TERMINUS
___________POEMA 5 ____________
Por que é que me acontece a mim
não ter telefone nem rádio
não ter a merda das palavras de ocasião
para fazer calar o silêncio
que me corta a respiração diária
no curta entrada da minha larga rua ?
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Por que é que me acontece chegar ao escrivão
e dizer não...
abandonar as grades escancaradas
na penetração do outono entusiasmado
com o novo metro de superfície rosa ténue
e viver a cidade imaginária
sempre em redor da serra do buçaco ?
+++
Por que me acontecem as coisas
por ser louco
por me embriagar com águas perfumadas
te teimosia e insalubridade
por que me enganas alma desentendida
e me dás tanta sina de incerteza
aberrante figura de barro mole ?
+++
Por que me acontece a mim
não ter telefone á mão
e nem ter rádio nem ver televisão
para me sentir presente neste mundo
para abraçar toda a moralidade
e para vestir um fato nauseabundo
ao passear nas ruas da cidade?
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~~~~~~~~~~~~POEMA 1~~~~~~~~~~~~~~
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Pendurei o pescoço em coisa nenhuma
solucei sobre o riso duma noite
ou da guerra do dia que surge
na obscura terra de nós
como se não fossemos senão
nada, nada e mais nada
e ao redor do nada , nada existisse
não sentissemos ossos, as fissuras
os olhos e as mãos, tudo aparente
a segurar o cadeado aberto
das grades onde encerramos os corpos
pelo cair dos teus cabelos
pelo riso dos teus lábios
pelo sal das tuas lágrimas
eu dou-te sempre um beijo virtual
troco o olhar imaginado
o olhar urgente
ou o olhar crepúsculo
da tarde fugitiva de domingo...
não somos coisa nenhuma
na sombra dos pinheiros ondeantes
nem alma possuímos
trocou-se de comum acordo
sem recibo e sem assinatura...
que somos nós ?
vontade de seguir
sem torcer o caminho
ou pólvora, espingarda
por uma mão em cada mão ?
NÓS DESCEMOS A SERRA_
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Nós descemos a serra das meadas
como dois cegos que sem ver se vissem
talvez nossas figuras se existissem
fossem ontem com ânsias de amanhã
procurando nos riscos do destino
que os nossos caminhos repetissem
aquilo que não foi nunca nem só
desta breve existência de manhã
.
assim demos boleia estrada abaixo
àqueles que buscavam outra margem
do douro intemporal rio de abismos
para esquecer os nossos catecismos
e andar de mãos dadas pela loucura
do telefone á cama de casal
sem saber nunca o que se ia passar
antes que se passasse
o corpo experimental
.
era proibido o rosto da mulher
nas horas que então foram
como agora se vê se nada fossem
era a mesma razão
quer existisse ou não esse momento
transparente dum sonho fingimento
elementar de medo e condição
e no entanto aqui não há fantasma
do vento que soprou sobre o que foi
arrasando o invólucro sem alma
para sofrer a dor que ainda dói
na dúvida se existes que persiste
porque existo eu ainda e não partiste.
.
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~~~~~~CAMINHO~~~~~~
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Encontrar o caminho no desfiladeiro da vida
quando o tempo é urgente
e semeia a exclusão
procurar no imenso a forma e dizer não
dizer não a sorrir a sorrir numa ferida
de raiva, ódio e cólera exigida
no horizonte em vão...
+++
Encontrar o caminho onde não há caminho
o fio da razão, o ser, a madrugada,
procurar tudo aonde não há nada
procurar luz no silencio ou no espinho
que se crava no peito
e dizer não perfeito
á alma acorrentada...
+++
Escutar as flores , os pássaros, os cantos
de quantos montes, vales ,a vista alcança
colher frutos maduros nesse dança
do que é aterrador ,desconhecido ,
viver sempre e de novo nova esperança
esquecendo ter já noutra vivido...
+++
Fazer do corpo a arma mais severa
para esconder a alma dilacerada
gritar bem alto a silaba rasgada
e levantar os olhos á quimera
duma outra manhã , que surge crua
para dizer que sim ,
que continua...
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_______POEMA 3_____________
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Que fizemos das figuras de vento
que corriam pelo dorso
da serra como os pássaros
bebiam água na sombra da auto estrada
enquanto o tempo deslizava
sem grades na paisagem
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Que fizermos das palavras não ditas
no silêncio de tudo
desde que o sol se pôs em Santarém
voando no esquecimento
dos corpos separados
de origem e principio ?
+++
Que fizemos da tolerância
do abrigo acolhedor
do rio e do seu cais e das promessas
trazidas no convés
digeridas na espuma duma noite
com um vestido curto
e preto de dançar?
__ROMANCE_____
.
Fui sempre o primeiro a chegar
ao sítio errado das betoneiras velhas
levava-te comigo já lá estavas
antes de lá chegares
e já te tinha dito tanta coisa
muito antes de te ver
que pouco te dizia quando vinhas
para me ouvir dizer
a ausência a angústia e o terror
agora sim é simples já está
o corpo branco ou o vestido preto
cinzento verde azul e eu sei lá
por amanhã ser sábado ao meio dia
meio dia de manhã e de mensagens
rezados a correr pelas duas margens
ou no aroma da avenida de roma
pensamento na mão rosa encarnada
de quatrocentos escudos no rossio
e a proa dum navio a encobrir
o beijo de setim o muito e nada
para não querer o dia de domingo
depois da foz do rio rio azul
declive em sonho areias e o sul
sem bússula nem leme porão proa
o lastro frágil do fundo da canoa
que me pergunto se nada aconteceu
nem sequer existimos tu e eu
que nunca o rumo e a navegação
se viu partir para lá daquele espelho
que nos disse palavras ao subir
décimo quarto andar então
dando-se o corpo sem nos dizer não
vendendo a alma sem qualquer razão
como é que tudo foi e se perdeu
como tudo foi dado e não se deu ?
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_____LUCY_________
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Não sei se vens se vais até ao fim
se farei alquimias dos restos fragmentados
o que serás até não mais que o pouco
que tua alma contém quiçá sejas ninguém
que não me importará saber quem sou também
parte do nada e nada partirá
do corpo que se tem como um preservativo
cratera dum cativo sorvendo pesadelos
na vontade e receio de perdê-los
tropeçando sem ver na leviana imagem
da virtude aparente
num hotel de três estrelas
onde a ânsia do banho nestes corpos
foi o papel selado dos desejos
misturados com beijos e com sexo
depois perdeste o nexo
num táxi qualquer
vestiste toscas roupas de museu
um lenço uma blusa um avental
um estranho soletrar lábios sem sal
um coração por onde nunca entrou
o meu olhar mas só recibos pagos
e textos que passaram por ser vagos
na tira de adn perfurada e não
não te vejo a chorar toda a tragédia
que permanente cai do universo
tu que choras o mal e o inverso
tu que sabes ser mártir e mentir
dos sonhos partilhados
hás-de tragar loucura no abismo
dos silêncios sagrados e no cismo
dos deuses variados e dispersos
hás-de colher os ventos adversos.
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______NOCTURNO________
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Por quê dançar ao som de tanta noite
se jaz perdido o tempo e na memória
o mavioso acorde das quimeras
o encanto dos sonhos começados
num abrupto cortar dos corpos inundados
pelo grande rio onde se afogam ermos
e nos rimos de sermos e não termos
a música correcta a porta aberta
para continuar pelo deserto incerto
onde havemos de ter estada certa
rodopiamos no meio da multidão
somos todos iguais quimicamente
no ritmo do tango da valsa que mais são
as máscaras dum baile tanta gente
para quem noite e noite e nem se sente
sucata permitida pelos pneus a rolar
baiuca que recebe dinheiro para nos dar
uns trocos de fugir da sombra que há em nós
um sítio onde se esquece tudo
dum mar sem margens diário sem voz
chagas e chuva a escorrer das veias
onde se agarram ossos sem retorno
compressa e droga adorno
da livre concorrência da mentira
de escolhermos para nada
dançar bailar suar numa esplanada
com uótes e leizeres na cabeça
na auto estrada ás cinco da manhã
sobre a corda moleque de nossa vida vã
cheia de nós para que de nós se esqueça.
ÓBIDOS____________________
Em Óbidos paramos e cercamos
medievas muralhas de emoções
libertadas num copo de ginginha
na taberna do tempo
e descobriu-se
o caminho dos segredos ,
e das hesitações
no ramo de loureiro da calçada
que falava fascínio
dizia assombração
nos espaços interiores da barbacã
aquém ameias era o sol manhã
crepuscular na estrada que surgia
pelo amanhacee dum outro dia.
as sílabas uníssonas e poucas
ecoaram nos montes vozes loucas
à procura do cimo do outeiro
mas só uma nespereira envelhecida
murmurava esquecida a outra vida
e o salpicar das vinhas estremenhas
antes da grande ponte das mensagens
na auto estrada do sul em cujas margens
desceu a luz no vermelho do mar
onde os faróis dos carros ao passar
não foram mais que risos descobertos
do acoitar do medo e da exclusão
na fita preta em cada mão maluca
para aumentar o jejum pousar a nuca
na janela do sado ou na cintilação
da noite delirante
afundando-se acesa e ofegante
na sua momentânea combustão.
.
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__LUCY 2 _____________
.
Como se fosse um rio
ou um deserto
a aridez dum monte
o negro duma lua ou seu luar
como se fosse dar
e não perder
o perfume do verbo
como se fosse um sábio
de livros de papel
pintados a craion
e não voltasse atrás
nos pergaminhos
bom...
abertas as palavras
à beleza dos corpos
que subiram os muros
de toda a natureza
e nos deram a sorte de viver
como s fossem veias
de sangue a circular
como se fossem teias
e arte de cerzir
o som a luz
as ondas e o mar
como se fosse apenas o presente
do verbo acreditar
ou vermelho poente
que o sol pinta ao deitar
como se fossem trocas
dum simples olhar
seria o rei de copas
e tu
apenas louca
que tens experiênca pouca
de sonhar...
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__LUCY 3 ____________
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Posou em nu na frente dos meus olhos
a tomar banho num quarto de marfim
desenhando os contornos da pele branca
numa caricia á púbis com fios de àgua quente
e gemidos de penumbra no silêncio profanado
pela imagem dum corpo com sentidos
impotente amanhã quando voltar
a ser o que não foi
Pela nudez macia o feitiço das sombras
agitou toda a tarde escondida do senso
com avidez e com serenidade
pelas colinas leves da minha mão
hesitando emoções no deslizar suave
enquanto todo o mundo parou sóbrio
no escutar da luz proveniente
duma só lâmpada esquecida de apagar
no mesa de cabeceira
Subiu das ancas o vapor da água
misturado em perfume de sabão
de flor de cerejeira
soprou lá fora o vento tempestuoso
no eucaliptal
de cortina fechada lavei as faces
passei os dedos pelos cabelos curtos
na sedosa leveza dos seios dei os beijos
que mantiveram acesos , cintilantes e a brilhar
no rigor da nudez , á minha frente, os olhos
e nunca mais regressei.
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___________PRAIA____________
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As nuvens sobem entre a linha horizontal
e o barco que atravessa aquém limite
traz chuva à praia sobre gente enxuta
de chapéus e de corpos desnudados
no silêncio escutam-se vozes soltas
de mães e de crianças estendidas
na aragem da baía até á foz do rio
ou do cabo esventrado pela indústria
e pelo mito do galeão naufragado
com arcas de tesouros e gritos das ossadas
das virgens desamparadas
no abismo da salvação
vai chover sobre a praia com o mau tempo
que vem do outro lado do mar
de caneta na areia como posso escrever
o que ficou antes da chuva e tempestade
ou do desconhecido acontecer?
já se escondeu o sol tapado
pela viagem gasosa que se aproximou
do lado dos açores e já não se ouve mais
do que os motores da última traineira
que sai a barra para pescar no alto
a certeza que não veio na rede adormecida
pelas roturas do tempo e pelas almas
de angústias e indefinições
nas múltiplas marés
as pessoas afastam-se sacudindo toalhas
cheias de pensamentos e vão nos automóveis
para qualquer lugar
fica sózinha a praia por onde lentamente
cai a chuva miúda a salpicar a água
na superfície plana do interior sereno
do intransponível oceano.
.
.
_________VERA_________
Tudo me deste antes do incompreendido
presa ao meu sonho feito de queimaduras
na cegueira que foi me sejam duras
as horas de não ver-te como queria
por muito que me pese esse caminho
solta-me dos teus sorrisos de criança
e encontra nas feridas que me purgam
o enigma da luz que te abra o ceu
+++
Não posso querer que sejas outra coisa
para além da descoberta que questionas
nos teus lábios febris
sempre gostei de te ver como um anjo
na pura amenidade dum pôr de sol
e a consumir a vida que te sobra
nas mãos da tua obra inacabada
sem as máscaras comuns do nosso afecto
a secar nos laços oriundos da criação
os pomares da intranquilidade
+++
Procuro pesquisar na vontade perdida
o sabão feito em bolas de manhã
do outro lado do tempo muito longe
da negação dos traços e do berço
do nó irrevogavel que nos une
não poderemos nunca ser iguais
no silêncio fatal que nos pertence
nem subtrair aquilo que nos fere
ás diferenças que são o nosso abraço
pois não posso encontra-te de outro modo
que não seja na busca permanente.
.
--------LUCY 5 ------------
Hoje, o que quero fazer é não te ver
nem ao teu corpo que antes me queimava
se algum vento soprava...
hoje, é não dizer-te do que queria
quando me apavoravam
os actos que deviam suceder-se...
hoje vá lá atrever-se
a voz que me pedia silêncio
calar o som na leveza de estar
eu não te quero ver nem encontrar
em qualquer rua ou praça
ou na mala de roupa da viagem
amarrotada na vaga da estiagem...
Hoje , quero tudo o que disse
de simples regresso ao não dizer
não te dizer adeus
num gesto de anteontem
é tudo quanto agora posso querer
o dia vai caindo entardecer
de vermelho na foz , no horizonte
não há luzes defronte
do meu olhar
e quando me voltar
em qualquer parte
não, não quero ver-te ou encontrar-te
no que ontem quis fazer
hoje o que quero é tudo e não te ver.
.
__POEMA 4 _______
. _________________
Na rua por onde passas
encapotada e nua nos vestidos
que vestes e que despes
não te envergonhas dos enganos
e das sílabas
herdadas das palavras
lua de bolores enfeitiçada
no átrio de cada noite...
+++
Muita coisa nos traz o teu dizer
escrito nos dedos
da luminosidade do teu peito
lua de cada jeito
da frase e devoção
das horas de fugir e de fazer
as sombras
com rimel de esquecer
+++
Seios cujos contornos
queimam sob o raiar
do que é tecê-los
para abalar o dia
quando mais nada havia
na ânsia de mexê-los
em suaves passagens protegê-los
do teu olhar , ó lua
que te sentas
cada noite que vem numas tormentas
abaixo da raiz dos meus cabelos.
.
.
~~~LUCY 6 ~~~~
A sombra dos teus olhos
ficou-me, recolhida no perfume
dos teus amargos mas...
e ficou-me da pele acetinada
esse gosto de lábios
no descontrole nervoso das promessas
fictícias , hesitantes
a reclamar as lágrimas por tudo
o que não fora liso como flor...
...mas que voar selvagem das palavras
sem gravata e sem significado
nas raizes mais secas do estiar...!
não fora o que disseste em cada entardecer
e tudo morreria sem caixão
no silêncio cavado pelo teu som.
mas iria matar a ausência na espingarda
que trazes apontada ao terror na minha direcção ?
iria desfazer meus arrepios na ignorância
que fizeste da febre que restou ?
os teus amargos mas...fundos, gravados,
a feridas desenhadas no interior ...
desconhecia a mascara que trazes ,
no alibi macio do setim dos teus lábios
por onde cedi tudo acreditando
como se fosse um deus , em cada prece,
da minha sacerdotiza...
.
POEMA 6
O sol crepuscular desce no mar
colado aos pessegueiros hirtos
erguidos no quintal nos dias frios
despidos , raquiticos e secos
escutando o coro certo , a aleluia
das vozes habituadas a afinar
pelo medo pelas lágrimas pela dor
foi quando abandonei os meus deveres.
+++
Dum lado a serra, do outro o horizonte
não há canudo marítimo e queria ver as ondas
desfazendo-se leves ou em rosas
das mais brancas que pudesse apanhar
iluminadas no clarão poente
da liberdade e sonho desgarrado
clandestinas bagagens na imensidão das letras
que se foram gorando sem sementes
no vazio que ocupa a nossa alma incógnita.
+++
Se nascerem na primavera próxima
pintassilgos na oliveira velha
sento-me á mesa.
Só como á nascença
de porta aberta a quem quiser entrar
para tornar mais fácil a saída
sem perturbar o arbítrio de quem sabe
os passos que há - de dar fugir, ficar
morrer, no vermelho do sol, um tiro , a beira mar.
