MONTEBUZACO 3
________JANEIRO_______
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Segurei tuas mãos e foram leves
alguns minutos mais da noite vinda
segurei tuas mãos instantes breves
que se foram e penso ter ainda.
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Beijei-te as faces na carícia o sonho
do que não pode ser por ser somente
fútil sopro de vento aonde ponho
uns pedaços que fazem o presente.
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Entrelaçamos dedos na memória
do pouco que já foi por nós vivido
espalhámos semente na ilusória
estrada de nós dois de um só sentido.
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Imaginámos coisas ó irreal
aventura que tanto nos seduz
se o inventar é coisa trivial
não inventemos medo mas sim luz.
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Por tortuosas vias somos dois
a clamar da vida doação
dava-te tudo se pudesse pois
metade de mim próprio é transição.
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Segurei-te nas maõs pedi-te um beijo
na face de mulher não é pecado
é muito mais pecar ter o desejo
solto numa prisão amordaçado.
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Caiu a noite após parcos minutos
há sombras sobre nós a qualquer hora
faltam-te a ti meus braços devolutos
falta-me a mim o sol que me apavora.
.__________MOINHO DE SULA
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Na encosta de Massena
a estrada sobe á curvas
e nasce a pica folha
na humidade do inverno
que é feito de enxurradas
e de recordações
granadeiros azuis estão fuzilados
nas pedras dos barrancos
deles emergem cedros com raízes
cravadas nos seus ossos
em vales profundos grossos
e encharcados de águas.
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Sobe por aí acima
nesse corpo de inertes e de sóis
o incógnito ermitão
em diária oração
enquanto a chuva cai
nas carroças dos soldados
de súbito parados
e colados ao chão.
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São verde escuro os tons da natureza
sobem descem procuram estabelecer
uma paragem uma fotografia
de baioneta em riste não havia
outra forma de ser nem de fugir
do cerro pedregoso
inóspito nervoso e para a frente
montanha do presente
ao começar o dia
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_____POENTE______
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Nesta água que salta
pedra em pedra
roçando nos esqueletos
e nos ribeiros leves
há a alma dos frades
para quem credita ...
quem acredita crê
pois assim seja...
abre-se sobre o sul
um simples janelo
por onde cada alma
enjaulada de antigo
faz preces esquecidas
no seguro aconchego
do arvoredo
dentro do muro
há musgo , crença e medo
que o tempo semeou.
no horizonte
os campos do mondego
do águeda, do vouga
lavrados pela névoa
do sol do entardecer
vão morrer
numa bola de fogo
envolta em fumo
que á nossa frente
tomba quase a prumo
na sombra e resto
do escurecer.
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______MATA___________
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De humidade é o sítio
e o frio que aqui nasce
rasga os ossos
nesta chuva que teima
sobre a encosta da serra
nas horas de ninguém
a caldeira do humus
o nevoeiro serrado
dos frades que não rezam
como foi tradição
esconde o céu
e pingos no telhado
acordam na capela
o oratório branco
por onde avança a bruma
o redodendro escondeu-se
na circunstância
o som macio esconde
chuva miuda
no silêncio que vem de fora
só as bátegas fazem
o curso do ribeiro
cantar de pedra em pedra
no meio do próprio inverno
e tarde vai e tarde vai lavada
lavada e espargida
na floresta verde
verde escura macia
que se recorta ou não
á nossa frente.
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_______________NOITE
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A tarde nas acácias foi a noite
negra .já sei que fiquei cego
de palavras de imagens e de sonhos
que ribonbavam no ar e nos pinheiros
no eco da trovoada
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Ficou tudo silêncio amargo
pelo cume das viagens
as mãos que amaciavam
arrefeceram como polos
e negaram os sons do abandono
++++
Que foi que apeteceu aos deuses
para beber as gôtas de àgua
da beira dos caminhos
dos seios e dos olhos
dos lábios que queimavam ?
++++
Quantas vezes subiu o elevador
da imprevisível rota
quantas vezes olhando o céu
se contornou a terra de ninguém
sem o norte do leme ?
++++
No cais absurdo
ancorou medo e a bagagem
dessa navegação futil
engolida pelo mar que coisa inutil
desaparecer na bruma
e desfazer-se em espuma...
___ENTÃO___
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Gostava de te ver passar
no ford a acenar
quase de pé
pouco depois ao telefone
sou eu...
e a nossa experiência resumia
o quanto havia
na mesa do café....
++++
Mas quanta ansiedade se bebia
numa bica tirada nas palavras
avidamente ditas
pelo olhar...
e o tempo parava alguns minutos
para nos deixar escutar....
++++
As lágrimas vieram como chuva
que tombou com a sonoridade
do silêncio entre nós
fechado no conflito subjacente
por entre toda a gente
do após...
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_________ORAÇÃO__________________
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Haverá alma dos frades nas nascentes que brotam
fazem ribeiros breves assobiam
entre as árvores e sombras
e chilrear dos pássaros calados ?
++++
Haverá deus por aí numa janela aberta
haverá mesmo deus
em cada sul onde vagueia a lua
no rijo das encostas escarpadas
que seguram raízes ?
++++
Estará deus nas raízes e campos
do mondego do águeda do vouga
lavrados do horizonte
desde a aurora
ao sol do entardecer ?
++++
Ou será deus ali bola de fogo
que tomba a nossa frente quase a prumo
numa orgia de inferno
sobre as ondas do mar ?
++++
E haverá deus no pó que destes frades
ficou pelo monte
em capelas perdidas ?
ó alma humana talvez hajam centelhas
bocadinhos dum deus
á nossa volta
em cada um de nós
velocidade
do horizonte em frente...
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____OUVIR____________
Eu gosto de te ouvir a contar histórias
quando te despes nua como flor
a contar-me da vida, obrigatórias
questões das tuas preces e amores
++++
Voltar aos vinte anos é loucura
direi que não fazia essa tenção,
só se me acompanhasse, com ternura
calor da tua mão, na minha mão.
++++
E um sonho comum, sonho e abrigo
das nossas transparências consumidas,
onde pudesse rir, rindo contigo
e pudesse beijar-te horas seguidas.
++++
E ter esses teus braços como vento,
pendurados em mim, sofreguidão
de cingir-te a cintura no momento
de fazer consumir nossa paixão.
++++
Depois saltar, saltar pela cidade
com pedaços dos dois côr de cereja
abraçar-te na rua, liberdade
de quem se quer e ama e se deseja
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Amaciar também os teus cabelos
desfia-los por mim ,que me apetece
sentir o teu olhar, teu corpo e tê-los
colados ao meu corpo, que anoitece.
++++
Gosto de ouvir a tua voz, pedaços
dentro de ti, da tua condição,
aromas que se espalham pelos espaços
como se fossem mundo em expansão.
