AMURA 1
.´
_HORA DA BICA______
._________________________
.
Hora da bica
Um travo de café no amargo da manhã,
Por que não se pode ir a espanha
Neste fim de semana,
Nem se pode ir no mês
Ao cinema,uma vez.
Já tirei o casaco,
Cumprimentei o chefe,
Já peguei nos papeis
Do fim da minha vida.
Tenho os filhos na escola,
Os livros por pagar,
Adianta chorar ?
+++
Hora da bica,
Um travo de café numa amostra de dia
A lembrar umas férias,não se sabe
De que sol,de que praia,
De qual casaco em pele
Da boutique do bairro,
É aquela nova mala
Da paragem da zona?
Nas casas alugadas se finou.
+++
Como há quem acredite
No coro da televisão,
Na farsa dos políticos,
Na fé da religião ?
No vício imaginário,
Abismo de quem não pode
Passar da escravatura ?
Préstito,é o dia que nasce,
Céu e inferno das secretárias
Abarrotadas de papel
De cheiro burocrata.
+++
Como há quem acredite
Nas palavras convincentes
Nas promessas ordinárias
Que adormecem os dedos
Sobre o destino das mãos ?
Amanhã e depois de amanhã,
No mês que vem e no próximo ano,
Tudo o que não existe,
Será igual a pressa de passar
Para parar por ali,
Hipotecando cigarros nas escrituras
Que levam a liberdade de viver
Dentro das praças
Que são feitas para nós.
Hora da bica,
Um travo de café,
O doce rebuçado ao fim do mês
No amargo da manhã.
.
DIÁLOGO___________
.
Como falar contigo
Voz das orelhas grossas
Se te escondes nos séculos,
Na imensidão dos céus,
Em muito mais
Do que aquilo que eu posso
E muito mais
P’rá além do que eu enxergo ?
+++
Como falar contigo
Ou como compreender-te
Se tu, que tudo sabes,
O não sabes fazer ?
Atiras sobre mim
O peso da incapacidade ?
Como crer no teu rosto
De adivinho que és
Pois antes de o seres já o sabias ?
+++
Eu,mais leve que castanho,
Percebo muito bem o som da minha rua,
Percebo bem o drama dos jornais
E a força jovial do teledisco,
Mas a ti,que tens grandes orelhas,
Que tudo escutas,cheiras,
Registas nos haveres
E possuis a pena grossa
Dos críticos de cinema,
A ti,que tudo vês sem usar óculos,
A ti...não te percebo...!
VELHO AMIGO
CHARLIE BROWN
.
Foge meu velho amigo Charlie Brown,
Foge desta poeira cósmica, azul, de via láctea,
Ruma para azimutes de matéria perfeita,
Afasta-te deste beco imundo do universo,
Leva o teu sonho,a tua banda,
O teu nariz de explorador,
As cartolinas do teu humor
E,se não encontrares coisa melhor que isto,
Manda lixar a história desde Cristo...
+++
Aqui,neste covil onde os maus jogadores
Continuam a dar as cartas viciadas,
Aqui,nesta imundice de miséria e crendice,
Não pode ser senão a lixeira de Deus...
Por isso,hão que existir entre as estrelas
Avenidas,rotundas,florestas,
Onde todos são deuses ou são bestas
E o fim de semana principia às sextas...
.
___CHAPÉU DE CHUVA_______
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
.
Ninguém ouviu falar num chapéu de chuva perdido ?
Ninguém o encontrou na mesa do café ?
Ninguém o viu no banco do eléctrico ?
Fumava português,o do maço amarelo,
Via-se muitas vezes na Praça da Figueira
E foi chapéu perdido,após comprado,
Aberto,após fechado
Numa segunda feira.
+++
Ninguém ouviu falar no meu chapéu de chuva ?
O que tapava a nuca como sombra ?
Teria sete dedos,uma luva
Em cada membro.
Ninguém o viu voando,ante porquê ou quando,
Pelas velas do vento indo e soprando ?
Chapéu de pano preto
Chapéu de pano brando !
+++
Ninguém ouviu falar dum chapéu encarnado ?
De gravata ao pescoço no balcão do cinema ?
Ninguém o viu ferido ou mascarado,
A tomar um café no Largo do Chiado
Criticando o sistema ?
Talvez...esteja morto...e esticado
Na morgue,como um leque...
O meu pobre chapéu...
Aberto,após fechado,
Fechado após comprado
Com um cheque.
___CAFÉ_____________
Sentado na mesa do café,
lendo o jornal como burguês,
esqueço o como e o por quê
deste cenário de lazer.
Esmagam-se os desejos na parede,
subjuga-se a vontade à mesa,
o espanto de viver livremente
cola-se às letras das notícias
que acontecem por acontecer
na rotina dos casos do dia.
No banco do hospital
um cobertor de ideias
adormeceu sinistrado
no acidente do rápido da tarde...
Nas luzes do shoping center
as chamas dos líquidos vitais
morreram no ofset
enquanto as partes em conflito
se vêm desprovidas de decisão,
nesta laranja de nova burguesia
a buscar equilibrio financeiro
através da indústria do calçado,
ñivelamento urbano necessário
ao relançamento económico.
.
7,50
7,40
Contra a minha insatisfação voam as asas de
todas as aves
as penas dos olhos mais castanhos,os cabelos
mais escuros,
os sorrisos impotentes da razão reconhecidamente
irónica
contra o não acreditar nesta estadia assolada
pelo sopro do deus
7,43
Entre estas distâncias onde me encontrei sem
contribuição própria
suportando como num circo os encontrões dos
jogos escolhidos
não encontro o sublime fogo da oferta divina
nem as vestais dos oráculos entre os prestigitadores
que tanto apregoam contribuir para experimentar
o paraíso
7,47
Nestas ruas de aspecto labirintico e quase impenetraveis
circulam latas de cortes variados pela geografia económica,
mas não circula o sangue nem os lábios compreendem
o sistema nervoso que vegeta nos acanhados corpos
atirados para a margem da regra comensuravel.
7,49
E voam os pássaros sobre alguns montes ao longe
mesmo assim
abaixo da epiderme ozonada da gruta por achar
onde se diz que existe um jardim e muita gente
acredita
como quem acredita noutras coisas que não existem
nem passam desta terrena encenação
_________QUEDA___________
-------------------------------------------
O tipo que me deixou cair por aí abaixo
bem o poderia ter feito
com uma protecção
mas não
foi saco de cimento
que se espalhou
pelo chão
+++
O pó que levantou desapareceu
e com ele os sinais
do modelar do barro
os items iguais
da semelhança
que vai dum dedo ao outro
dum corpo ao outro corpo
do sol á lua
ou até só
ao fim da minha rua
+++
O tipo que me deixou cair
num sábado de shotes
esqueceu na ressaca do domingo
a sua história
numa pedrada de governo
sem decretos
nem ministros
e sem democracia
VERÃO 1
Seixos e cega regas assombram
as horas do meio dia
silêncio
aragem dos segundos
que passa e beija
não se escuta
como as arcas da loja
escura salgada e nua a rua
a rua que corre de ventre aberto
de pés descalços
e de pó
+++
no campanário
adivinha-se a santa vestida de rôxo
é Santa Ana
e o martírio nos olhares ausentes
da procissão que passa
no estio e na terra ressequida
no sol ardente
no sacrifício da crença
+++
o tempo que parte de vez em quando
volta ás portadas de quem fica
para colher flores e soluçar
nas nascentes de sangue
nas promessas
ou nos azedos braços
das memórias
pois uns partiram para voltar um dia
outros partiram para não mais voltar
.
. VERÃO 2
O verão chegou agosto
pintou-se a sul nos muros
no amarelo dos carreiros
na eira e no sobrado
pesado e quente
até na capoeira das galinhas...
sente-se nas narinas
nas ladeiras cavadas
onde vai seco o trilho da ribeira
abrasado no osso até aos seixos
o principio da tarde
cola-se ao branco da capela
sai lenta a procissão
o despejo da serra e da cobiça
nas gotas do prior
vermelho ensanguentado
a cantar o tedeum
na terra ressequida...
os que voltaram
levam o pálio roxo e o tempo
de quem partiu para frança
sem a fé dos sermões
na ânsia de servir
vão arqueados
bebem o calor tórrido
na derradeira fé dos seus avós
mas já não dão aos filhos
a taça do senhor
na eira ou no sobrado
que o sol queima
.
____CUMPRIMENTO______
Já sei que vou deixar as tuas maõs
esquecer-te a face ardente
guardar a angústia dos teus olhos
quando tudo acabar num buraco na terra
fosso que preocupa o nosso entendimento
+++
não sei se assistirei à história que te digo
mas sei que veja ou não irá acontecer
tal como estava escrito em todo o lado
até na sombra breve das glicinias roxas
que se dissolviam ténues na manhã
um manto de supor inebriante...
+++
posso dizer que não fui carinhoso
no teu pequeno imaginário
é de meu ser o ser que me trouxeste
mas há entre nós dois muitos encontros
em tanta coisa vista sem olhar....!
oxalá o adeus seja o mais breve
até amanhã
se for o caso far-te-ei viver
entre os corpos inuteis
até que eu próprio parta
sem regresso...
._______PAI_________
____________________
.
Aguardas o destino inseguro,
sentado na porta da existência,
escutando o ruído da estrada,
absurda sucata do tempo
como aquele velho nash
verde sonho distância
separado do pessegueiro bravo
pelo odor do óleo do bolor
nas noites gélidas
na mão das ferramentas
aguardas a nossa fogueira
são espaços
mas nada posso fazer por ti
amigo dos meus abraços
vou comprar-te umas botas
aquecer o teu fraco coração
agradecer-te a passagem
procurar um adeus até amanhã...
enquanto olhas para mim
e apenas espero ser
continuação...
.
BOLSA
_________________
.
Não tem cotação a penúria humana
não tem pés a bolsa não usa sapatos
é civilizada nos seus cadilaques
usa dolares petros cartolas segurança
muitos colarinhos que enfeitam a pança
cota contas notas sacados e cheques...
+++
não tem cotação a penúria humana,
humana do homem do bicho do gato
a bolsa só cota cotações de facto
de pratas e ouros drogas e valores
inventários lucros dinheiros extratos
não há cotação p’ra sangue ou p’ra raça,
o seu todo é nada valor nominal
nem há corretores neste polinómio
terráquio e incógnito versus manicómio
órbita do sol gravitacional...
+++
de algures muito longe do negro do tempo
do sítio onde nascem civilizações
será este homem do conhecimento
ou só do universo um pobre jumento
esterco de estrelas e constelações ...?
NO BANCO______
...o rapazito entrou,puxando a porta,
ostentando um letreiro,
pede esmola...
é surdo,
é mudo e do sovaco
cai um rasgão que acompanha o casaco
a todo o comprimento,
como sola...
De repente
às pessoas...
que não vêem,
mostra o cartão,
rasgado e manuscrito...
mecânico,expedito,
roda de pronto ao primeiro contacto
repetindo depois o mesmo acto.
Desce-lhe atráz o forro
sobre o aspecto esguio,
a roupa,de calor,recebe o frio
e ante o aspecto grave do gerente
sem levar um tostão,
sai desta gente.
