O MITO DA PROCURA DE DEUSES E DEMÓNIOS

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Domingo, 29 de Abril de 2007

montebuzaco 2

                                                                          

 

  ____TALVEZ______

        __________________

.

Talvez tenhas os olhos

mais lindos deste mundo

e neles o olhar

mais quente e mais suave

talvez tuas olheiras sejam trigo

ceifado não por beijos

mas por curso de lágrimas

choradas longamente

na tua solidão

talvez tenhas tingido

a irís de castanho

e faças nas púpilas

teus recortes de amor

talvez sejas poema

Ou sombra ou firmamento

rasto de divindade

ou ânsia de viver

talvez sejas a sílaba

o fruto o alimento

ou pedaço de estrêla

a solidificar.

na tua face há luz

onde levita breve

a esteira do encanto

que me êxtasia e mói

talvez tenhas os lábios

mais sedosos que há

em todo o universo

partículas dum sol

da primeira explosão

talvez sejas apenas

alguma aparição

tão tranquila e tão doce

que se mede no peito

a distância entre nós

tu que vieste tarde

pelos caminhos incertos

do frio e do suão

tens os olhos mais lindos

deste mundo

a sêda mais macia

nos teus beijos

a luz até

que me extasia

talvez tenhas roubado

para sempre

esta outra luz que tens

no meu olhar.

.

 

 

________SUBIDA______

--------------------------------------

.

Pela rua da Misericórdia sobem eléctricos

onde povo apinhado se alinha

vindos do rio são velhos amarelos

cruzando por ministros de cara gorda

na porta do tavares

há um café à esquerda

de quem sobe de pouca gente

com portas de madeira

onde se senta uma mulher já feita

com os cabelos negros sobre os ombros

já fez serviço dum administrador

e vive hoje da melancólica grandeza

do tempo em que ganhou o campeonato

conservando no quarto uma fotografia

em S. Pedro de Alcântara de mini saia

enquanto os eléctricos sobem por ali

e um sujeito de fraque abotoado

abre a porta a um tipo de gravata

tudo gente do estado mesmo o automóvel...

representantes do povo

que arrasta o seu transporte

pelos fios dos carris nos bancos de palhinha

não muito longe do Carmo

do outro lado recorda Abril da mudança

num dia que se enganou

são ruínas do convento como pregos

espetados nas fardas da esperança

incomodas ideias de polainas no folclore

de grandola vila morena

recolhidas à pressa na parada

na ferrugem do e na missão cumprida

por isso sobem eléctricos do rio belos

e amarelos e apinhados de gente

que paga bem a liberdade adiada

cravos que o sangue não derramou.

.

 

 

 

                              PAI

.

Aguardas o destino inseguro

sentado na porta da existência

escutando o ruído da estrada

absurda sucata do tempo

como aquele velho nash

verde sonho distância

separado do pessegueiro bravo

pelo odor do óleo e do bolor

aguardas a nossa fogueira de espaços

mas nada posso fazer por ti

amigo dos meus abraços

vou comprar-te umas botas

aquecer o teu fraco coração

agradecer-te a passagem

procurar um adeus até amanhã...

enquanto olhas para mim

apenas posso ser

continuação...

.

 

________MORRER_________

_________________________

.

Tenho um revólver na mão

mas não vou disparar assim tão cedo

havia de matar-me hoje por ser domingo ?

o chumbo abraçaria o telefone

iria procurar o coração

alojar-se num quarto de três estrelas

e adormecer na dúvida prevista.

                        ///////

Por ser domingo dormi até mais tarde

e não houve calor não houve combustão

nas franjas do suicídio combinado

premeditei demais as calorias

fiquei sem alibi choveu lá fora

encostei-te a ti vítima á parede

mas não dei ao gatilho quando queria.

                      ///////

Tenho um revolver na mão

um buraco no peito trespassando

o sonho e a imagem virtual

mas não morri ainda hoje é domingo

está por descobrir se o dia de descanso

é melhor do que outro para morrer à tarde

depois de ler o semanário

e no fim dos jogos de futebol...

.

.

 ~~~~~~~~VINHO~~~~~~~

Não te importes com o cabelo desgrenhado,

Maria Providência,bebe o teu copo

E manda passear o taberneiro

Da rua Francisco Grandela...!

Cose-te pelas paredes na nesga do crepúsculo

Como maçã ainda verde rente à folha,

Chega-te ao balcão com o teu bigode,

Emborca o copo como corpo de igreja

Sem te importares com o marulhar da rua.

Os teus companheiros,debruçados da janela,

Não sabem mais que as palavras censórias

Que tu também vomitas sem consciência.

Amanhã, ou até logo quando a noite cerrar,

Quem sabe se descerão do parapeito

Baixando ao balcão das suas próprias cozinhas

Na escuridão do isolamento,

Matando o vício e a amargura

Que não consegues trancar em casa ?

Os burgueses,esses não te vêm,

Vivem do outro lado do mundo,

Mesmo quando passam por ti

E perguntam mecânicos se estás boa dos ossos...!

Tu estás óptima...! Tão óptima como eles...

Eles,que tu sabes bem,nunca viveram

A dura miséria dos teus bolsos...

Eles,que se banham em àgua limpa...

Eles,que não dão a mão...nem a ti,

Nem aos que riem da janela

A tua figura pictoricamente pura

Quando vais a caminho do colchão com pulgas.

Ri-te também dos corpos da burguesia,

Dos seus restaurantes e casas de saúde,

Dos seus acidentes,do seu colesterol,

Das obesidades perturbadoras

Do metabolismo cerebral,

Do rosbife e do preço da gasolina...!

Ri-te do meio das tuas acácias

Tão amarelas na primavera como sol,

Tão aromáticas como o grená

Do teu copo de vinho tinto...

Bebe,Maria Providência,

Bebe a toda esta forma de vida,

A todo o desconforto da viagem

E manda o taberneiro à merda,logo à saída da tasca...

Senta-te no rebate do passeio público

Ri-te de todo este cenário absurdo

Dos irmãos humanos...!

Ri-te do capital imundo

Que te atira com paladar sublimado

Ao copo do esquecimento

Na margem da sua caridade.

.

 

TAVARES

Lembro-me do Tavares,o taberneiro,

Da patusca figura de barrigudo,

Das mesas de cimento,das cadeiras

De ferro,no fresco da parreirinha,

Do balcão cerimonioso e dum relógio

De pêndulo,com algarismos romanos,

Pesado como as peças de pano,acinzentadas,

E me faziam recordar artilharia e verde

Em Santo António do Cântaro.

Vestia um colete antigo de comerciante

Que bem podia ser de Santa Catarina,

Do qual saía,até ao bolso,

Uma linda corrente de relógio

E tinha o aspecto taciturno

Dum burguês falido.

A parreirinha conservava a mobília

Da moda do principio do século,

Onde senhora bem podia,em férias,

Sorver um cálice de Porto,

Mas era o que restava

Dos grandes armazéns de lã

Comidos pelo tempo

Onde alguns operários da ferrugem

Bebiam uns copos de vinho tinto,

Ao fundo do corredor,

Na sombra da parreirinha.

Até aqui atravessou a vida e ficou só,

Acomodou-se filosoficamente ao fim,

Gastou as palavras e os gestos,

Saturou sons,juizos,consciência,

Muniu-se de conclusões e resolveu partir

À procura da tranquilidade.

Vestiu o fato novo mais antigo,

Engravatou a camisa de preto,

Socorreu-se dum frasco de veneno

Guardado na companhia do bolso esquerdo,

Abriu um guarda chuva contra o sol

E incorporou-se no próprio funeral.

Algumas lágrimas lhe correram da face

Durante o abstrato vazio do desfile,

Mas silencioso,aprumado,rígido,

Seguiu-se religiosamente,

Buscando nos derradeiros passos,

Quem sabe,

As últimas razões mais os pedaços

Do tempo absoluto,hora que ceifa,

Minuto mais minuto,o ar incógnito...

Talvez tenha emborcado o frasco

Já perto do destino

E com ele,atirou à terra,

Quilos desconhecidos de matéria

E reflexões sem peso exacto.

No dia seguinte pela manhã

Foi encontrado à sombra do guarda chuva,

Encostado,hírtico,ao muro de fora

Do cemitério caiado.

 

    __________LINHA__________

.

Calei-me ao telefone quando ouvi

a tua voz de lá dizer sou eu...

aguardei o silêncio aconteceu

não te pedir mais nada

e desligar...

                  lllllll

Pousei o telefone sobre a linha

onde cubro a nudez e o interior

não sem pensar pronunciar

amor...

mas nada ia mudar...

e desliguei.

                  lllllll

À volta a soletrar na escuridão

jorrando luz a lâmpada neon

a tela apagada dos meus olhos

a tua voz...

o som...

                lllllll

Calou-se o telefone

na noite sem palavras

e não deixei de estar aonde estavas

nem onde estavas tu

ficaste só...

.

.

____ ORLEÃS_________

____________________________________

.

Parei em Orleãs para te beijar

mas tu não estavas lá nem tinha cais

por onde procurar

em Orleãs a ânsia de voltar

foi vento que passou e pouco mais

meti uma moeda na ranhura

presumi-me sobre recordações

segurei -te nas mãos e na procura

às portas de Orleãs busca insegura

não consegui escutar mais que ilusões...

                      lllllll

Parei em Orleãs para te olhar

num retrato que tinha na carteira

procurei -te na gare para pintar

um cenário que fosse de maneira

a esperar por ti mas não estiveste

senão em ecos e ondas de absurdo

telefonei dum telefone surdo

apanhei o comboio e prossegui...

                     lllllll

Parei em Orleãs tarde no meio

e não te vi passar foi a cidade

que te deixou fugir do meu país

para então vires comigo e da janela

acenarmos aos campos estendidos

do comboio veloz

fomos perdidos

fomos mercadoria sem bagagem

sem bilhete fizemos a viagem

e ninguém deu por nós...

.

.

________MAUSER_____

___________________________

.

Tenho na minha mão a mauser que me deste

apontada para mim como no dia

em que deixei cair o protector de boca

numa ranhura surda do carrilhão menor

tenho na minha mão o dedo no gatilho

basta virar a arma e no meu peito

acertar sem temor e sem amor

abrir-se-há um buraco imperfeito

a desfazer a carne na sua circunferência

quero que essas flores que eu prometi levar

revertam para mim botões de rosa

brancos como esse sonho que agiganta

a insatisfação

não vou fazer uma revolta para me matar apenas

já nasci nesta pólvora de morte

sopro poeira espinho simples rombo

duma barca menor

custa-me agora adormecer no pó

que anda assentado nas tábuas do porão

agora que encontrei um astrolábio

hei-de dar um tiro em mim próprio

com a arma que me deste ?

.

 

DIA DE FESTA

.

Era dia de festa e tu fugiste mãe

fugiste a festejar não te agarrei

atado ao cais partido que serei

sem ter os teus ouvidos para escutar ?

                     lllllll

Era dia de festa mais além

subindo a serra que correste a pé

chamo por ti não ouves já não é

o tempo do teu tempo me falar.

                     lllllll

Foste fria gelada os teus cabelos

madeixas brancas nuvens de poeira

foram ponto final dessa ladeira

onde passaste a vão rios e mar.

                    lllll

Eras minha teus olhos era vê-los

a tecer-me as palavras mais ungidas

as imagens mais belas desmedidas

do gigante que eu era ao teu olhar.

                   lllllll

Fugiste neste dia nesta festa

e na rua fiquei despido nú

o lastro que me tinha eras tu

e não fiquei mais leve a navegar.

                 lllllll

Fugiste mãe fugiste foi-se embora

esse sorriso franco a alegria

que era peso e alívio do meu dia

e me ia regulando vida fora.

.

MÃE

Tombou-se-te a cabeça por quê mãe

por que quebrou o fio que trazias

mal agarrado ao mundo tu sabias

tal qual como da noite o dia vem

                       lllllll

Por que partiste assim por que fixaste

o futuro depois para além de mim

quis dar-te a minha mão não seguraste

quis dizer-te que não disseste sim.

                      lllllll

Eras aroma sal e erva doce

que tinha o mundo em ti para expiar ?

gostavas de sorrir e de chorar

de te erguer da cadeira e acabou-se.

                    lllllll

Hoje chamo por ti já não responde

a tua nova forma e condição

deixaste-me ficar não sei por onde

à procura de nexo e razão.

.

 

______________________CARTÃO

______________________________

 

Obrigada pelo teu cartão

Manuscrito...

Os teus anos, fazem o que sou.

Sempre que penso em ti

Penso amanhã...

Amanhã ?...

Arruma os livros e cadernos

E deita-te na cama

Que são horas...!

.

 

. 

CADEIRA

.

Certa,certa

É a complexidade da cadeira.

Não tem pó,

Não tem rugas,

Mas arestas,espelhos,

Braços e uma broca.

Como seria a escada

Sem a tua mão

Na minha mão...?

Mesmo assim

É uma escada imensa

Que subimos depressa.

Ia com receio

Do teu receio,

Por que julgava

O que tu não sabias

Mas...

A rapidez surpreendeu-me

E como te portaste tão bem,

Nem um pastel de nata te comprei...

 

 

_______BERENICE_____

______________________

 

Michelle ma dit c’est une etoile

l’etoile de Berenice

ma fille et l’image pure

d’estabilité au ciel

a noite na rua escura

éo principio e fim deste silêncio

que me não deixa dormir

dou passos na gravilha nova

que me soam a mastigar

numa peneira de grão

eu que não tenho telefone à mão

para dizer ao céu

que me segure a estrada

e me diga se Berenice

me pode inscrever na recepção...

a luz sobre a porta principal

é a única velocidade á nossa volta

enquanto não me deixa dormir

a noite longa que se criou

ao acabar a tarde

são três da madrugada

nas margens do charante

le signe de Berenice

m’aporte les choses de bas

comme maladie du matin

je n’ai le moyen d’etre etoile

pour dire adieu

.

---SETE HORAS------

______________________

 

Sete horas nos Remédios cai a noite

sobre os nossos sentidos estão em extase

enormes extensões de tanto querer

pelo escadório longo que há-de vir.

                    lllllll

As luzes da cidade abaixo cheia

de imagens espantadas refletem

a sombra de corpos abraçados

trinta anos depois de ali correr.

                   lllllll

Sete sons imortais assustadores

dissolvem-se pelos montes em redor

eu cinjo-te a cintura meu amor

e escuto as tuas sílabas do céu.

                  lllllll

Revistámos os cumes os buracos

onde lavar a fronte continuámos

com os olhos nos olhos navegando

em horas de maré num mar de vista.

                  lllllll       

No alto dos Remédios na fachada

onde os deuses tem portas sobre pedras

ensaiámos as cenas mais tranquilas

na moldura da côr crepuscular.

                  lllllll

No alto da senhora demos mãos

jurámos ir até ao firmamento,

E tu que não fugiste agora corres

Para onde te vai o pensamento.

                  lllllll

Sete horas nos Remédios batem forte

numa das torres altas e depois

havemos de ficar mais separados

quanto mais um fizermos de nós dois.

.

 

_________________VERDES

.

Verdes cumes

de acádias floridas

sinais do tempo não

dos trilhos dos pinheiros

ou das sombras

onde nos abraçamos

sem chegar e partir

já somos o limite de nós

em cada instante

de corpos enleados

na distância outonal

nem o vento parado

sobre o cume

mexe uma palha

porquê fugir

vendados e rendidos

pela clareira estreita

que precipita tudo

em dias ignorados

em sonhos de segunda

ou desejos inuteis...?

fugir em verdes troncos

de acácias e de cedros

fugir no pensamento

como se fosse um barco

uma estrada sem fim

que curva sempre ali

junto ao moinho velho

ou na sombra dum choupo

duma gasolineira.

 

 

 

________DIAS___________

________________________

.

Em cima dum colchão

entre o calor do quarto

e a penúria dos sonhos

estão dias de amanhã

frágeis como o vapor da água

que sobe do charante

para quebrar o ontem

enlameado nas raízes profundas

da corrente do verão

nas margens deste rio

que não é o mondego

nem o tejo

é certo que não vejo

as fontes e nascentes

mas corre na torrente

á minha frente

a secura dos barcos

e não mais

para lá dos limites

passeiam-se turistas

de mão em mão

transportando revistas

tirando fotografias

ao silêncio dos dias

á noite em turbilhão

e o rio arrasta consigo

a linha telefónica

impossivel abrigo

na distância

para quebrar a ânsia

que nos toca.

 

 

 

publicado por Peter às 00:40
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