei-me à varanda de pilatos,

e vi ao longe o mar, ou o que era dele,

imagem, onda, sal, nau de insensatos.

.

Em toda a linha o céu ardeu no fogo

que o sol ali plantou quando partiu

deixando à bruma solta os astros novos

noite que a luz dos olhos definiu.~

.

Corre no oceano uma réstea de prata,

brilhando numa onda feiticeira,

um pedaço que o sol deixou ficar

por empréstimo à lua, a noite inteira.

.

Ameno e sensual como namoro,

este filete junto ao firmamento

está mais perto do todo que ignoro

quanto mais me afadigo em pensamento.

.

No musgo da calçada apronto passos,

quase tão leves como o algodão,

ficam por lá do ser muitos engaços

poeiras mastigadas neste chão.

.

É escuro na floresta, findo o dia

esvaziou-se o silêncio a quase nada,

recortam-se dos cedros seculares

bilros de copas negras assombradas.

.

Desci a via sacra, vim do ermo

do verde entardecer, farto de mim

pois não me mostrei dócil, nem fui crente

nem percebi sequer a coisa assim.

 

.

__NA ENTRADA DO CÉU__

_________________________

.

Na entrada do céu quero encontrar-te um dia,

na porta mais a sul na luz que me amacia

o fresco teu olhar na pele da tua mão

quero encontrar a chave do regresso

poder gozar daquilo que te peço

ao que agora respondes, rindo, não.

.

Na porta mais a sul, há cor e na paragem

desembarcam os crentes da viagem,

ãs almas entrapadas em jejum,

e é do lado de fora que se passa

toda a coisa do amor toda a trapaça,

enquanto os santos entram um a um.

.

Mora o pecado, a dor e na devassidão

da lixeira dos homens o perdão,

reacende a vontade de viver

e de voltar no primeiro autocarro,

fumar uma beata de cigarro,

desembarcar na terra e renascer.

.

Na entrada do céu, cintura mais externa

vou esperar por ti, um trapo, uma lanterna,

toda a esperança terrena do meu lado,

não posso imaginar que num momento,

que fosse apenas simples pensamento ,

não tenhas cometido um só pecado !

.

Vou esperar por ti, vou agarrar-te a mão

trazer de volta à humana servidão,

o sonho que me atrai, e com calor

beijar teus lábios, ressuscitar, viver

o tempo de nós dois, que possa ter

na segunda existência um novo amor.

.

 

____DESASTRE_______

.

Vivemos a fugir e no abismo

que sempre ladeou a nossa estrada,

caímos no vazio imponderável,

jorrando sangue ardendo no delírio

dos vasos interiores

a matéria que finge a nossa estátua

tombou sem rede finou-se,

em torrentes de pranto e vagueia

pelos densos nevoeiros das manhãs,

fantasma de existências.

.

Esquecemos as horas, os horários

dos bifes matinais e mal passados,

batatas fritas, um ovo a cavalo,

onze e meia, não mais ó minha mãe !

na orla duma vida, quase à margem

no sulco destes pés e destes sonhos,

coisas comuns coisas de ocasião

na drenagem de sons e de coragem

de às vezes gritar alto e dizer não.

.

Fugimos do abismo dentro dele

procurámos às vezes simetria,

esgravatamos o dorso na agonia

cingido o corpo ao fio dos botões,

não temos paraquedas nem a morte

nos acena com mundos doutra sorte

que não somos nobreza mas plebeus

aqui, onde nos vemos somos pouco

a bagagem é leve o corpo é oco

nada nos avaliza se houver deus

quando à chamada a gente responder

que nada somos, além de bons ateus...

.

 

____POENTE_______

___________________

.

Nesta água que salta

que vai de pedra em pedra

roçando nos esqueletos

e nos caminhos breves

vive a alma dos frades

que há muito abandonaram

o espirito do sítio....

.

abre-se ao sul um tosco

um simples janelo

ruinas dum oráculo

de velhas divindades

em jaulas de silêncio

de preces esquecidas

no seguro aconchego

do arvoredo dentro.

seguro espreita o muro

olhar acima do postigo

alçado sobre o catre

um pavimento grosso

de pedra lisa e gasta

desfaz-se em humidade

numa capa castanha

há musgo e o mistério

do tempo e do silêncio.

no horizonte ao longe

os campos do mondego

do águeda, do vouga

lavrados pela névoa

da violência calma

irão submergir

na tarde duma tarde

doutra  tarde qualquer.

 

 

 

 

 

 

publicado por Peter às 22:15
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