montebuzaco 1
_________NEVE___________
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Caiu a neve pela noite inteira
por sobre a ramaria sossegada
silenciosa nuvem de poeira
branco lençol que trouxe a madrugada
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Debruçaram-se os cedros nas veredas
que também elas são só de brancura
sustentando em seu corpo ondas de sedas
remates de algodão na bordadura.
lllllll
Correm regatos de água saltitando
de pedra em pedra que parecem ais
um bloco a cair de vez em quando
tudo o resto é silêncio nada mais.
lllllll
Em santa Teresa congelou-se a bica
figura dum soldado arma na mão
na gélida escultura identifica
a lusa farda ou de napoleão?
llllll
Na cruz alta há um trilho e é manhã
tombam flocos do plumbeo céu
do caramulo à estrela ou à lousã
o mundo é branco unido num só véu.
lllllll
Os pilriteiros gemem e sacodem
a invulgar penugem numa aragem
querendo soltar o peso que não podem
aliviar do corpo da paisagem.
lllllll
Há telhados escondidos e verdura
que hoje não é senão coisa adiada
todo o verde não passa de leitura
da nossa consciência congelada
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______________________TRONCO
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Está a ruir um tronco
um tronco do buçaco
na estrada sinuosa da ribeira
deixou de correr água
a hospedeira
que anuncia o morrer
deixa tombar folhas amarelecidas
das árvores consumidas
pelo verão
.
nasce na bruma
o respirar profundo
precede a tumba
onde se deixa o mundo
rugas que rugas dão
um carvalho que flor
esquecido e minguado
num estertor
de esplendor
já não fala e se geme
verde casaca inóspito suão
aguarda o que não vem
depois do leme...
.
consome-se em lareira
cama de ocasião
e na memória
como ossos dum monge
ou cepa de videira
talvez vinho da nossa iniciação
numa cave singela em mosto doce
preso no tempo
dum acenar a mão.
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_________MOMENTO
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Água do alfusqueiro é cor da prata
corre pelas nossas veias faz sentido
chora no nosso olhar quase escondido
refresca o nosso ardor que se desata.
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Água que corre e vem fresca de alcoba
limpa todo o rubor que há numa face
coa toda a nudez do nosso enlace
e canta em toda a pedra onde se escova.
lllllll
Água vinda do alto desce em beijos
das deusas que nos cerros se desfazem
a carpir o amor que nunca fazem
por que da terra são fatais desejos.
lllllll
Assim corre este rio milagroso
em barcos de madeira por fazer
com o porão tão feito de prazer
como o corpo de amar é desejoso.
lllllll
Debruçam-se as acácias sobre o espelho
das nossas inquietudes perdulárias,
tanta sombra a forjar figuras várias
tanta cor a tingir-nos de vermelho.
lllllll
Se nos cair em cima o predicado
dum sujeito qualquer que somos nós
fiquemos uns minutos ledos sós
a expiar sem dor nosso pecado.
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Que água do alfusqueiro é cor de prata
foge-nos sob os pés correndo à toa
a sugerir o sonho de lisboa
o mar o rio o tejo uma fragata.
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___ O TELESCÓPIO HUBBLE
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Lá vai no ar o telescópio Hubble
Huble manuel da silva qualquer coisa
não é bem portugûes é john é ford waine
e vê tudo se diz como se o mundo fosse
um bolo muito grande mais amargo que doce
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vai no ar e palpita vendo a lua plutão
cinturas de asteróides ferro velho e então
emite um som bocado de cd
que diz permite ver eu não sei bem o quê
mas esse mundo antigo do tempo dos romanos
das guerras púnicas de atenas espartanos
o principio dos sóis azáfamas divínas
os vomitos de enxofre do alto das colinas...
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era bom e cegou-se o telescópio Hubble!
amaricano como toda a coisa
de pompa e de jornal
Hubble ou ford ou fonda não faz mal
foi concertado à força pelo robot
que subiu no chalenger vejam só
e pô-lo a ver mais lá no vazio
que a lente progressiva do meu tio
.
de resto tudo o que há é gêlo e morte
não há leste nem sul oeste ou norte
somente o telescópio sempre a olhar
para os buracos negros ao luar
e a transmitir em bipes permanentes
expectativas dos nossos ascendentes
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bom telescópio Hubble velho joe
talvez de oklaoma fall river eu sei lá
vai acabar no espaço quem sabe se entalado
entre ondas de neptuno desertos de titã
tirando fotogramas todo o ano
á matéria que gira numa anã
bem louco telescópio vai voar
quem sabe se até ultrapassar
o sistema nervoso e o solar...
________________UNIVERSO
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No céu existem estrelas planetas e cometas
grandes distâncias tremendas explosões
buracos sóis plasma e embriões
Células caldos àcidos provetas.
lllllll
Coisas comuns não há se não me engano
nem dúvidas problemas ou lixeiras,
nem há gestos nem rostos nem canseiras
nem viagens de metropolitano.
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O paraíso algures na imensidão
é um sítio irreal e bem profundo
onde os bens comportados deste mundo
passam o tempo a ver televisão.
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Destes locais de aspecto tão diverso
supõe-se haver um rei com um crachat
tão grande como o tempo que será
maior que a sua obra o universo.
lllllll
Estrelas planetas e cometas
na órbita real tal rei decerto
mas não parece o firmamento esperto
pois são poucos os livros e as canetas
______CRIAÇÃO____________
Subitamente,
raiou sobre o sistema o dia
a criação das àguas
irmã de vento e nuvens
pariu casualmente células câmbricas
e avós ilustres
pelas margens dos mangais
inundaram os deltas
a guelra que surgiu
milimetricamente
foi conquistando a poeira
domesticando a lama
crescendo cubicando
as exclamações
como fazem os deuses
nas suas vastidões
as órbitas imensas
perderam meteoros
e a relatividade
impôs cósmicamente
o tempo do degêlo
escondidos
atraz de abetos
de fetos de coniferas
sobre musgo e bactérias
e algas e potássio
tudo o que existiria então
no paraíso
Deus e o Diabo enfim
boquiabertos
cruzam os braços
ante a evolução.
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FUGA
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Quando eu era pequeno e tinha um arco
e o abismo real não existia
debaixo dos plátanos corria
pelo rego foreiro leve barco.
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Uma senhora feita de amarelo
no meu primeiro livro de leitura
escapava da folha e na textura
se dissolvia o manto e o cabelo.
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Assim fugi à escola sexta feira
imaginando letras que sabia
tão fixas na página que iria
ficar colado a elas na cadeira.
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Acomodei certo constrangimento
conjecturando em drama clemência
e minha mãe com toda a paciência
avisada cessou meu fingimento.
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Espanto meu as letras que a senhora
conservava no livro piamente
como balão sairam livremente
pela janela junto à professora.
PÁSCOA
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É domingo de Páscoa...
no meu tempo de menino do coro
ia-se à missa de manhã
vestia-se uma opa
de saber a doutrina
e de seguida
pequena procissão, lá ia a cruz
com o senhor vigário
o silva o sacristão
e de ordinário
carlos contabilista
uma saca encarnada
para a congrua esperada...
tlim tlim tlim
a campainha
anunciava de porta em porta
-Cristo ressuscitou, aleluia !
até ao fim da tarde
e tudo isto
por duas ou três bôlhas nos sapatos
roídos de cansaço
até à ceia na casa do juiz
um enorme cozido à portuguesa
cujo perfume nos chegava ao nariz
mal se entrava o quintal
todo ele odor
doces como cordeiros sobre a mesa
quase se adormecia
sob o olhar vermelho do prior
indiscutível braço do Senhor...
mas na segunda feira livremente
com quatro ovos num folar de pão
às portas de coimbra toda a gente
cumprir a tradição
já se esquecera judas escariote
o pôncio e os soldados a paixão
retomava-se a vida num fartote
de ovos cozidos na Ressureição...
é domingo de Páscoa pouco tem
p’ra lá do telejornal
jerusalém
vive um calvário japonês
de canoons nikons
ou handycam’s sonny
pela via dolorosa dum cristo
a encenar o drama da paixão
que havemos de espreitar na televisão
um soldado romano
copiado dum filme americano
uma coroa de espinhos e após
muitos crucificados actuais
no bloco das internacionais
não se vêem lilazes rosmaninho
mas um milhão de pessoas foi à praia
ao sul de espanha
trinta morreram em noventa acidentes
braga foi invadida por espanhóis
que vão fazer um jeito na estatística
à tarde não há juiz da igreja
e nada que recorde antigamente
pouco que seja
vão-se comprar uns ovos prateados
e ver uns coelhinhos pendurados
numas argolas que há no continente.
e seguimos prà casa engaiolada
onde moramos hoje hipotecada
mas que dizem ser lar e ser d’agente...
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______________NOVA YORK
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Penso viver em Nova York á margem
dos semáforos verdes no deserto
de transportar bilhetes na bagagem
cuja sala não tem programa certo.
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Misturar este corpo e estes braços
nos montes de sucata em avenidas
onde as pedras dão folhas e os passos
são desejos são ânsias são medidas.
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Calar ouvir no silêncio da rua
como vómito quente dum vulcão
o tremendo ruído que insinua
cada membro fiel da multidão.
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Completar o assombro da paisagem
na vastidão da órbita tão perto
que a urbe se desfaz como miragem
e a sala tem programa e tem concerto.
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Ajoelhar reconhecer esquecer
lavrar definitiva devoção
ao mito da memória de não ver
o que é ter ou não ter dolares na mão.
_________VIAGEM___________
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Na encosta noroeste da serra do buçaco
os cedros apinhavam-se nas pregas do sopé
colados ao estradão de macadame
as pedras deslizavam pelo declive
cobrindo-de de musgo nas barrocas
escondidas no tempo castanho
do citroen preto a galgar obstáculos
de natureza circundante
havia então pelo ar
o cheiro verde e gosto dos limões
a cadência era certa era pequeno o mundo
onde o brasil de meu avô
foi o limite das coisas conhecidas
a estrada morreu no alcatrão
enquanto as minhas calças compridas
se transferiram do egoismo
após todo o jejum original
o automóvel de cidade em cidade
incentivou a ânsia o exterior
o chão sedimentou sozinho
agora nascem silêncios em redor
espaços do hoje de ontem e a manhã
de nevoeiro a desenhar fantasmas
nos cedros do noroeste cresceram
como deuses e tapam as encostas
na busca persistente da luz
a medida do seu tempo detem-nos
no corpo e habitat das barrocas
onde o estradão abandonado
morre descalço.
________REGRESSO_____
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Quando vim de Paris trouxe comigo
um coração de Eiffel para te oferecer
tu saltas e sorris e que castigo
é dar-te o coração e não te ter .
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Foi nas margens do Sena que comprei
com moedas de francos teu olhar
se as àguas a correr viram não sei
sei lá se apenas eu te vi passar !
lllllll
Recolhi cá por dentro essa miragem
nos mais íntimos bolsos do meu ser
no bote dum pintor mudei de margem
até que o sol se pôs no entardecer.
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Traduzi tudo como vês num só
amuleto de azul e de interior
talvez p’ra além dos dois venha a ser pó
e depois de ser pó a ser flôr.
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Agora um beijo é bom tarde serena
p’ra te envolver nos braços e ficar
a consumir as horas como ordena
a vontade que tenho de tu dar.
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E de espalhar os teus cabelos leves
sobre o meu peito a fios de pincel
saborear o tempo pois são breves
os momentos de amor ternura e mel
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Quando vim de Paris trouxe o desejo
de te abraçar e dar a Torre Eifel
tudo o que foi foi pouco mais que um beijo
à noite recordado num papel.
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::::::::CLERMONT:::::.
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São verdes muito verdes
os montes de Clermont
são restos de vulcões
e da fita esticada
do preto da auto estrada
onde correm pneus da michelin
são verdes muitos verdes
os campos de Clermont
e por serem assim dizem é bom
desafiar a tecnologia
a fabricar arames de latão
nesta mitologia
de nova erupção
negras naves da sé
penduradas no céu
abrindo o apetite dum café
na praça da mairie
cheiram a terra a parto doloroso
convite precioso
para observar na bolsa
um Toulouse Lautrec...
à saída um senhor plastificado
envolvido em pneus faz-nos sinal
encantador e lesto bien jolie
ora tomba daqui ora dali
abrindo uma bochecha de content
-não não vão por aí por aí vão mal
há muitas obras em Clermont Ferrand...
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_______BÔKALÔ ___________
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Há mil janelas no céu de Bôkalô
na floresta plena primavera
liláses no jardim de roxo claro
duas cadeiras vagas sobre a relva.
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Verde em redor nos prados estendidos
onde as fendas da estrada fazem cama
uma porta p’ra rua sempre aberta
o calor duma noite procurada.
lllllll
No interior recordações sem fim
horas ganhas tranquilas acalmia
e um pequeno almoço feito de ovos
e lírios espalhados no caminho.
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Um janelão transporta a floresta
à nossa intimidade elaborada
desprende por momentos o redor
p’ra nos deixar fugir livres na manhã.
lllllll
Deitados a sonhar a ter presente
a imagem ausente desejada
como se as àrvores verdes nos beijassem
quando se vestem de claridade.
lllllll
Voltei a Bôkalô p’ra nunca mais
haver de lá voltar com a certeza
de desejar fazê-lo e marcar quarto
um dia à tarde pelo telefone.
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_______DISTÂNCIA_________
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Dista o que dista
d’outras civilizações...
ninguém sabe
onde fica o comando d’outra nave
se cada estrela é mundo
ou para lá de cada uma
das móveis ou imoveis
haverá astros e astros e astros
outros formatos e civilizações
outras vidas outras fornicações
sonhos que o homem põe
e deus esconde
para não nos mostrar por quanto
e até onde
controla o seu saber...
dista o que dista de sóis
luas galáxias
ou doutras vias lácteas
e de mais quê
de tudo o que se vê e se não vê
de tudo o que se crê...
...capacidade de multiplicar
volume de pensar...
para tudo acabar
num buraco tão negro
como um buraco negro
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______GALÁXIA_________
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Não há dias serenos como eram
de esperar nos tempos que decorrem
há sóis a explodir dias morenos
e distâncias enormes nos consomem...
dois mil e cem espaço sete sete
código amante luz noventa e três
a nave mãe navega no distante
mar de cervantes já lá vai um mês
autonomia à vista meios próprios
problemas nas comunicações
ano e meio de rumo kapa Kapa
comboio oculto para lá de radiações
quinze dias de luz jornal de bordo
terra é braseiro trópico incandesceu
aumenta tempestade e eu não sei
o que te aconteceu ...
são notícias antigas via urano
retransmissão giotto e prometeu...
relembro a côr castanha dos teus olhos
nas ameias da cerca em Santarém
as flores amarelas do vestido
as lágrimas de adeus que foi também
o contrato entre nós
no tgv do sul sonho veloz...
navegação frontal fuga aos pulsares
Kapa Kapa chamando português...
galáxia de andrómeda quinta feira
código amante...luz noventa e três
Allô...Allô...Allô
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________TANGO_________
_______________________
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Quando eu morrer
e for no autopulman
a caminho do céu
quero ver os teus olhos
estrelas cintilantes
na berma da viagem
dirás que vês passar
esse que foi rapaz
da camisola azul
com duas riscas brancas
e que cingiu o teu vestido verde
no baile de ano novo
e não te deu um beijo
pela vergonha
de não teres respondido
ao seu abraço
a caminho do céu
ao longo da paisagem
quero encontrar teus dedos
quero dançar contigo
um tango que se arraste
pelas veias do percurso
e sentir o teu colo numa brasa
ao som do mavioso saxofone,
no baile de ano novo
em mil novecentos
e sessenta e quatro.
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_______________LISBOA
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Lisboa, onze da noite
na bruma dos receios
no cais do nosso olhar
espero pela distância
e pelo atar dos laços
que o dia separou
nas ondas dos teus seios.
Lisboa está vestida
de ponte de lanternas
de noivado e à espera
do sítio de encontrar
mãos dadas a sorrir
no silêncio envolvente
é noite, é meia noite
é meia noite clara
na noite de Lisboa
vestida com a cor
do teu vestido preto
e as luzes que se espalham
beijam como luar
o rio prateado
de cais em cais
onde se amarra o sonho
e se pode ancorar.
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_____________MADRID
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É manhã é agosto e é Madrid
abafada em calor pela gran via
deserto duma noite adiantada
na frescura dos bares e das esplanadas
todo o corpo cedeu a essa sêde
ceifada num quiosque num gelado
que introduziu a noite e viajou
para cá da planície castelhana
peguei no telefone da cabine
às oito em ponto
para lembrar que a loucura me segue
além da raia em Paris Santiago
Lisboa Amesterdão ou em Madrid
ouvi o fio o outro lado lá
lá onde fica o verde das colinas
e as perguntas esperadas sem resposta
como quem pergunta por vós
mortos de guadarrama silenciados
no fusil em percurso numa ideia
uma revolta em vida encravada na vida
de todos os que mataram
às oito horas toca o telefone em ponto
e foi nem mais nem menos o toque
duma manhã de agosto por aqui
numa cabine pública em Madrid.
_______SILÊNCIO___________
___________________________
São muitos os silêncios
que nascem das palavras
ainda por dizer
e para trás ficaram
lilazes de Bokalô
os timpanos do tempo
que ferem as ausências
lapsos e ruídos
das silabas não ditas
dia a dia
são ásperos violentos os barulhos
que se procuram esquecer
na sombra doutros ventos
e as mãos que se fecharam
foram criando noutro lado
os vícios e as ânsias
não há cigarros na praça da república
mas há sempre uma praça em qualquer lado
da republica
para acender um cigarro
ou comprar um jornal
ou lembrar um passado
ou sentar-se num banco
da vida duma praça
no fumo do percurso recordando
lilazes de Bokalô
na hora certa da ceifa
na duvida das palavras e silêncios
que nunca se disseram.
..
