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MONTEBUZACO

O MITO DA PROCURA DE DEUSES E DEMÓNIOS

MONTEBUZACO

O MITO DA PROCURA DE DEUSES E DEMÓNIOS

29
Abr07

AMURA

Peter

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  ____AMURA______

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Quem a viu,como eu,na margem leve,

Desse Geba postada sentinela

E sob ogiva,arcada,entrou por ela,

Não a esquece por gosto,nem por estima,

Pois há-de imaginar,corrente acima,

Puxada por motor,como carraça,

Quase que o só porão duma barcaça

Subindo o rio,largo e amarelo

Que mesmo ao centro tem,bem pequenina

Ilha plantada com face de menina

Preta de cor,cabelo seco e belo.

                     +++++++

Observando o Geba, a temperatura,

A lama da vazante,o navegar

Pelas pernas no mar de caranguejos

De carcaças ao sol,por apanhar,

Sobre peças de bronze e de Junot,

Acima das portadas inglesas

Que a guarnição antiga arrecadou,

É ler livros de cercos e ataques

Por tribos mais ou menos de mandingas

Que lutavam com setas e basbaques

Dos quais nasceu mais tarde,esta Domingas

                     +++++++                 

Por aqui me tive e por satisfação,

Na velha fortaleza me hospedei,

Nos muros nus e grossos lamentei

Os receios e as contradições

De ter por pátria e mãe aflições,

De fugir pelos últimos minutos

Da poeira da estrada e das bolanhas,

Escondendo as misérias das entranhas

No conforto dum banco de café

Onde o fumo que sobe,sobe em pé

E ancorado no largo,Geba enxuto,

Além Piriquiti,já não disfruto

Senão de mar e mar,senão maré.

.

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DANCING

 

E m Bissau,à saída da cidade

Na estrada que leva a Bissalanca,

Existia à direita uma tabanca

Que tinha um bar de pouca qualidade.

                     ++++

Debaixo das mangueiras era o cujo,

Fugindo então à grande densidade,

Dele fazendo parte,em igualdade,

Sócias de cor,amantes de marujo.

                   ++++

De Cabo Verde,Inês, uma das quotas,

Quase nua a dançar tardes inteiras,

Intervalava mornas,coladeiras,

Com fregueses,cervejas e com notas.

                  ++++

Outra,negra,balanta,de Mansoa,

Da moda havia nome,Mariquinha,

Nome por que se dava e o qual tinha

Por crisma importado de Lisboa.

                 ++++

Abonando a verdade,é bom dizer,

Dancing assim,só p’ra beber cerveja,

Seja qual for o prisma que se veja

Outra coisa não se ia ali fazer.

.

  :::::::DOMINGAS:::::

Domingas era filha de manjaco

E tinha parentela de mandinga,

A casa onde habitava,era um buraco

Onde todos gostavam duma pinga.

                         ++++

O pai,era mílícia,era tenente,

Tinha sete mulheres,duas com truques

De preparar os potes de aguardente

Que bebiam em toques e batuques.

                         ++++

Convidado de sempre,o muçulmano,

De túnica tão branca como linho,

Chamava-se Djaló e soberano,

Amava tanto Meca como vinho.

                        ++++

Só Domingas vivia como branca

Tentando preservar sua virtude

De quantos procuravam,na tabanca,

Os fortuitos prazeres da juventude.

                       ++++

Alça delgada ao ombro,sobre o braço,

Peito seguro,rijo e todo nú,

Amparava este mundo no regaço

Imaginando o noivo,Mamadú.

 

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 __REINO ANTULA____

_________________________

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No reino Antula o chão é quase lama,

O rio,quando sobe,é nos mangais

Que exprime o mar,assoreando o drama

Da gente que vive entre canais.

                     ++++

Tem embondeiro amigo,bem postado

Na beira do caminho poeirento

Onde sulcos abertos de encarnado

Cheiram a chuva no sabor do vento.

                     ++++

O castro vive à sombra da espessura,

Os tugúrios,de terra,circulares,

Tem sempre a porta aberta à chave dura

De acções heróicas,espectaculares.

                     ++++

São pés gretados,são mamas caídas,

São crianças doentes,são contágios,

De sílabas de histórias transmitidas

De escravos,viagens e naufrágios.

                    ++++

O rei que manda aqui,manda calado,

Não tem autoridade,nem canhão,

Se passa um jeep,foge ignorado

E esconde sua coroa no colchão.

.

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   ____AMISSÃO________

           _____________________

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Amissão Bico.Sete anos.

Sem escola.Gosta do mato,

Gosta de bichos,do trato

Do seu herói da tabanca.

Lá dentro,seu coração

É mais ou menos igual

Àquele que em Portugal

È filho do meu irmão,

Com uma só diferença,

Ser preto,visto por fora,

Ser preto desde a nascença.

Por isso,às duas da tarde,

Quando o refeitório fecha,

Vem Amissões de lata e balde

Meter as mãos no bidon de gasolina

Acabado de encher com restos,

Pelo fachina.

Levam para comer o pai, a mãe

E os familiares que por lá têm.

À tardinha, as irmãs,

Crianças cujos colos

Não estão ainda formados,

Por vinte e cinco tostões

Despem as tranças

E fazem nhacnhac com soldados.

.

       ____ULA_________

          _________________

 .

Ula foi um amigo que tive,

Um amigo sem história,

Não sei se ainda vive,

Se é apenas memória,

Mas de certeza em Bula o conheci

E em Bula ficou,quando parti.

                 +++

Era alto,era preto,da Guiné,

Amigo de caju,

Ula,não sei o quê.

De calção,tronco nu,

Sobrenome não deu,

Era luxo demais,só d’europeu

Ter outro nome além do próprio,seu.

                 +++

Um dia, quando fora do farpado,

O encontrei pensando,

Sentei-me do seu lado

Constatando

Nosso comum castigo

De estar ali em paz,estando em perigo,

Mas quando lhe ofereci uns calções velhos,rotos,

Abriu-me olhos leais, como os garotos

E fez de mim o seu melhor amigo.

.

 

 

_______________BAR__________

__________________________

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Velho bar de genuflexões

E de telhados de colmo,

Velho bar,meu imbondeiro

De penumbras,sombras,noites,

Bar das insinuações,

Dos sonhos,superstições,

Bar do corpo,copo inteiro,

Do sedento pernoitar,

Bar de manhã,nevoeiro,

E do lento navegar,

Bar de toda a rosa negra

Onde o unimog pardo

Geme seios de luar,

Bar de colcha,numa cama,

De mornas e de mimar,

Em ti recorda quem ama

Que existe um outro remar.

 

 

 

_______MARINHEIRO___

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

 

É com olhos de mundo que vislumbras,

Do alto do castelo,entre vilões,

A carta,na cegueira desse espelho,

Rumo entre sol,azul,verde,vermelho,

Cordas,ormuzes,nortes e ceilões.

                ++++

Das madrugadas frias,há penumbras

Perdidas nos lenhos da juventude,

Embarcadas nos vícios e pecados

Almas de medo,heróis potenciados,

Prisioneiros do rei e da virtude.

                ++++

Abarcas hoje,como nunca,adeus...

Adeus Tejo,do alto das vigias,

Um monóculo em mão e não galés,

Se bem que te mudasses,’inda és

A reduzida corte que não querias.

               ++++

Abarcas esse sonho e dizes,meus...

Teus são esses caminhos,e os nossos...?

Nunca chegaste a dar o sugerido,

Dos teus naufrágios,muito foi perdido

Tua loucura terminou em ossos.

             ++++

Olhas agora velho,como quando

O mar galgava ventos e padrões,

Heróico de lembranças sem futuro,

Deliras encontrar porto seguro

No ruir das ameias,dos canhões.

            ++++

Esse que foi teu mar,declinando,

Já não sobe ao convés do teu transporte,

Nem areia,nem pinho,nem perfeito...

Esse que foi teu mar,já não é estreito,

Nem dele és já senhor,nem dele és sorte.

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______REGRESSO_______

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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Morreram os veleiros da Índia

E os marinheiros calçudos

De becos da Mouraria.

Os barcos de carvão

De canos cabeludos

Que se fizeram um dia

Ao alto mar da África

E escreveram páginas

Da guerra de catorze,

Afundaram-se no petróleo

Duns paquetes de luxo

Com duas chaminés

Em forma de cartucho.

Voltaram marujos a terra,

O vento dos veleiros

Às letras duma história

E pelas praias de Alvor,

De Bartolomeu Dias,

Só bom navegador.

As páginas estão velhas

Como as rochas de Sagres

Rendilhadas pela àgua delinquente.

Olhando o mar ignoto

De sobretudo roto,

O Infante procura a não semente,

Enrola na tempestade as ondas

E soprando nas velas o sabor da brisa

Vai descansar enfim

Na terra quente.

Pela catedral de Silves,

Pelo forte de Cacela,

Já não se ouve o murmúrio

Duma lenda de moura

Estranha e bela,

Nem gemidos do Santo

Trazidos de Marrocos pelo suão

E seu pranto.

As areias

Pelas prais de Tabira,

Escaldam sob os pés

Na babugem do mar

E as casas,na bonança,

São caravelas

No cabo da Boa Esperança.

A Alcobaça regressa o almocreve

De saco rôto e vazio.

Honrado e desonrado,

Traidor,cobarde,herói,

Ardente,corajoso,

Mártir,ladrão,

Não trás despojos.

Conserva o ar pateta

De camponês dos montes,

Curioso pescador,

Temente a Pedro,Inêz,

E incha como rã...

Assim,é que dobrou o Cabo Bojador...

Foi-se a fortuna,a sorte,

O ouro do Brasil,

A canela,a pimenta,

A cana, o algodão,

O grude e o café.

Como norte,

Um astrolábio antigo,ferrugento,

Trazido da Irlanda,por favor,

Umas pedras antigas,monumento,

E as noites quentes de Alvor.

O mais,foi digerido

Pela classe essencial,

Que o povo,diferido,

Mantem-nos Portugal.

.

 

 

   __ORMUZ____________

               ___________________________

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Nas praças da cidade

Oscilam as palmeiras,

Ultrapassam muralhas,

Esquinas,sobre o mar

Branco do seu lençol

De casas destelhadas,

Rasgadas pelo sol.

A ilha, guarda o deserto

Da nau que guarda a ilha

E do trilho do norte

A Pérsia,é caso misterioso,

Areia,pó e sorte

Num sopro de armadilha.

Em cada arcada,cada abrigo

Tem cor de sangue

Nas adagas caladas

Pelos canhões do forte.

A brisa não sopra

Na armada sonolenta,

Sentinela fundeada

Entre ruas do estreito

Onde o calor sufoca a garganta

E Ormuz sufoca o marinheiro.

.

 .

  _____ LUSITANIA___________

 .~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

A Lusitânia está parada,aguarda

Que parindo a Europa um filho novo,

Lhe dê por sorte a sorte que lhe tarda

E gere nesta gente um outro povo.

                          +++

Poeta,sonhador e marinheiro,

Sem rumo,sem piratas, leme e vela,

Sem cabos,sem calcário,sem canteiro,

Sem Goa,sem Damão e sem canela.

                         +++

O velame apodrece na amurada,

O pó vai dissolvendo sobre a espuma

A pólvora,ferrugem duma espada

Enterrada no sal do além bruma.

                        +++

A ocidente o mar,frio,sombrio,

Ruge como este sonho que agiganta

O hesitante passo no vazio

Da incógnita maré que se levanta.

                       +++

A Lusitânia aguarda identidade,

Estar e não estar,ser ou não ser alguém,

Atávica memória sem idade

De no mundo ser todos e ninguém.

.

 

_______SAUDADE________

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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Já não voltarei a Abrantes

Que fica lá no sertão,

Nem à boca do Quanza

Que não sei se fica ou não,

Ou à voz de minha mãe

Que escuto pelos botões,

Não voltarei,nem ao Geba

Rasgado por batelões,

Nem ao comboio das cinco

Na linha que o rio tem,

Sobe quando os outros descem

Desce quando os outros vêm,

Nas àguas do vale abrindo,

Um leque a favor do mar,

Os meus olhos vão subindo

Minhas mãos vão a largar.

Já não voltarei a Abrantes,

Não voltarei,isso não,

Ao fundo lhe corre o Tejo

Ao centro o meu coração.

 

 

.

  ____RECTÂNGULO____

________________________

.

A oeste o tempo e povo urge

Desta total encenação,

O comboio que surge

É nova condição.

O mar está parado,

As palavras escritas

Não tem significado,

De tão ditas,

E o silêncio persiste

Na gente que não anda,

Que pensa e que existe

Num solo que não manda.

Rectângulo de emendas,

De rasuras,de gritos,

De misérias e prendas,

De abafados conflitos,

Para lá da beira do mar,

As costas de Ceilão

Os reinos do Malabar

Que já não são.

O horizonte absoluto

Das portas de Zamora

Após o mar enxuto,

Não demora.

.

 

 

    _____TROVAS__________

          _______________________

Pela Torre de Belém

Andam cantando trovas

Navegadores idososas

De barbas brancas

Com quatrocentos anos.

Discutem o preço da canela

O ouro do Brasil

Os diamantes,

E gostam de jogar damas

Nas costas dum marinheiro aleijado

Que deixou o mar há dias,

Na semana passada...

Gente que dirige séculos

E nunca morre.

Dormem á segunda feira,

Espreitam as pernas das varinas

Pelo berloque da saia,

Às terças,na Ribeira,

Consomem restaurantes,

Rabanetes folclóricos

E até mulheres de escaparate

Nos troncos obtusos.

São trovadores da sorte,

Milagreiros sem norte,

Que o povo aplaude

E a Senhora adora.

.

 

 

___A FERNANDO PESSOA____

 

Em cada dia que passa

A fuga é mais tormentosa...

Ó grande,ó gigantesco Adamastor !

Quem crê em ti

Absorve a dor...

No cérebro do leme,a trama escura

Separa a alma e deixa o corpo ao vento,

A tempestada abana e chicoteia

Tudo o que seja lixo ou veia

E da matéria varre o excremento.

Ò grande mar,libertador de peixes...

Tinha ilusões de chegar a Calicut ou mais além,

Mas faltam-nos nas àguas os gigantes

Que alimentando o medo

Nas ondas nos mantém.

.

 

          

____EXPÔ______________

_______________________

. 

Mais tejo há a oriente

e o sol a bater com fúria

na grande placa nua norte sul

são três palmeiras

secas hirtas

que se apontam ao rio

ao sabor da corrente

contra uma grua revirada

na estrada e no ceu

posa uma noiva escura

com o polegar na boca

da sua fotografia

A brisa sobe incógnita

e nem um batelão ausente

chapa as águas nas casas

pintadas de amarelo

no estendal das margens

o interior de fora aquece

nas janelas fechadas

o ar mal se respira no outeiro

onde se sentam pedras

alinhadas num banco de aço

cromado de chinês

Não há timoneiros ofegantes

nas velas que não passam

nem guitarras nem viúvas

nos barris dos porões

chora-se o fado do tempo

no calor sufocante

das ruas que se encontram no tejo

que terminam no tejo

nos detritos do tejo

nos últimos ossários

dos nossos navegadores.

 

 

 

 

 

 

.

29
Abr07

montebuzaco 2

Peter

                                                                          

 

  ____TALVEZ______

        __________________

.

Talvez tenhas os olhos

mais lindos deste mundo

e neles o olhar

mais quente e mais suave

talvez tuas olheiras sejam trigo

ceifado não por beijos

mas por curso de lágrimas

choradas longamente

na tua solidão

talvez tenhas tingido

a irís de castanho

e faças nas púpilas

teus recortes de amor

talvez sejas poema

Ou sombra ou firmamento

rasto de divindade

ou ânsia de viver

talvez sejas a sílaba

o fruto o alimento

ou pedaço de estrêla

a solidificar.

na tua face há luz

onde levita breve

a esteira do encanto

que me êxtasia e mói

talvez tenhas os lábios

mais sedosos que há

em todo o universo

partículas dum sol

da primeira explosão

talvez sejas apenas

alguma aparição

tão tranquila e tão doce

que se mede no peito

a distância entre nós

tu que vieste tarde

pelos caminhos incertos

do frio e do suão

tens os olhos mais lindos

deste mundo

a sêda mais macia

nos teus beijos

a luz até

que me extasia

talvez tenhas roubado

para sempre

esta outra luz que tens

no meu olhar.

.

 

 

________SUBIDA______

--------------------------------------

.

Pela rua da Misericórdia sobem eléctricos

onde povo apinhado se alinha

vindos do rio são velhos amarelos

cruzando por ministros de cara gorda

na porta do tavares

há um café à esquerda

de quem sobe de pouca gente

com portas de madeira

onde se senta uma mulher já feita

com os cabelos negros sobre os ombros

já fez serviço dum administrador

e vive hoje da melancólica grandeza

do tempo em que ganhou o campeonato

conservando no quarto uma fotografia

em S. Pedro de Alcântara de mini saia

enquanto os eléctricos sobem por ali

e um sujeito de fraque abotoado

abre a porta a um tipo de gravata

tudo gente do estado mesmo o automóvel...

representantes do povo

que arrasta o seu transporte

pelos fios dos carris nos bancos de palhinha

não muito longe do Carmo

do outro lado recorda Abril da mudança

num dia que se enganou

são ruínas do convento como pregos

espetados nas fardas da esperança

incomodas ideias de polainas no folclore

de grandola vila morena

recolhidas à pressa na parada

na ferrugem do e na missão cumprida

por isso sobem eléctricos do rio belos

e amarelos e apinhados de gente

que paga bem a liberdade adiada

cravos que o sangue não derramou.

.

 

 

 

                              PAI

.

Aguardas o destino inseguro

sentado na porta da existência

escutando o ruído da estrada

absurda sucata do tempo

como aquele velho nash

verde sonho distância

separado do pessegueiro bravo

pelo odor do óleo e do bolor

aguardas a nossa fogueira de espaços

mas nada posso fazer por ti

amigo dos meus abraços

vou comprar-te umas botas

aquecer o teu fraco coração

agradecer-te a passagem

procurar um adeus até amanhã...

enquanto olhas para mim

apenas posso ser

continuação...

.

 

________MORRER_________

_________________________

.

Tenho um revólver na mão

mas não vou disparar assim tão cedo

havia de matar-me hoje por ser domingo ?

o chumbo abraçaria o telefone

iria procurar o coração

alojar-se num quarto de três estrelas

e adormecer na dúvida prevista.

                        ///////

Por ser domingo dormi até mais tarde

e não houve calor não houve combustão

nas franjas do suicídio combinado

premeditei demais as calorias

fiquei sem alibi choveu lá fora

encostei-te a ti vítima á parede

mas não dei ao gatilho quando queria.

                      ///////

Tenho um revolver na mão

um buraco no peito trespassando

o sonho e a imagem virtual

mas não morri ainda hoje é domingo

está por descobrir se o dia de descanso

é melhor do que outro para morrer à tarde

depois de ler o semanário

e no fim dos jogos de futebol...

.

.

 ~~~~~~~~VINHO~~~~~~~

Não te importes com o cabelo desgrenhado,

Maria Providência,bebe o teu copo

E manda passear o taberneiro

Da rua Francisco Grandela...!

Cose-te pelas paredes na nesga do crepúsculo

Como maçã ainda verde rente à folha,

Chega-te ao balcão com o teu bigode,

Emborca o copo como corpo de igreja

Sem te importares com o marulhar da rua.

Os teus companheiros,debruçados da janela,

Não sabem mais que as palavras censórias

Que tu também vomitas sem consciência.

Amanhã, ou até logo quando a noite cerrar,

Quem sabe se descerão do parapeito

Baixando ao balcão das suas próprias cozinhas

Na escuridão do isolamento,

Matando o vício e a amargura

Que não consegues trancar em casa ?

Os burgueses,esses não te vêm,

Vivem do outro lado do mundo,

Mesmo quando passam por ti

E perguntam mecânicos se estás boa dos ossos...!

Tu estás óptima...! Tão óptima como eles...

Eles,que tu sabes bem,nunca viveram

A dura miséria dos teus bolsos...

Eles,que se banham em àgua limpa...

Eles,que não dão a mão...nem a ti,

Nem aos que riem da janela

A tua figura pictoricamente pura

Quando vais a caminho do colchão com pulgas.

Ri-te também dos corpos da burguesia,

Dos seus restaurantes e casas de saúde,

Dos seus acidentes,do seu colesterol,

Das obesidades perturbadoras

Do metabolismo cerebral,

Do rosbife e do preço da gasolina...!

Ri-te do meio das tuas acácias

Tão amarelas na primavera como sol,

Tão aromáticas como o grená

Do teu copo de vinho tinto...

Bebe,Maria Providência,

Bebe a toda esta forma de vida,

A todo o desconforto da viagem

E manda o taberneiro à merda,logo à saída da tasca...

Senta-te no rebate do passeio público

Ri-te de todo este cenário absurdo

Dos irmãos humanos...!

Ri-te do capital imundo

Que te atira com paladar sublimado

Ao copo do esquecimento

Na margem da sua caridade.

.

 

TAVARES

Lembro-me do Tavares,o taberneiro,

Da patusca figura de barrigudo,

Das mesas de cimento,das cadeiras

De ferro,no fresco da parreirinha,

Do balcão cerimonioso e dum relógio

De pêndulo,com algarismos romanos,

Pesado como as peças de pano,acinzentadas,

E me faziam recordar artilharia e verde

Em Santo António do Cântaro.

Vestia um colete antigo de comerciante

Que bem podia ser de Santa Catarina,

Do qual saía,até ao bolso,

Uma linda corrente de relógio

E tinha o aspecto taciturno

Dum burguês falido.

A parreirinha conservava a mobília

Da moda do principio do século,

Onde senhora bem podia,em férias,

Sorver um cálice de Porto,

Mas era o que restava

Dos grandes armazéns de lã

Comidos pelo tempo

Onde alguns operários da ferrugem

Bebiam uns copos de vinho tinto,

Ao fundo do corredor,

Na sombra da parreirinha.

Até aqui atravessou a vida e ficou só,

Acomodou-se filosoficamente ao fim,

Gastou as palavras e os gestos,

Saturou sons,juizos,consciência,

Muniu-se de conclusões e resolveu partir

À procura da tranquilidade.

Vestiu o fato novo mais antigo,

Engravatou a camisa de preto,

Socorreu-se dum frasco de veneno

Guardado na companhia do bolso esquerdo,

Abriu um guarda chuva contra o sol

E incorporou-se no próprio funeral.

Algumas lágrimas lhe correram da face

Durante o abstrato vazio do desfile,

Mas silencioso,aprumado,rígido,

Seguiu-se religiosamente,

Buscando nos derradeiros passos,

Quem sabe,

As últimas razões mais os pedaços

Do tempo absoluto,hora que ceifa,

Minuto mais minuto,o ar incógnito...

Talvez tenha emborcado o frasco

Já perto do destino

E com ele,atirou à terra,

Quilos desconhecidos de matéria

E reflexões sem peso exacto.

No dia seguinte pela manhã

Foi encontrado à sombra do guarda chuva,

Encostado,hírtico,ao muro de fora

Do cemitério caiado.

 

    __________LINHA__________

.

Calei-me ao telefone quando ouvi

a tua voz de lá dizer sou eu...

aguardei o silêncio aconteceu

não te pedir mais nada

e desligar...

                  lllllll

Pousei o telefone sobre a linha

onde cubro a nudez e o interior

não sem pensar pronunciar

amor...

mas nada ia mudar...

e desliguei.

                  lllllll

À volta a soletrar na escuridão

jorrando luz a lâmpada neon

a tela apagada dos meus olhos

a tua voz...

o som...

                lllllll

Calou-se o telefone

na noite sem palavras

e não deixei de estar aonde estavas

nem onde estavas tu

ficaste só...

.

.

____ ORLEÃS_________

____________________________________

.

Parei em Orleãs para te beijar

mas tu não estavas lá nem tinha cais

por onde procurar

em Orleãs a ânsia de voltar

foi vento que passou e pouco mais

meti uma moeda na ranhura

presumi-me sobre recordações

segurei -te nas mãos e na procura

às portas de Orleãs busca insegura

não consegui escutar mais que ilusões...

                      lllllll

Parei em Orleãs para te olhar

num retrato que tinha na carteira

procurei -te na gare para pintar

um cenário que fosse de maneira

a esperar por ti mas não estiveste

senão em ecos e ondas de absurdo

telefonei dum telefone surdo

apanhei o comboio e prossegui...

                     lllllll

Parei em Orleãs tarde no meio

e não te vi passar foi a cidade

que te deixou fugir do meu país

para então vires comigo e da janela

acenarmos aos campos estendidos

do comboio veloz

fomos perdidos

fomos mercadoria sem bagagem

sem bilhete fizemos a viagem

e ninguém deu por nós...

.

.

________MAUSER_____

___________________________

.

Tenho na minha mão a mauser que me deste

apontada para mim como no dia

em que deixei cair o protector de boca

numa ranhura surda do carrilhão menor

tenho na minha mão o dedo no gatilho

basta virar a arma e no meu peito

acertar sem temor e sem amor

abrir-se-há um buraco imperfeito

a desfazer a carne na sua circunferência

quero que essas flores que eu prometi levar

revertam para mim botões de rosa

brancos como esse sonho que agiganta

a insatisfação

não vou fazer uma revolta para me matar apenas

já nasci nesta pólvora de morte

sopro poeira espinho simples rombo

duma barca menor

custa-me agora adormecer no pó

que anda assentado nas tábuas do porão

agora que encontrei um astrolábio

hei-de dar um tiro em mim próprio

com a arma que me deste ?

.

 

DIA DE FESTA

.

Era dia de festa e tu fugiste mãe

fugiste a festejar não te agarrei

atado ao cais partido que serei

sem ter os teus ouvidos para escutar ?

                     lllllll

Era dia de festa mais além

subindo a serra que correste a pé

chamo por ti não ouves já não é

o tempo do teu tempo me falar.

                     lllllll

Foste fria gelada os teus cabelos

madeixas brancas nuvens de poeira

foram ponto final dessa ladeira

onde passaste a vão rios e mar.

                    lllll

Eras minha teus olhos era vê-los

a tecer-me as palavras mais ungidas

as imagens mais belas desmedidas

do gigante que eu era ao teu olhar.

                   lllllll

Fugiste neste dia nesta festa

e na rua fiquei despido nú

o lastro que me tinha eras tu

e não fiquei mais leve a navegar.

                 lllllll

Fugiste mãe fugiste foi-se embora

esse sorriso franco a alegria

que era peso e alívio do meu dia

e me ia regulando vida fora.

.

MÃE

Tombou-se-te a cabeça por quê mãe

por que quebrou o fio que trazias

mal agarrado ao mundo tu sabias

tal qual como da noite o dia vem

                       lllllll

Por que partiste assim por que fixaste

o futuro depois para além de mim

quis dar-te a minha mão não seguraste

quis dizer-te que não disseste sim.

                      lllllll

Eras aroma sal e erva doce

que tinha o mundo em ti para expiar ?

gostavas de sorrir e de chorar

de te erguer da cadeira e acabou-se.

                    lllllll

Hoje chamo por ti já não responde

a tua nova forma e condição

deixaste-me ficar não sei por onde

à procura de nexo e razão.

.

 

______________________CARTÃO

______________________________

 

Obrigada pelo teu cartão

Manuscrito...

Os teus anos, fazem o que sou.

Sempre que penso em ti

Penso amanhã...

Amanhã ?...

Arruma os livros e cadernos

E deita-te na cama

Que são horas...!

.

 

. 

CADEIRA

.

Certa,certa

É a complexidade da cadeira.

Não tem pó,

Não tem rugas,

Mas arestas,espelhos,

Braços e uma broca.

Como seria a escada

Sem a tua mão

Na minha mão...?

Mesmo assim

É uma escada imensa

Que subimos depressa.

Ia com receio

Do teu receio,

Por que julgava

O que tu não sabias

Mas...

A rapidez surpreendeu-me

E como te portaste tão bem,

Nem um pastel de nata te comprei...

 

 

_______BERENICE_____

______________________

 

Michelle ma dit c’est une etoile

l’etoile de Berenice

ma fille et l’image pure

d’estabilité au ciel

a noite na rua escura

éo principio e fim deste silêncio

que me não deixa dormir

dou passos na gravilha nova

que me soam a mastigar

numa peneira de grão

eu que não tenho telefone à mão

para dizer ao céu

que me segure a estrada

e me diga se Berenice

me pode inscrever na recepção...

a luz sobre a porta principal

é a única velocidade á nossa volta

enquanto não me deixa dormir

a noite longa que se criou

ao acabar a tarde

são três da madrugada

nas margens do charante

le signe de Berenice

m’aporte les choses de bas

comme maladie du matin

je n’ai le moyen d’etre etoile

pour dire adieu

.

---SETE HORAS------

______________________

 

Sete horas nos Remédios cai a noite

sobre os nossos sentidos estão em extase

enormes extensões de tanto querer

pelo escadório longo que há-de vir.

                    lllllll

As luzes da cidade abaixo cheia

de imagens espantadas refletem

a sombra de corpos abraçados

trinta anos depois de ali correr.

                   lllllll

Sete sons imortais assustadores

dissolvem-se pelos montes em redor

eu cinjo-te a cintura meu amor

e escuto as tuas sílabas do céu.

                  lllllll

Revistámos os cumes os buracos

onde lavar a fronte continuámos

com os olhos nos olhos navegando

em horas de maré num mar de vista.

                  lllllll       

No alto dos Remédios na fachada

onde os deuses tem portas sobre pedras

ensaiámos as cenas mais tranquilas

na moldura da côr crepuscular.

                  lllllll

No alto da senhora demos mãos

jurámos ir até ao firmamento,

E tu que não fugiste agora corres

Para onde te vai o pensamento.

                  lllllll

Sete horas nos Remédios batem forte

numa das torres altas e depois

havemos de ficar mais separados

quanto mais um fizermos de nós dois.

.

 

_________________VERDES

.

Verdes cumes

de acádias floridas

sinais do tempo não

dos trilhos dos pinheiros

ou das sombras

onde nos abraçamos

sem chegar e partir

já somos o limite de nós

em cada instante

de corpos enleados

na distância outonal

nem o vento parado

sobre o cume

mexe uma palha

porquê fugir

vendados e rendidos

pela clareira estreita

que precipita tudo

em dias ignorados

em sonhos de segunda

ou desejos inuteis...?

fugir em verdes troncos

de acácias e de cedros

fugir no pensamento

como se fosse um barco

uma estrada sem fim

que curva sempre ali

junto ao moinho velho

ou na sombra dum choupo

duma gasolineira.

 

 

 

________DIAS___________

________________________

.

Em cima dum colchão

entre o calor do quarto

e a penúria dos sonhos

estão dias de amanhã

frágeis como o vapor da água

que sobe do charante

para quebrar o ontem

enlameado nas raízes profundas

da corrente do verão

nas margens deste rio

que não é o mondego

nem o tejo

é certo que não vejo

as fontes e nascentes

mas corre na torrente

á minha frente

a secura dos barcos

e não mais

para lá dos limites

passeiam-se turistas

de mão em mão

transportando revistas

tirando fotografias

ao silêncio dos dias

á noite em turbilhão

e o rio arrasta consigo

a linha telefónica

impossivel abrigo

na distância

para quebrar a ânsia

que nos toca.

 

 

 

28
Abr07

montebuzaco 1

Peter

 

 

_________NEVE___________

_________________________

.

Caiu a neve pela noite inteira

por sobre a ramaria sossegada

silenciosa nuvem de poeira

branco lençol que trouxe a madrugada

                        lllllll

Debruçaram-se os cedros nas veredas

que também elas são só de brancura

sustentando em seu corpo ondas de sedas

remates de algodão na bordadura.

                         lllllll

Correm regatos de água saltitando

de pedra em pedra que parecem ais

um bloco a cair de vez em quando

tudo o resto é silêncio nada mais.

                          lllllll

Em santa Teresa congelou-se a bica

figura dum soldado arma na mão

na gélida escultura identifica

a lusa farda ou de napoleão?

                          llllll

Na cruz alta há um trilho e é manhã

tombam flocos do plumbeo céu

do caramulo à estrela ou à lousã

o mundo é branco unido num só véu.

                         lllllll

Os pilriteiros gemem e sacodem

a invulgar penugem numa aragem

querendo soltar o peso que não podem

aliviar do corpo da paisagem.

                        lllllll

Há telhados escondidos e verdura

que hoje não é senão coisa adiada

todo o verde não passa de leitura

da nossa consciência congelada

.

  

  

______________________TRONCO

__________________________________

.

Está a ruir um tronco

um tronco do buçaco

na estrada sinuosa da ribeira

deixou de correr água

a hospedeira

que anuncia o morrer

deixa tombar folhas amarelecidas

das árvores consumidas

pelo verão

.

nasce  na bruma

o respirar  profundo

precede a tumba

onde se deixa o mundo

rugas que rugas dão

um carvalho que  flor

esquecido e minguado

num estertor

de esplendor

já não fala e se geme

verde casaca inóspito suão

aguarda o que não vem

depois do leme...

.

consome-se em lareira

cama de ocasião

e na memória

como ossos dum monge

ou cepa de videira

talvez vinho da nossa iniciação

numa cave  singela em mosto doce

preso no tempo

dum acenar a mão.

 . 

 

_________MOMENTO

     _______________________

 

.

Água do alfusqueiro é cor da prata

corre pelas nossas veias faz sentido

chora no nosso olhar quase escondido

refresca o nosso ardor que se desata.

                             lllllll

Água que corre e vem fresca de alcoba

limpa todo o rubor que há numa face

coa toda a nudez do nosso enlace

e canta em toda a pedra onde se escova.

                            lllllll

Água vinda do alto desce em beijos

das deusas que nos cerros se desfazem

a carpir o amor que nunca fazem

por que da terra são fatais desejos.

                            lllllll

Assim corre este rio milagroso

em barcos de madeira por fazer

com o porão tão feito de prazer

como o corpo de amar é desejoso.

                           lllllll

Debruçam-se as acácias sobre o espelho

das nossas inquietudes perdulárias,

tanta sombra a forjar figuras várias

tanta cor a tingir-nos de vermelho.

                          lllllll

Se nos cair em cima o predicado

dum sujeito qualquer que somos nós

fiquemos uns minutos ledos sós

a expiar sem dor nosso pecado.

                         lllllll

Que água do alfusqueiro é cor de prata

foge-nos sob os pés correndo à toa

a sugerir o sonho de lisboa

o mar o rio o tejo uma fragata.

 

 

.

___   O TELESCÓPIO HUBBLE

___________________________

.

Lá vai no ar o telescópio Hubble

Huble manuel da silva qualquer coisa

não é bem portugûes é john é ford waine

e vê tudo se diz como se o mundo fosse

um bolo muito grande mais amargo que doce

.

vai no ar e palpita vendo a lua plutão

cinturas de asteróides ferro velho e então

emite um som bocado de cd

que diz permite ver eu não sei bem o quê

mas esse mundo antigo do tempo dos romanos

das guerras púnicas de atenas espartanos

o principio dos sóis azáfamas divínas

os vomitos de enxofre do alto das colinas...

.

era bom e cegou-se o telescópio Hubble!

amaricano como toda a coisa

de pompa e de jornal

Hubble ou ford ou fonda não faz mal

foi concertado à força pelo robot

que subiu no chalenger vejam só

e pô-lo a ver mais lá no vazio

que a lente progressiva do meu tio

.

de resto tudo o que há é gêlo e morte

não há leste nem sul oeste ou norte

somente o telescópio sempre a olhar

para os buracos negros ao luar

e a transmitir em bipes permanentes

expectativas dos nossos ascendentes

.

bom telescópio Hubble velho joe

talvez de oklaoma fall river eu sei lá

vai acabar no espaço quem sabe se entalado

entre ondas de neptuno desertos de titã

tirando fotogramas todo o ano

á matéria que gira numa anã

bem louco telescópio vai voar

quem sabe se até ultrapassar

o sistema nervoso e o solar...

 

 

________________UNIVERSO

.

No céu existem estrelas planetas e cometas

grandes distâncias tremendas explosões

buracos sóis plasma e embriões

Células caldos àcidos provetas.

                      lllllll

Coisas comuns não há se não me engano

nem dúvidas problemas ou lixeiras,

nem há gestos nem rostos nem canseiras

nem viagens de metropolitano.

                     lllllll

O paraíso algures na imensidão

é um sítio irreal e bem profundo

onde os bens comportados deste mundo

passam o tempo a ver televisão.

                     lllllll

Destes locais de aspecto tão diverso

supõe-se haver um rei com um crachat

tão grande como o tempo que será

maior que a sua obra o universo.

                    lllllll

Estrelas planetas e cometas

na órbita real tal rei decerto

mas não parece o firmamento esperto

pois são poucos os livros e as canetas

 

 

______CRIAÇÃO____________

Subitamente,

raiou sobre o sistema o dia

a criação das àguas

irmã de vento e nuvens

pariu casualmente células câmbricas

e avós ilustres

pelas margens dos mangais

inundaram os deltas

a guelra que surgiu

milimetricamente

foi conquistando a poeira

domesticando a lama

crescendo cubicando

as exclamações

como fazem os deuses

nas suas vastidões

as órbitas imensas

perderam meteoros

e a relatividade

impôs cósmicamente

o tempo do degêlo

escondidos

atraz de abetos

de fetos de coniferas

sobre musgo e bactérias

e algas e potássio

tudo o que existiria então

no paraíso

Deus e o Diabo enfim

boquiabertos

cruzam os braços

ante a evolução.

.

.

            FUGA

-------------------------------

.

Quando eu era pequeno e tinha um arco

e o abismo real não existia

debaixo dos plátanos corria

pelo rego foreiro leve barco.

                       lllllll

Uma senhora feita de amarelo

no meu primeiro livro de leitura

escapava da folha e na textura

se dissolvia o manto e o cabelo.

                      lllllll

Assim fugi à escola sexta feira

imaginando letras que sabia

tão fixas na página que iria

ficar colado a elas na cadeira.

                      lllllll

Acomodei certo constrangimento

conjecturando em drama clemência

e minha mãe com toda a paciência

avisada cessou meu fingimento.

                     lllllll

Espanto meu as letras que a senhora

conservava no livro piamente

como balão sairam livremente

pela janela junto à professora.

 

 

 

PÁSCOA

.

É domingo de Páscoa...

no meu tempo de menino do coro

ia-se à missa de manhã

vestia-se uma opa

de saber a doutrina

e de seguida

pequena procissão, lá ia a cruz

com o senhor vigário

o silva o sacristão

e de ordinário

carlos contabilista

uma saca encarnada

para a congrua esperada...

tlim tlim tlim

a campainha

anunciava de porta em porta

-Cristo ressuscitou, aleluia !

até ao fim da tarde

e tudo isto

por duas ou três bôlhas nos sapatos

roídos de cansaço

até à ceia na casa do juiz

um enorme cozido à portuguesa

cujo perfume nos chegava ao nariz

mal se entrava o quintal

todo ele odor

doces como cordeiros sobre a mesa

quase se adormecia

sob o olhar vermelho do prior

indiscutível braço do Senhor...

mas na segunda feira livremente

com quatro ovos num folar de pão

às portas de coimbra toda a gente

cumprir a tradição

já se esquecera judas escariote

o pôncio e os soldados a paixão

retomava-se a vida num fartote

de ovos cozidos na Ressureição...

é domingo de Páscoa pouco tem

p’ra lá do telejornal

jerusalém

vive um calvário japonês

de canoons nikons

ou handycam’s sonny

pela via dolorosa dum cristo

a encenar o drama da paixão

que havemos de espreitar na televisão

um soldado romano

copiado dum filme americano

uma coroa de espinhos e após

muitos crucificados actuais

no bloco das internacionais

não se vêem lilazes rosmaninho

mas um milhão de pessoas foi à praia

ao sul de espanha

trinta morreram em noventa acidentes

braga foi invadida por espanhóis

que vão fazer um jeito na estatística

à tarde não há juiz da igreja

e nada que recorde antigamente

pouco que seja

vão-se comprar uns ovos prateados

e ver uns coelhinhos pendurados

numas argolas que há no continente.

e seguimos prà casa engaiolada

onde moramos hoje hipotecada

mas que dizem ser lar e ser d’agente...

.

 

______________NOVA YORK

 

_______________________

Penso viver em Nova York á margem

dos semáforos verdes no deserto

de transportar bilhetes na bagagem

cuja sala não tem programa certo.

                     lllllll

Misturar este corpo e estes braços

nos montes de sucata em avenidas

onde as pedras dão folhas e os passos

são desejos são ânsias são medidas.

                    lllllll

Calar ouvir no silêncio da rua

como vómito quente dum vulcão

o tremendo ruído que insinua

cada membro fiel da multidão.

                   lllllll

Completar o assombro da paisagem

na vastidão da órbita tão perto

que a urbe se desfaz como miragem

e a sala tem programa e tem concerto.

                  lllllll

Ajoelhar reconhecer esquecer

lavrar definitiva devoção

ao mito da memória de não ver

o que é ter ou não ter dolares na mão.

 

 

 

_________VIAGEM___________

-------------------------------------------

.

Na encosta noroeste da serra do buçaco

os cedros apinhavam-se nas pregas do sopé

colados ao estradão de macadame

as pedras deslizavam pelo declive

cobrindo-de de musgo nas barrocas

escondidas no tempo castanho

do citroen preto a galgar obstáculos

de natureza circundante

havia então pelo ar

o cheiro verde e gosto dos limões

a cadência era certa era pequeno o mundo

onde o brasil de meu avô

foi o limite das coisas conhecidas

a estrada morreu no alcatrão

enquanto as minhas calças compridas

se transferiram do egoismo

após todo o jejum original

o automóvel de cidade em cidade

incentivou a ânsia o exterior

o chão sedimentou sozinho

agora nascem silêncios em redor

espaços do hoje de ontem e a manhã

de nevoeiro a desenhar fantasmas

nos cedros do noroeste cresceram

como deuses e tapam as encostas

na busca persistente da luz

a medida do seu tempo detem-nos

no corpo e habitat das barrocas

onde o estradão abandonado

morre descalço.

 

 

 

________REGRESSO_____

___________________________

Quando vim de Paris trouxe comigo

um coração de Eiffel para te oferecer

tu saltas e sorris e que castigo

é dar-te o coração e não te ter .

                      lllllll

Foi nas margens do Sena que comprei

com moedas de francos teu olhar

se as àguas a correr viram não sei

sei lá se apenas eu te vi passar !

                     lllllll

Recolhi cá por dentro essa miragem

nos mais íntimos bolsos do meu ser

no bote dum pintor mudei de margem

até que o sol se pôs no entardecer.

                    lllllll

Traduzi tudo como vês num só

amuleto de azul e de interior

talvez p’ra além dos dois venha a ser pó

e depois de ser pó a ser flôr.

                   lllllll

Agora um beijo é bom tarde serena

p’ra te envolver nos braços e ficar

a consumir as horas como ordena

a vontade que tenho de tu dar.

                   lllllll

E de espalhar os teus cabelos leves

sobre o meu peito a fios de pincel

saborear o tempo pois são breves

os momentos de amor ternura e mel

                  lllllll

Quando vim de Paris trouxe o desejo

de te abraçar e dar a Torre Eifel

tudo o que foi foi pouco mais que um beijo

à noite recordado num papel.

.

.

::::::::CLERMONT:::::.

.

São verdes muito verdes

os montes de Clermont

são restos de vulcões

e da fita esticada

do preto da auto estrada

onde correm pneus da michelin

são verdes muitos verdes

os campos de Clermont

e por serem assim dizem é bom

desafiar a tecnologia

a fabricar arames de latão

nesta mitologia

de nova erupção

negras naves da sé

penduradas no céu

abrindo o apetite dum café

na praça da mairie

cheiram a terra a parto doloroso

convite precioso

para observar na bolsa

um Toulouse Lautrec...

à saída um senhor plastificado

envolvido em pneus faz-nos sinal

encantador e lesto bien jolie

ora tomba daqui ora dali

abrindo uma bochecha de content

-não não vão por aí por aí vão mal

há muitas obras em Clermont Ferrand...

.

 

_______BÔKALÔ ___________

-------------------------------------------

.

Há mil janelas no céu de Bôkalô

na floresta plena primavera

liláses no jardim de roxo claro

duas cadeiras vagas sobre a relva.

                       lllllll

Verde em redor nos prados estendidos

onde as fendas da estrada fazem cama

uma porta p’ra rua sempre aberta

o calor duma noite procurada.

                      lllllll

No interior recordações sem fim

horas ganhas tranquilas acalmia

e um pequeno almoço feito de ovos

e lírios espalhados no caminho.

                     lllllll

Um janelão transporta a floresta

à nossa intimidade elaborada

desprende por momentos o redor

p’ra nos deixar fugir livres na manhã.

                    lllllll

Deitados a sonhar a ter presente

a imagem ausente desejada

como se as àrvores verdes nos beijassem

quando se vestem de claridade.

                   lllllll

Voltei a Bôkalô p’ra nunca mais

haver de lá voltar com a certeza

de desejar fazê-lo e marcar quarto

um dia à tarde pelo telefone.

.

 

_______DISTÂNCIA_________

__________________________

 

Dista o que dista

d’outras civilizações...

ninguém sabe

onde fica o comando d’outra nave

se cada estrela é mundo

ou para lá de cada uma

das móveis ou imoveis

haverá astros e astros e astros

outros formatos e civilizações

outras vidas outras fornicações

sonhos que o homem põe

e deus esconde

para não nos mostrar por quanto

e até onde

controla o seu saber...

dista o que dista de sóis

luas galáxias

ou doutras vias lácteas

e de mais quê

de tudo o que se vê e se não vê

de tudo o que se crê...

...capacidade de multiplicar

volume de pensar...

para tudo acabar

num buraco tão negro

como um buraco negro

.

 

______GALÁXIA_________

___________________________

.

Não há dias serenos como eram

de esperar nos tempos que decorrem

há sóis a explodir dias morenos

e distâncias enormes nos consomem...

dois mil e cem espaço sete sete

código amante luz noventa e três

a nave mãe navega no distante

mar de cervantes já lá vai um mês

autonomia à vista meios próprios

problemas nas comunicações

ano e meio de rumo kapa Kapa

comboio oculto para lá de radiações

quinze dias de luz jornal de bordo

terra é braseiro trópico incandesceu

aumenta tempestade e eu não sei

o que te aconteceu ...

são notícias antigas via urano

retransmissão giotto e prometeu...

relembro a côr castanha dos teus olhos

nas ameias da cerca em Santarém

as flores amarelas do vestido

as lágrimas de adeus que foi também

o contrato entre nós

no tgv do sul sonho veloz...

navegação frontal fuga aos pulsares

Kapa Kapa chamando português...

galáxia de andrómeda quinta feira

código amante...luz noventa e três

Allô...Allô...Allô

.

.

________TANGO_________

_______________________

.

Quando eu morrer

e for no autopulman

a caminho do céu

quero ver os teus olhos

estrelas cintilantes

na berma da viagem

dirás que vês passar

esse que foi rapaz

da camisola azul

com duas riscas brancas

e que cingiu o teu vestido verde

no baile de ano novo

e não te deu um beijo

pela vergonha

de não teres respondido

ao seu abraço

a caminho do céu

ao longo da paisagem

quero encontrar teus dedos

quero dançar contigo

um tango que se arraste

pelas veias do percurso

e sentir o teu colo numa brasa

ao som do mavioso saxofone,

no baile de ano novo

em mil novecentos

e sessenta e quatro.

.

 

_______________LISBOA

.

Lisboa, onze da noite

na bruma dos receios

no cais do nosso olhar

espero pela distância

e pelo atar dos laços

que o dia separou

nas ondas dos teus seios.

Lisboa está vestida

de ponte de lanternas

de noivado e à espera

do sítio de encontrar

mãos dadas a sorrir

no silêncio envolvente

é noite, é meia noite

é meia noite clara

na noite de Lisboa

vestida com a cor

do teu vestido preto

e as luzes que se espalham

beijam como luar

o rio prateado

de cais em cais

onde se amarra o sonho

e se pode ancorar.

 .

 

 

_____________MADRID

.

É manhã é agosto e é Madrid

abafada em calor pela gran via

deserto duma noite adiantada

na frescura dos bares e das esplanadas

todo o corpo cedeu a essa sêde

ceifada num quiosque num gelado

que introduziu a noite e viajou

para cá da planície castelhana

peguei no telefone da cabine

às oito em ponto

para lembrar que a loucura me segue

além da raia em Paris Santiago

Lisboa Amesterdão ou em Madrid

ouvi o fio o outro lado lá

lá onde fica o verde das colinas

e as perguntas esperadas sem resposta

como quem pergunta por vós

mortos de guadarrama silenciados

no fusil em percurso numa ideia

uma revolta em vida encravada na vida

de todos os que mataram

às oito horas toca o telefone em ponto

e foi nem mais nem menos o toque

duma manhã de agosto por aqui

numa cabine pública em Madrid.

 

 

_______SILÊNCIO___________

___________________________

São muitos os silêncios

que nascem das palavras

ainda por dizer

e para trás ficaram

lilazes de Bokalô

os timpanos do tempo

que ferem as ausências

lapsos e ruídos

das silabas não ditas

dia a dia

são ásperos violentos os barulhos

que se procuram esquecer

na sombra doutros ventos

e as mãos que se fecharam

foram criando noutro lado

os vícios e as ânsias

não há cigarros na praça da república

mas há sempre uma praça em qualquer lado

da republica

para acender um cigarro

ou comprar um jornal

ou lembrar um passado

ou sentar-se num banco

da vida duma praça

no fumo do percurso recordando

lilazes de Bokalô

na hora certa da ceifa

na duvida das palavras e silêncios

que nunca se disseram.

 

 

 

 

 

.
.

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