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MONTEBUZACO

O MITO DA PROCURA DE DEUSES E DEMÓNIOS

MONTEBUZACO

O MITO DA PROCURA DE DEUSES E DEMÓNIOS

01
Mai07

AMURA 1

Peter

 

.´_HORA DA BICA______

._________________________

.

Hora da bica

Um travo de café no amargo da manhã,

Por que não se pode ir a espanha

Neste fim de semana,

Nem se pode ir no mês

Ao cinema,uma vez.

Já tirei o casaco,

Cumprimentei o chefe,

Já peguei nos papeis

Do fim da minha vida.

Tenho os filhos na escola,

Os livros por pagar,

Adianta chorar ?

          +++

Hora da bica,

Um travo de café numa amostra de dia

A lembrar umas férias,não se sabe

De que sol,de que praia,

De qual casaco em pele

Da boutique do bairro,

É aquela nova mala

Da paragem da zona?

Nas casas alugadas se finou.

            +++

Como há quem acredite

No coro da televisão,

Na farsa dos políticos,

Na fé da religião ?

No vício imaginário,

Abismo de quem não pode

Passar da escravatura ?

Préstito,é o dia que nasce,

Céu e inferno das secretárias

Abarrotadas de papel

De cheiro burocrata.

           +++

Como há quem acredite

Nas palavras convincentes

Nas promessas ordinárias

Que adormecem os dedos

Sobre o destino das mãos ?

Amanhã e depois de amanhã,

No mês que vem e no próximo ano,

Tudo o que não existe,

Será igual a pressa de passar

Para parar por ali,

Hipotecando cigarros nas escrituras

Que levam a liberdade de viver

Dentro das praças

Que são feitas para nós.

Hora da bica,

Um travo de café,

O doce rebuçado ao fim do mês

No amargo da manhã.

 

 

.

                DIÁLOGO___________

.

Como falar contigo

Voz das orelhas grossas

Se te escondes nos séculos,

Na imensidão dos céus,

Em muito mais

Do que aquilo que eu posso

E muito mais

P’rá além do que eu enxergo ?

            +++

Como falar contigo

Ou como compreender-te

Se tu, que tudo sabes,

O não sabes fazer ?

Atiras sobre mim

O peso da incapacidade ?

Como crer no teu rosto

De adivinho que és

Pois antes de o seres já o sabias ?

              +++

Eu,mais leve que castanho,

Percebo muito bem o som da minha rua,

Percebo bem o drama dos jornais

E a força jovial do teledisco,

Mas a ti,que tens grandes orelhas,

Que tudo escutas,cheiras,

Registas nos haveres

E possuis a pena grossa

Dos críticos de cinema,

A ti,que tudo vês sem usar óculos,

A ti...não te percebo...!

VELHO AMIGO

CHARLIE BROWN

.

Foge meu velho amigo Charlie Brown,  

Foge desta poeira cósmica, azul, de via láctea,

Ruma para azimutes de matéria perfeita,

Afasta-te deste beco imundo do universo,

Leva o teu sonho,a tua banda,

O teu nariz de explorador,

As cartolinas do teu humor

E,se não encontrares coisa melhor que isto,

Manda lixar a história desde Cristo...

                               +++

Aqui,neste covil onde os maus jogadores

Continuam a dar as cartas viciadas,

Aqui,nesta imundice de miséria e crendice,

Não pode ser senão a lixeira de Deus...

Por isso,hão que existir entre as estrelas

Avenidas,rotundas,florestas,

Onde todos são deuses ou são bestas

E o fim de semana principia às sextas...

.

 

 

___CHAPÉU DE CHUVA_______

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

.

Ninguém ouviu falar num chapéu de chuva perdido ?

Ninguém o encontrou na mesa do café ?

Ninguém o viu no banco do eléctrico ?

Fumava português,o do maço amarelo,

Via-se muitas vezes na Praça da Figueira

E foi chapéu perdido,após comprado,

Aberto,após fechado

Numa segunda feira.

                        +++

Ninguém ouviu falar no meu chapéu de chuva ?

O que tapava a nuca como sombra ?

Teria sete dedos,uma luva

Em cada membro.

Ninguém o viu voando,ante porquê ou quando,

Pelas velas do vento indo e soprando ?

Chapéu de pano preto

Chapéu de pano brando !

                       +++

Ninguém ouviu falar dum chapéu encarnado ?

De gravata ao pescoço no balcão do cinema ?

Ninguém o viu ferido ou mascarado,

A tomar um café no Largo do Chiado

Criticando o sistema ?

Talvez...esteja morto...e esticado

Na morgue,como um leque...

O meu pobre chapéu...

Aberto,após fechado,

Fechado após comprado

Com um cheque.

 

 

 

 ___CAFÉ_____________

 

Sentado na mesa do café,

lendo o jornal como burguês,

esqueço o como e o por quê

deste cenário de lazer.

Esmagam-se os desejos na parede,

subjuga-se a vontade à mesa,

o espanto de viver livremente

cola-se às letras das notícias

que acontecem por acontecer

na rotina dos casos do dia.

No banco do hospital

um cobertor de ideias

adormeceu sinistrado

no acidente do rápido da tarde...

Nas luzes do shoping center

as chamas dos líquidos vitais

morreram no ofset

enquanto as partes em conflito

se vêm desprovidas de decisão,

nesta laranja de nova burguesia

a buscar equilibrio financeiro

através da indústria do calçado,

ñivelamento urbano necessário

ao relançamento económico.

 .

 

7,50

7,40

Contra a minha insatisfação voam as asas de

 todas as aves

as penas dos olhos mais castanhos,os cabelos

 mais escuros,

os sorrisos impotentes da razão reconhecidamente

irónica

contra o não acreditar nesta estadia assolada

pelo sopro do deus

7,43

 Entre estas distâncias onde me encontrei sem

 contribuição própria

suportando como num circo os encontrões dos

jogos escolhidos

não encontro o sublime fogo da oferta divina

nem as vestais dos oráculos entre os prestigitadores

que tanto apregoam contribuir para experimentar

o paraíso

7,47

Nestas ruas de aspecto labirintico e quase impenetraveis

circulam latas de cortes variados pela geografia económica,

mas não circula o sangue nem os lábios compreendem

o sistema nervoso que vegeta nos acanhados corpos

atirados para a margem da regra comensuravel.

7,49

E voam os pássaros sobre alguns montes  ao longe

 mesmo assim

abaixo da epiderme ozonada da gruta por achar

onde se diz que existe um jardim e muita gente

acredita

como quem acredita noutras coisas  que não existem

nem passam desta terrena encenação

 

 

 

_________QUEDA___________

-------------------------------------------

 

O tipo que me deixou cair por aí abaixo

bem o poderia ter feito

com uma protecção

mas não

foi saco de cimento

que se espalhou

pelo chão

                 +++

O pó que levantou desapareceu

e com ele os sinais

do modelar do barro

os items iguais

da semelhança

que vai dum dedo ao outro

dum corpo ao outro corpo

do sol á lua

ou até só

ao fim da minha rua

                 +++

O tipo que me deixou cair

num sábado de shotes

esqueceu na ressaca do domingo

a sua história

numa pedrada de governo

sem decretos

nem ministros

e sem democracia

 

 

 

                         VERÃO 1

 

Seixos e cega regas assombram

as horas do meio dia

silêncio

aragem dos segundos

que passa e beija

não se escuta

como as arcas da loja

escura salgada e nua a rua

a rua que corre de ventre aberto

de pés descalços

e de pó

          +++

no campanário

adivinha-se a santa vestida de rôxo

é Santa Ana

e o martírio nos olhares ausentes

da procissão que passa

no estio e na terra ressequida

no sol ardente

no sacrifício da crença

         +++

o tempo que parte de vez em quando

volta ás portadas de quem fica

para colher flores e soluçar

nas nascentes de sangue

nas promessas

ou nos azedos braços

das memórias

pois uns partiram para voltar um dia

outros partiram para não mais voltar

.

 

 

.               VERÃO 2

O verão chegou agosto

pintou-se a sul nos muros

no amarelo dos carreiros

na eira e no sobrado

pesado e quente

até na capoeira das galinhas...

sente-se nas narinas

nas ladeiras cavadas

onde vai seco o trilho da ribeira

abrasado no osso até aos seixos

o principio da tarde

cola-se ao branco da capela

sai lenta a procissão

o despejo da serra e da cobiça

nas gotas do prior

vermelho ensanguentado

a cantar o tedeum

na terra ressequida...

os que voltaram

levam o pálio roxo e o tempo

de quem partiu para frança

sem a fé dos sermões

na ânsia de servir

vão arqueados

bebem o calor tórrido

na derradeira fé dos seus avós

mas já não dão aos filhos

a taça do senhor

na eira ou no sobrado

que o sol queima

.

 

 

____CUMPRIMENTO______

 

Já sei que vou deixar as tuas maõs

esquecer-te a face ardente

guardar a angústia dos teus olhos

quando tudo acabar num buraco na terra

fosso que preocupa o nosso entendimento

                               +++

não sei se assistirei à história que te digo

mas sei que veja ou não irá acontecer

tal como estava escrito em todo o lado

até na sombra breve das glicinias roxas

que se dissolviam ténues na manhã

um manto de supor inebriante...

                               +++

posso dizer que não fui carinhoso

no teu pequeno imaginário

é de meu ser o ser que me trouxeste

mas há entre nós dois muitos encontros

em tanta coisa vista sem olhar....!

oxalá o adeus seja o mais breve

até amanhã

se for o caso far-te-ei viver

entre os corpos inuteis

até que eu próprio parta

sem regresso...

 

 ._______PAI_________

____________________

.

Aguardas o destino inseguro,

sentado na porta da existência,

escutando o ruído da estrada,

absurda sucata do tempo

como aquele velho nash

verde sonho distância

separado do pessegueiro bravo

pelo odor do óleo do bolor

nas noites gélidas

na mão das ferramentas

aguardas a nossa fogueira

são espaços

mas nada posso fazer por ti

amigo dos meus abraços

vou comprar-te umas botas

aquecer o teu fraco coração

agradecer-te a passagem

procurar um adeus até amanhã...

enquanto olhas para mim

e apenas espero ser

continuação...

 

.

         BOLSA

_________________

.

Não tem cotação a penúria humana

não tem pés a bolsa não usa sapatos

é civilizada nos seus cadilaques

usa dolares petros cartolas segurança

muitos colarinhos que enfeitam a pança

cota contas notas sacados e cheques...

                          +++

não tem cotação a penúria humana,

humana do homem do bicho do gato

a bolsa só cota cotações de facto

de pratas e ouros drogas e valores

inventários lucros dinheiros extratos

não há cotação p’ra sangue ou p’ra raça,

o seu todo é nada valor nominal

nem há corretores neste polinómio

terráquio e incógnito versus manicómio

órbita do sol gravitacional...

                          +++

de algures muito longe do negro do tempo

do sítio onde nascem civilizações

será este homem do conhecimento

ou só do universo um pobre jumento

esterco de estrelas e constelações ...?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NO BANCO______

 

...o rapazito entrou,puxando a porta,

ostentando um letreiro,

pede esmola...

é surdo,

é mudo e do sovaco

cai um rasgão que acompanha o casaco

a todo o comprimento,

como sola...

De repente

às pessoas...

que não vêem,

mostra o cartão,

rasgado e manuscrito...

mecânico,expedito,

roda de pronto ao primeiro contacto

repetindo depois o mesmo acto.

Desce-lhe atráz o forro

sobre o aspecto esguio,

a roupa,de calor,recebe o frio

e ante o aspecto grave do gerente

sem levar um tostão,

sai desta gente.

 

 

 

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