MONTE BUZACO
_____MONTE BUZACO_______
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Monte Buzaco quando nasce a lua
cheia com os caprichos dos teus sonhos
há sombras e penumbras nos medronhos
fantasmas que o teu ventre perpétua.
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No dorso do teu verde a escuridão
solta-se em raios pelo firmamento
tudo como se fôra um só momento
acima da folhagem do teu chão.
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Caminhos torneados de arvoredos
e versos burilados de Bernarda
são a intimidade que retarda
o lento anoitecer dos teus segredos.
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Vento que sopra aragem que inflama
cedros e pilriteiros de viagem
onde se sente a alma da paisagem
e apetece dormir na tua cama.
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Com séculos de verde teu vestido
foi cortado no húmus rente ao chão
por monges e soldados foi tecido
aos quais a natureza deu a mão.
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Monte Buzaco se o luar demora
numa salva de prata nos teus cumes
sobem das fontes águas de ciúmes
dos teus ribeiros um cantar que chora.
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__OLHOS NOS OLHOS___
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Deixei os olhos nos olhos que trazias
com o brilho da côr que me fazias,
a lembrar uma flor viva, escarlate ,
alva e macia ,a tua têz porfia
em sombras d’outra luz ,d’outra magia,
sonho de amor que em décadas se esbate.
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É curto o dia, o sol põe-se depressa
no horizonte além, de rosa quente,
e no entanto,
passaram sobre nós coisas esquecidas,
muito suão soprou nas nossas vidas,
feitiços do luar, cegueira ausente...
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Esperar o quê, por quê
se tudo se transforma neste mundo irreal ?
o amanhã talvez, já não importa
adivinhar, quando o passado é porta
que se fechou sem nada recordar.
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Se a aurora ainda nasce todos os dias,
por quê adormecer em tantos ais
fugindo do que chama ?
o coração que trazes, e não ama,
é como pôr de sol, que faz a cama
sobre um mar extraído dos seus sais.
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Gémeos são os pecados,
Igual a inquietação que nos sufoca,
Irreverente a angústia que nos toca,
Ocultanto a vaidade dos desejos...
Mas... nem bastava ser grande feiticeiro
P’ra imaginar o mundo num tinteiro
Reescrevê-lo a tinta dos teus beijos.
____SEQUÓIAS_______
Da Califórnia à curva da ribeira
velhas sequóias largas como abraços
sentinelas da estrada e dos espaços
bebendo o humus duma serra inteira
sombras em declive que maneira
de acompanhar os passos nos carreiros
de proteger a voz dos caminheiros
nas oratórias vãs por que se vive
erguendo ao sol perguntas e fazendo
na dança intermitente da folhagem
o berço a cama brancura dum lençol
nas grandes asas da tórrida estiagem.
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São velhas as sequóias , peregrino
alguém que vem pela sombra e pela frescura
por um silêncio resto de clausura
pela solidão dos tempos
pela gota das nascentes
e pelos raios de luz que o teto filtra
em multiplas opalas de verdura
são nuas as raízes esventradas
nas nervuras da idade
do chão ao alto corridas numa seiva
que escreve a história como minarete
em circunferências largas cujaorigem
agente reconhece sem bilhete.
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__COMO TE QUERIA__
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quando o sol nasce,
amar o acetinado dos teus lábios,
perder-me na marginalidade
do teu corpo
a anos luz da vidraça da porta
das ameias deste castelo !
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Como te queria envolvida
em tule diamantino
na cegueira dos dedos
na mistura da face
no silêncio das palavras não ditas
a milésimos de segundos
do rio dos teus olhos
onde me correm águas breves
em barcaças de sonho fútil...!
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Como me ansiava apetecer-te
fugir, ganhar, perder-te
nesta rua de imagens
donde me partem sonhos e viagens,
ribeira de caniços e vazios
equívocos que descem estes rios
sonho irreal, pensar que não há margens.
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_NA ESTRADA DE PARIS___
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Na estrada de Paris, há florestas,
pendem sonhos dos ramos, são assim
verdes e amarelas e incertas
as imagens que voam sobre mim
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É doce pela manhã, a planura,
frescas gôtas de orvalho a destilar,
renascem dos destroços e da escura
tensão da noite, sombra a sussurrar.
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Há pinheirais na estrada a quanto avista
a nossa evolução, óptica pura,
bate de preto as asas um solista,
um corvo a solfejar toda a moldura.
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Restos de grão nos campos cerceados
pela lâmina de corte e do vazio,
escondem os ecos , gritos abafados
vozes das margens dum estranho rio.
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Esperam as águas nos vasos lagunares ,
dão forma a patos que se banham cêdo
fazendo do silêncio a alma dos lugares
e dos lugares um sítio de segrêdo.
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Há crepúsculos na estrada de Paris,
nas florestas abrem madrugadas,
há vómitos e raiva e ser feliz
nas vidas duma morte programada.
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Nos troncos perfilados há miragens
incógnitas razões, gerúndias idas
na estrada de Paris passam viagens
viajantes de inúmeras partidas.
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_ CEDRO DO BUSSACO__
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É verde o berço verde que te enlaça
ó cedro do Bussaco !
dos Açores te veio, o verde de barcaça
e verde das flores.
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De Espanha, de Castela, de Garcia,
te veio Ançã ,
cordame que o cinzel bateu, e havia
o verde da manhã.
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Veleiros d’outros mares e oceanos,
guardam lusos perfis,
gigantes e heróis, feitos, enganos,
da África, da India , dos Brasis.
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Mais verde se tornou teu verde berço,
plantado em cenóbio, em oração,
é verde e céu
aurora e promontório,
o verde aqui nascido, neste chão.
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Sobe-te à seiva cedro, essa verdura
ondulada na cor de frescos ramos,
sobe-te à seiva a fúria da procura
do caminho seguinte, onde amaramos.
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O verde aqui pintado, é o teu verde
ó cedro do Bussaco !Dos Açores
te veio o verde mar, verde barcaça,
e verde dos amores..
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___________VERDE__________
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Quando nasce o teu verde na paisagem
e a razão de sentir me faz favores,
surgem leitos de afecto em toda a margem
do breve rio dos nossos interiores.
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Àrvores que estendem braços, natureza
embriagada de sons, solenidades,
esmagadas pelo tempo e pela certeza
de ambíguos vendavais e tempestades.
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Abana o leme, o lenho, à noite escura,
sombras de outros gigantes, bojadores,
bátegas de água nas ânsias da postura
são mares de mêdos e perigos tentadores.
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Mar verdejante de troncos natalícios,
no salto dos riachos, onde um beijo
foi tudo o que valeu, foram princípios
da nossa espera adulta pelo desejo.
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___TRANÇA______
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De Amura me nasceram os olhares
dos teus olhos morenos e a trança
a cruzar sons na voz da nossa dança
larga e comprida, fios de luares
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De Amura me nasceu teu corpo e ode
a pele macia, o sopro, o chamamento
dos teus braços, abraço que sacode
o beijo dos teus seios, um tormento.
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Loucos anos do barro, apoteose
do indomável sonho e da procura
do tempo que não tem metamorfose
vontade que não tem ‘inda fractura
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De Amura me nasceu, das sobrepostas
pedras da guarnição, a incerteza
do pensamento ateu e as apostas
na seiva que nos trouxe à natureza.
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Seiva que perfumou os teus cabelos
tombando leves, doces pelo teu peito
regatos onde a água de tecê-los
afaga a mó de imagens no meu leito.
_____NOITE_________
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O barco avança sempre
em mar de sombraslâminas afiadas rumo ao céu
pela escuridão da noite presentida
no múrmúrio das águas
correndo livres soltas pelo vale.
é tudo presentido
não se mexem as folhas
nem a luz se adivinha pelo buraco
das copas recortadas
só uma estrela fria inóspita
algo de ausente
espreita fora dos muros...
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seus limites escondem
a memória e os troncos as ravinas
a imaginação e um mosteiro
antigo e misterioso
são deuses e demónios
temores e medos
que se ouvem no silêncio
da alma dos loureiros ...
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o aroma inebria
apalpa-se á mão cheia
como perfume no gineceu da flor
no gargalhar de grou
no abismo dum carreiro
na luz que se procura e se não vê....
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leito das assombrações...
uma vereda escura
um cedro gigantesco
uma torre sineira
uma ermida vazia
uma senhora do leite de madeira...
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____ OUTONO________
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Foram-se as noites de calor
e sopram os ventos outonais,
arrastando as folhas dos plátanos,
por palavras de verão
insinua-se o ano levemente
para se escapar nos dedos da memória.
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Foram as tardes um soldado inglês
vermelho como lacre
as ferrugentas páginas da história
vendidas num almoço pela importância
dum general medalhas na distância
ou nas saias xadrez dum escocês.
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Ecoaram pelos montes tiros sêcos
e nos regatos de àgua se calou
cada raio de sol oiro e castanho
casaca dos ouriços cresce agora
numa folha que cai que toca e chora
nas areias do chão que se apagou.
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Livres como as tileiras
os sonhos do estio são oráculos
os deuses encerraram
a feira que se armou e no terreiro
o último dos beijos do primeiro
e tudo terminou
fechado e prometido
no enorme bornal do mundo inteiro.
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_ALFUSQUEIRO____
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Descem as àguas, mês de Junho,
descem de pedra em pedra
cantando o silêncio
bebendo as vertentes
desses montes altos
que escondem Alcôba.
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Descem as águas ,mês de Junho
descem parecem serpente
torneando em vão
os corpos dos seixos
que afogam no fundo
desejos de verão.
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Grita o Alfusqueiro, mês de Junho
grita, transporta no ventre
sonhos e viagens,
recados que a serra
transmite p’ró mar
roçando nas margens.
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Corre o Alfusqueiro, água limpa
e pura, nas voltas dos montes
da manhã segura,
corre, salta e brinca
na réstea doirada
da ponte e da estrada.
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Na restea doirada, na curva
ccoitada, se mexe a semente,
se agita o celeiro,
na pedra que é tempo ,virtual oleiro
moldador das águas
do rio Alfusqueiro.
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._____LUGAR_______
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A serra faz-se em pregas sinuosas
salta-lhe o sangue de penedo em penedo
perante o declive surdo
tumulto dos ribeiros
dos pinheiros dos tojos,
dos cedros que se aninham
sobre o tapete de húmus
e pés de azevinheiro...
a minha busca é a busca da paisagem
da alma que cresceu daquela terra
terra inclinada abrupta
passos curtos miudos até amedrontados
trinta anos atrás pelo musgo
o musgo esverdeado dum olhar
sempre castanho , incógnito e interrogativo
sobre a razão da selva
a elevar-se dos troncos,
memórias que são virgens
esquecimentos, penumbras,
mundos maravilhosos e distantes
e sombras de soldados
murmurando na sede
leves rumores de vida...
o precipicio ecoa regurgita
como se uivassem as mesmas alcateias
sobre os mesmos teimosos caminhantes
se diluisse a água rumo aos rios
que não voltam atrás
ao reencontro vazio das nascentes....
sao sílabas inertes esquecidas
que fazem as palavras procuradas
no pó dum berço até num ai de mãe
num abandono atávico longinquo
indecifravel cá dentro de nós.
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____MONTEMURO_____
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Na serra de montemuro há uma imagem,
não é nossa senhora nem tão pouco
o que a imediata lógica produz
indefinida há construção e um louco
a soprar-lhe p’ra dentro muita luz.
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Há uma casa grande cor de rosa,
sugestão de conforto no deserto
da distância das leiras esverdeadas,
deambulando o sonho sempre incerto
escorre das paredes desmaiadas.
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Nos picos e nos vales percorre o frio
desoladora estrada secos vão
os olhares e murmúrios do presente,
farrapos só,vazio e compaixão
de tudo o que ruiu precocemente.
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Na serra de montemuro há uma imagem,
e água de nascente natural
se me limpar a mágoa é lá que vou,
se me lavar a face de jornal
e me tirar a dor que me ficou.
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_____VIA SACRA______
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Desci os degraus toscos do sepulcro,
debruçei-me à varanda de pilatos,
e vi ao longe o mar, ou o que era dele,
imagem, onda, sal, nau de insensatos.
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Em toda a linha o céu ardeu no fogo
que o sol ali plantou quando partiu
deixando à bruma solta os astros novos
noite que a luz dos olhos definiu.~
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Corre no oceano uma réstea de prata,
brilhando numa onda feiticeira,
um pedaço que o sol deixou ficar
por empréstimo à lua, a noite inteira.
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Ameno e sensual como namoro,
este filete junto ao firmamento
está mais perto do todo que ignoro
quanto mais me afadigo em pensamento.
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No musgo da calçada apronto passos,
quase tão leves como o algodão,
ficam por lá do ser muitos engaços
poeiras mastigadas neste chão.
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É escuro na floresta, findo o dia
esvaziou-se o silêncio a quase nada,
recortam-se dos cedros seculares
bilros de copas negras assombradas.
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Desci a via sacra, vim do ermo
do verde entardecer, farto de mim
pois não me mostrei dócil, nem fui crente
nem percebi sequer a coisa assim.
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__NA ENTRADA DO CÉU__
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Na entrada do céu quero encontrar-te um dia,
na porta mais a sul na luz que me amacia
o fresco teu olhar na pele da tua mão
quero encontrar a chave do regresso
poder gozar daquilo que te peço
ao que agora respondes, rindo, não.
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Na porta mais a sul, há cor e na paragem
desembarcam os crentes da viagem,
ãs almas entrapadas em jejum,
e é do lado de fora que se passa
toda a coisa do amor toda a trapaça,
enquanto os santos entram um a um.
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Mora o pecado, a dor e na devassidão
da lixeira dos homens o perdão,
reacende a vontade de viver
e de voltar no primeiro autocarro,
fumar uma beata de cigarro,
desembarcar na terra e renascer.
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Na entrada do céu, cintura mais externa
vou esperar por ti, um trapo, uma lanterna,
toda a esperança terrena do meu lado,
não posso imaginar que num momento,
que fosse apenas simples pensamento ,
não tenhas cometido um só pecado !
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Vou esperar por ti, vou agarrar-te a mão
trazer de volta à humana servidão,
o sonho que me atrai, e com calor
beijar teus lábios, ressuscitar, viver
o tempo de nós dois, que possa ter
na segunda existência um novo amor.
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____DESASTRE_______
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Vivemos a fugir e no abismo
que sempre ladeou a nossa estrada,
caímos no vazio imponderável,
jorrando sangue ardendo no delírio
dos vasos interiores
a matéria que finge a nossa estátua
tombou sem rede finou-se,
em torrentes de pranto e vagueia
pelos densos nevoeiros das manhãs,
fantasma de existências.
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Esquecemos as horas, os horários
dos bifes matinais e mal passados,
batatas fritas, um ovo a cavalo,
onze e meia, não mais ó minha mãe !
na orla duma vida, quase à margem
no sulco destes pés e destes sonhos,
coisas comuns coisas de ocasião
na drenagem de sons e de coragem
de às vezes gritar alto e dizer não.
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Fugimos do abismo dentro dele
procurámos às vezes simetria,
esgravatamos o dorso na agonia
cingido o corpo ao fio dos botões,
não temos paraquedas nem a morte
nos acena com mundos doutra sorte
que não somos nobreza mas plebeus
aqui, onde nos vemos somos pouco
a bagagem é leve o corpo é oco
nada nos avaliza se houver deus
quando à chamada a gente responder
que nada somos, além de bons ateus...
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____POENTE_______
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Nesta água que salta
que vai de pedra em pedra
roçando nos esqueletos
e nos caminhos breves
vive a alma dos frades
que há muito abandonaram
o espirito do sítio....
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abre-se ao sul um tosco
um simples janelo
ruinas dum oráculo
de velhas divindades
em jaulas de silêncio
de preces esquecidas
no seguro aconchego
do arvoredo dentro.
seguro espreita o muro
olhar acima do postigo
alçado sobre o catre
um pavimento grosso
de pedra lisa e gasta
desfaz-se em humidade
numa capa castanha
há musgo e o mistério
do tempo e do silêncio.
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no horizonte ao longe
os campos do mondego
do águeda, do vouga
lavrados pela névoa
da violência calma
irão submergir
na tarde duma tarde
doutra tarde qualquer.
